Monday, August 04, 2008

Boas vindas à Santa!


No deserto de publicações de qualidade sobre artes visuais no Brasil, a chegada da revista trimestral Santa Art Magazine merece ser aplaudida com entusiasmo. Apresentada pelo editor Sérgio Maurício como uma "revista-galeria", Santa tem um grande formato, projeto gráfico refinado e papel e impressão de alta qualidade, como convém ao seu conteúdo.

A pauta do primeiro número sugere uma linha editorial aberta e não comprometida. Destaco a entrevista de Affonso Beato, as telas de Gabriella Machado (apresentada por Ronaldo Britto) e o ensaio fotográfico de Marcos Prado sobre o Tibet (acompanhado de um artigo de Pedro Karp Vasquez). Como único reparo, eu diria que a fotografia ocupou um espaço grande demais nesta edição (quando comparado às outras artes visuais). Mas a revista tem tudo para se consolidar, nos próximos números, como uma publicação de referência., para ler e colecionar.

O lançamento é amanhã, na Livraria da Travessa de Ipanema, às 19h.

Monday, July 14, 2008

Notas breves

Coisas que anotei para mais um post sobre arte:

. Anos atrás, os separatistas bascos planejaram explodir uma bomba numa escultura de Jeff Koons exposta no Guggenheim de Bilbao. Falharam - infelizmente.

. Hilton Kramer e Jed perl são dois críticos ditos conservadores preocupados com o futuro da arte: eles acham que a platéia dos museus está evaporando (ao menos a platéia que interessa)

. Já Tom McEvilley, outro crítico americano, acha que um novo cânone se estabeleceu na arte quando o MoMA pagou1 milhão de dólares pela série de fotografias Untitled Film Stills, de Cindy Sherman. Aquele foi o ponto de mutação para a pós-modernidade. Pessoalmente, gosto desse trabalho. Mas tenho o livro que reproduz todas as fotos (cerca de 70), em excelente impressão, e isso me basta perfeitamente para apreciar o trabalho. Há algo de forçação de barra em querer transferir à fotografia a aura da escultura ou da pintura, mesmo que sejam fotografias em tiragem limitada etc. Fotografia não tem original, tem negativo e cópias. Reconheço que fotografias podem ser obras de arte, é claro, mas há muito de manipulação por trás das cotações dos artistas-fotógrafos.

. O Turner Prize merece um post à parte: já há mais de dez anos ele vem pautando o mercado de arte contemporânea, de uma forma altamente manipulada. O prêmio transforma imbecis em gênios da arte contemporânea, cujas cotações sobrem meteoricamente, enriquecendo os organizadores do prêmio.

. Sobre a obra de Beatriz Milhazes, cito a artista americana Jacqueline Humphreys: "When abstraction tries to become merely likeable it becomes decorative".

Wednesday, July 09, 2008

Festival de Besteiras



Parodiando Sérgio porto, o FEBEAARCO - Festival de Besteiras que Assola a Arte Contemporânea - continua. Desta vez a notícia vem de Londres. Uma instalação do artista inglês Martin Creed consiste no seguinte: um atleta atravessa correndo uma galeria a cada 30 segundos.

A instalação, intitulada Obra Número 850 (imagine as outras 849…) está sendo patrocinada pela Sotheby’s e foi inaugurada no dia 1 de julho, na galeria de escultura neoclássica do Museu Tate Britain.

Vale a pena ler a explicação de Creed, que recebeu em 2001 o Turner Prize, por outra instalação - uma sala vazia em que uma luz se acendia e apagava (esta foi a Obra Número 277):

“Gosto de correr. Correr é o oposto de ficar parado. Se você pensar na morte como sendo a imobilidade total e no movimento como sinal de vida, então o movimento mais rápido possível é o maior sinal de vida. Assim, correr rápido é como o oposto exato da morte: é um exemplo de estar vivo.”

Já o diretor do museu, Stephen Deuchar, afirmou que a obra “derruba qualquer idéia preconcebida sobre a maneira apropriada de se percorrer um espaço de arte”.

O Tate Britain faz um alerta aos visitantes: “Por motivos de segurança, pedimos que o público não corra ou crie obstáculos aos corredores.”

Comentar o quê? Não sei o que é mais imbecil, se a explicação do artista ou o comentário do diretor do museu.

Tuesday, July 01, 2008

Sobre cinema

Não sei se acontece com o leitor, mas comigo está cada vez mais difícil assistir a um filme em DVD do começo ao fim. A possibilidade de apertar a tecla pause a qualquer momento, ou mesmo de deixar o resto para outro dia, somada às solicitações caseiras do cotidiano, faz com que eu esteja me tornando um especialista em ver (ou rever) filmes pela metade. Ao longo dos anos, aliás, fui comprando aqueles de que mais gostava, com a convicção de que lhes assistiria diversas vezes. A maioria ainda está lacrada.

Esta é a principal razão pela qual continuo indo ao cinema, mesmo não gostando de filas nem da proximidade física com estranhos, nem dos celulares que tocam, nem do barulho das pessoas - por que será que as mais faladeiras sempre se sentam perto da gente?

Quando o filme é bom, vale a pena o esforço, é claro. Mas isso também está se tornando cada vez mais raro. Os filmes estão piorando ou serei eu que estou ficando mais chato? (Não precisam responder!)

A verdade é que, no cinema - como na literatura, como nas artes plásticas - boa parte da produção do presente (como de qualquer época, aliás) é muito ruim. Os cineastas, escritores e artistas do passado que sobreviveram ao teste do tempo são aqueles que realmente valem a pena. Ou seja, só as futuras gerações saberão se algo da produção contemporânea realmente presta.

Mas no cinema, particularmente, acho que aconteceu um processo de infantilização. Houve um tempo em que havia filmes feitos para adultos, que levantavam questões sérias sobre a vida e nossa relação com o mundo. Hoje a grande maioria das produções exige muito pouco do espectador - mas também oferece muito pouco, além de um entretenimento pré-mastigado.

Incluo nessa categoria mesmo alguns cineastas supostamente “esperimentais”, tidos como grandes autores, que na verdade também oferecem diversão fast-food à platéia, cada vez menor, de cinéfilos, gente que ainda sabe quem foram Bergman e Antonioni etc. É o caso, por exemplo, do estiloso Won Kar Wai, diretor do superestimado “O BEIJO ROUBADO”, ainda em cartaz no Rio: espremendo, não sai nada.

Isso posto, seguem minhas impressões sobre filmes que vi - do início ao fim! - nas últimas semanas:

“O ESCAFANDRO E A BORBOLETA”, de Julian Schnabel:

Schnabel é um excelente diretor, como demonstrou em Antes do anoitecer. Ele transforma numa narrativa redondinha a história (verdadeira e altamente deprimente) do jornalista francês que sofre um AVC e só consegue se relacionar com o mundo através do olho esquerdo. Mas qual é exatamente o ponto do filme? O balanço que o protagonista faz da própria vida não surpreende pela profundidade. Faltou aquele momento revelador que transformasse um caso tristíssimo numa grande obra - como, por exemplo, o clássico “Johnny vai à guerra“, que narra uma situação parecida. Destaque para a atuação do veterano Max von Sydow como pai do jornalista.

“AMAR NÃO TEM PREÇO”, de Pierre Salvadori:

Adorei. Audrey Tautou (a Amélie Poulain) está ótima no papel da golpista ambiciosa que acaba se apaixonando por um garçom. Na superfície, é uma comédia altamente eficiente, que atualiza o gênero de forma criativa, com alguns momentos engraçadíssimos. Mas não é só isso: o filme expõe ao ridículo os valores do consumo e da aparência, a transformação da beleza e da juventude em moeda de troca e outros aspectos do modo como vivemos hoje.

“A ÚLTIMA AMANTE”, de Catherine Breillat:

Acho que foi Samuel Füller quem disse que bastam duas ou três cenas muito ruins para estragar definitivamente um filme, e a diretora Cathérine Breillat erra a mão mais do que duas ou três vezes nesta produção de época. O contraste entre a exagerada Asia Argento - outro dia uma menina, hoje uma senhora, o que torna mais evidentes suas limitações como atriz - e o inexpressivo restante do elenco, entre outros detalhes, torna difícil levar o filme a sério: os momentos supostamente mais trágicos provocam risadas na platéia.

“SEX AND THE CITY - O FILME”, de Michael patrick King:

Mais deprimente que “O ESCAFANDRO E A BORBOLETA”. Triste assistir a quatro quarentonas pensando e se comportando como adolescentes. Um hino à futilidade e ao Botox - extensivo ao ator que interpreta Big. Pior é que filmes assim acabam estabelecendo modelos de comportamento e reforçando valores os mais tortos, e não apenas entre as Patricinhas de todas as idades: a mensagem é que ter uma bolsa Louis Vuitton é o ideal de felicidade para mulheres de todas as classes. Depois reclamam da pirataria…

Friday, June 27, 2008

Sobre arte

. Em artigo publicado no Segundo Caderno de O GLOBO, na quarta-feira, a artista e curadora Ligia Canongia se queixa do fato de artistas contemporâneos brasileiros serem desconhecidos do público. Pelo que entendi, ela atribui o fenômeno à falta de apoio do Governo e de investimentos da iniciativa privada.

Não é bem assim. Recentemente, o Governo federal gastou um milhão de euros para mandar dezenas de galerias comerciais e centenas de artistas à Espanha. E os galeristas sequer divulgaram os negócios que foram fechados! Ou seja, viajaram com dinheiro
público para auferir lucros privados. Apenas uma ilustração de que a falta de transparência é uma caracerística típica do mercado de arte no Brasil.

Além do mais, se as pessoas não conhecem esses artistas, não é por culpa do Governo nem da iniciativa privada, mas porque a arte contemporânea não se comunica mais com o público. Com honrosas exceções, é uma grande bobagem, feita para alimentar um sistema especulativo dominado por panelas que se elogiam mutuamente.

Muito mais grave do que a falta de acesso aos artistas que a articulista citou (alguns dos quais aprecio, como o José Damasceno) é não se encontrar exposta no Rio de Janeiro nenhuma obra, por exemplo, do Iberê Camargo e outros artistas deliberadamente ignorados pela turma que ocupa, simbolicamente, o poder - turma para quem a única arte brasileira que conta é aquela que deriva de Lygia Clark e Helio Oiticica. Iberê é pintor, né? Coisa mais fora de moda. Arte mesmo é amarrar uma tartaruga num aspirador de pó e chamar de instalação.

. Ou então repetir procedimentos que artistas americanos fizeram há 30 anos como se fossem grandes novidades - e chamar de intervenção. É o caso dos cartazes o artista Alexandre Vogler está espalhando pelo Rio de Janeiro - una foto de mãos femininas com unhas vermelhas entrelaçadas sobre a vagina, simulando um anúncio de esmalte, com o slogan “Base para unhas frágeis”.

Leio que moradores estão protestando contra o mau gosto da obra, que pretende denunciar o sexismo da publicidade, a fetichização da mulher etc. Pretende também, como sempre, “provocar uma reflexão”. Soa a uma importação bastante atrasada das questões de gênero que artistas americanos(as) exploraram à exaustão décadas atrás.

. Leio, por fim, que conservadores do Museu do Prado contestam que o famoso quadro O Colosso tenha sido pintado por Goya, por volta de 1810. Durante quase 80 anos, o quadro esteve exposto com destaque no museu e era considerado uma dos tesouros da arte espanhola. O Colosso representa um gigante enfurecido que ameaça uma cidade - referência à guerra da independência de Madri, em 1808, como reação à invasão napoleônica.

Seja ou não de Goya, é um quadro que, 200 anos depois de pintado, conserva sua força e seu poder de comunicação com o público. É uma obra permanente, como toda grande arte costumava ambicionar ser.

Thursday, June 19, 2008

Carla Bruni

Mas quem se deu bem mesmo foi o artista francês Michel Comte. Ele vendeu em abril, num leilão da Christie's, essa fotografia de Carla Bruni, atual primeira-dama da França. A foto (gelatin silver print, 32.5 x 22.5cm) é de 1993 e foi arrematada por 91 mil dólares.

Mais leilão

Continua a temporada de leilões de arte contemporânea da Sotheby's. No próximo dia 1, em Londres, serão leiloadas obras importantes de Andy Warhol, Jean-Michel Baquiat, Lucio Fontana, Yves Klein, Takashi Murakami e do chinês Zhang Xiaogang, entre muitos outros. Mas a expectativa maior é em relação aos dois quadros abaixo, de Francis Bacon, avaliados em mais de 20 milhões de dólares:
Study for Head of George Dyer
Figure Turning
No mesmo leilão, vejam que gracinha, estará a venda essa obra de Jeff Koons, vendida pela mesma Sotheby's em 2000 por 230 mil dólares. Estimativa atual: 750 mil a 1 milhão de libras. Por incrível que pareça, quem arrematou a peça oito anos atrás se deu bem.
Yorkshire Terriers
É difícil acreditar que haja alguém disposto a pagar tanto por uma bobagem dessas, mas o que está em jogo aqui não é mais arte, é especulação e investimento. Em todo caso, essa escalada de preços me faz lembrar aquelas "pirâmides", em que as pessoas ganham dinheiro fácil às custas da credulidade alheia - até o momento em que faltam otários para bancar a brincadeira. Qual é o lastro dos valores estratosféricos que algumas obras sem qualquer valor estético vêm alcançando?

Wednesday, June 18, 2008

Franz Ackermann


Nada se cria, tudo se copia.

David Mamet no mundo do vale-tudo


Assisti ontem à noite à pré-estréia de Cinturão Vermelho, de David Mamet, que traz Rodrigo Santoro e Alice Braga no elenco. Quero dizer logo que considero Mamet um gênio, um dos maiores cineastas vivos, e gostei muito do filme, o melhor que ele dirigiu nos últimos tempos. Além disso, a presença de dois atores brasileiros em papéis importantes é motivo de verdadeiro e justificado orgulho.

Isso posto, passo a compartilhar algumas coisas que passaram pela minha cabeça enquanto via o filme.

. Continuo achando insuperáveis os primeiros trabalhos do diretor - Jogo de Emoções e As Coisas Mudam. Ali ele já estabelece toda uma sintaxe visual e narrativa, o estilo próprio e altamente teatral de direção que repetiria nos filmes seguintes. Ou seja, características como os enquadramentos fechados, a ênfase nos diálogos, as pegadinhas do roteiro, perdem um pouco de impacto, com o tempo. A fronteira entre estilo e fórmula pode ser sutil. Mal comparando, sinto a mesma coisa quando leio os romances de Paul Auster - sempre muito bons, mas com a sensação de déjà vu.


. Mamet é inigualável, porém, na exposição da ambigüidade moral da sociedade americana. A pressão pelo sucesso e a ambição financeira afetam a vida de seus personagens de forma quase patológica, o que é enfatizado pela forma pouco convencional com que o diretor quebra clichês narrativos, sempre contrariando as expectativas da platéia. Só há salvação no indivíduo, parece ser a mensagem de seus filmes, pois a sociedade está incuravelmente doente, ou melhor, ela é fundada em valores doentes.

. Alice Braga se sai melhor que Rodrigo Santoro, a ponto de parecer que o papel dela é bem maior que o dele, maior do que é na verdade. Não que a atuação de Santoro seja ruim, mas ele simplesmente não convence muito: é um ator interpretando corretamente um papel, enquanto Alice entra completamente na sua personagem e parece entender melhor o espírito dos filmes de Mamet, que exige de cada ator uma inteligência sutil e uma tensão contida, por enfatizar as entrelinhas do texto e das situações. Acho mais fácil voltar a ver Alice do que Rodrigo num filme futuro de Mamet - que gosta de trabalhar sempre com os mesmos atores, como se sabe (é interessante acompanhar o envelhecimento deles a cada filme, aliás).

. Por fim, não posso deixar de observar o seguinte: é lamentável que um filme que aborde o universo do jiu-jitsu e do vale-tudo nos Estados Unidos nao cite em um momento sequer o nome Gracie. Conheço bem essa história e posso afirmar que é, no mínimo, uma injustiça - ainda maior pelo fato de o próprio Mamet treinar jiu-jitsu há sete anos.

A seguir, o trailer do filme:

Saturday, June 14, 2008

Boludo


A obra escolhida para ilustrar a capa do próximo leilão de arte contemporânea da Sotheby's é essa aí: uma bola de futebol em bronze, de Jeff Koons. Dãããããã...

Estimativa de valor: 120.000 a 180.000 libras. E nem é uma peça única, ele fez três iguais. Está sobrando dinheiro no mundo.

Por que será que ninguém aponta o dedo para esse tipo de impostura? Acho que começo a entender a psicologia do artista contemporâneo do Terceiro Mundo: ele vê essa bola e pensa "Num sistema em que uma obra assim vale tanto, eu também tenho chance de me dar bem. Então vou elogiar o Jeff Koons e apoiar esse sistema". Está fazendo papel de otário, é claro, ou de inocente útil, culturalmente colonizado. É triste a situação da arte contemporânea.

Arte em leilão

Dois leilões importantes serão realizados este mês em Londres pela Sotheby's - um de arte moderna e outro de arte contemporânea. Uma análise dos lotes (disponível no site da casa de leilões, www.sothebys.com) revela alguns aspecxtos interessantes do mercado.

Claude Monet
La plage à Trouville, 1870

Por exemplo, o quadro acima, de Monet, foi arrematado em outro leilão da Sotheby's há pouco mais de um ano, em novembro de 2006. E já está à venda. É um dos mais caros do leilão: está avaliado entre 7 e 10 milhões de libras, mas pode chegar a muito mais.

Segue uma lista outras obras modernas que serão leiloadas em Londres, no próximo dia 25. Depois vou postar aqui os preços finais de cada obra (que em muitas casos diferem muito das estimativas, como aconteceu recentemente com um quadro da Beatriz Milhazes). Depois farei o mesmo em relação ao leilão de arte contemporânea, que inclui um bocado de baboseiras de Jeff Koons, Damien Hirst etc.


Pablo Picasso, 1881-1973 TÊTE DE FEMME (DORA MAAR)
Óleo: 3,000,000 – 5,000,000


Henri Matisse, 1869-1954 PÊCHES
Óleo: 1,800,000 – 2,500,000 libras


Alberto Giacometti, 1901-1966 TROIS HOMMES QUI MARCHENT I
Bronze: 4,000,000 a 6,000,000 libras


Marc Chagall, 1887-1985 LES CHARPENTIERS
Óleo: 400,000 – 600,000 libras


Egon Schiele, 1890-1918 KAUERNDE MIT BLAUEN STRÜMPFEN
Guache: 1,250,000 – 1,750,000 libras


Edgar Degas, 1834-1917 FEMME À SA TOILETTE
Pastel: 500,000 – 800,000 libras


Edvard Munch, 1863-1944 FROM ÅSGÅRDSTRAND
Óleo: 2,000,000 – 3,000,000 de libras

Thursday, June 12, 2008

Daniel Senise no MAM


Vai que nós levamos as partes que te faltam, 2008
aquarela sobre papel em alumínio
120 x 1200 cm
Coleção do artista
644 pequenas aquarelas pintadas uma a uma compõem este painel, que reproduz o piso do corredor do apartamento do artista. O título do trabalho foi retirado de um trecho do romance Terra sonânbula, do escritor moçambicano Mia Couto.


Daniel Senise continua leal à pintura. A obra acima está exposta no MAM do Rio de Janeiro. Vale a pena ver.Senise é provavelmente o melhor artista de sua geração - a que surgiu nos anos 80, dando um novo vigor às artes plásticas brasileiras. Ele se destacou pela preocupação com a técnica, cada vez mais rara hoje em dia: para ele pintura também é artesanato.

Nos quadros de Senise não há lugar para o acaso: tudo é milimetricamente pensado. A explicitação dos recursos pictóricos é conjugada a um vocabulário visual denso e atemporal. Smpre problematizando a própria natureza da arte, ele é um artista que não envelhece, ao contrário de outros que aparecem na crista de modismos e depois somem sem deixar vestígios.

Depois de tantas sentenças de morte da pintura, Daniel Senise continua sendo um pintor: sua reflexão sobre o mundo passa pela tela, pelo picel, pela tinta. Ao contrário de tantos artistas de instalações, ele nunca se acomoda, nem se repete. Cada quadro seu, mesmo quando sugere uma experimentação gratuita, traz questões relevantes sobre os limites e os rumos da arte. No conjunto, trata-se de uma obra das mais consistentes, porque sincera e sem artifícios.

Vai que nós levamos as partes que te faltam
MAM - Rio de Janeiro
06 junho - 20 julho de 2008

Wednesday, June 04, 2008

Três velhinhos franceses em alta

Três artistas franceses vivos atingiram a marca notável de 1 milhão de euros em leilões realizados este ano. Dois são pintores, e os três têm idade avançada: Louise Bourgeois (quase centenária, com 97 anos!), Pierre Soulages (89 anos)e Georges Mathieu (87 anos). Mas o mercado de arte contemporânea na França atravessa um período de grande instabilidade. As estrelas consagradas continuam se valorizando, mas no conjunto as vendas estão diminuindo. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer, mas a disposição para o risco do investimento em artistas jovens tende a diminuir. É interessante observar, também, que em períodos de incerteza os investidores e colecionadores correm para a pintura. Enquanto isso, no Brasil, o curador da Bienal de Sãu Paulo debocha do "quadro pendurado na parede".

Seguem obras representativas dos três velhinhos:

Louise Bourgeois, The Woven Child, 2002

Pierre Soulages, Peinture, 1958


Tibériade, Georges Mathieu, 1967

Sunday, June 01, 2008

Matisse e Joyce

Reunir dois gênios nem sempre dá certo. Em 1935, a Limited Editions Club publicou uma edição do Ulisses, de James Joyce, com ilustrações encomendadas a Henri Matisse. Dois 1.500 exemplares impressos, todos foram assinados por Matisse, mas apenas 250 também levam a assinatura Joyce. Hoje cada um desses exemplares é uma raridade de colecionador e vale cerca de 35 mil dólares, se estiver bem conservado.


Joyce também deveria ter assinado a tiragem inteira, mas ficou aborrecido quando soube que Matisse fizera as ilustrações com base na Odisséia de Homero, e não na leitura de seu romance. Segundo o relato do editor George Macy, é provável que o artista só tenha lido (na tradução francesa de Stuart Gilbert) o suficiente para perceber o paralelo do livro com o clássico grego. Quando perguntaram a Matiosse por que suas ilustrações tinham tão pouca relação com o romance de Joyce, o artista respondeu com franqueza: "Je ne l'ai pas lu".

Vale lembrar que Ulisses ainda era motivo de escândalo em 1933: até apenas dois anos antes, o romance estava proibido nos Estados Unidos.

Nas ilustrações, a capa e alguns dos 26 desenhos de página inteira que Matisse fez para o livro:


Saturday, May 31, 2008

Beatriz Milhazes vale 1 milhão de dólares?


No último dia 15, no leilão de arte contemporânea da Sotheby's, a pintura O Mágico, de Beatriz Milhazes (avaliada em 350 mil dólares), foi vendida ao colecionador argentino Eduardo Costantini por 1,049 milhão de dólares, um recorde para artistas brasileiros vivos.

A Beatriz Milhazes é uma versão melhorada do Romero Britto. Os dois criaram um vocabulário visual de fácil assimilação, sob medida para novos ricos que vêem na arte um sinal de distinção social ou uma forma de investimento, mas ao mesmo tempo entendem a arte como decoração. Mas, por outro lado, é preciso perguntar em nome de que propostas outros artistas torcem o nariz para eles, já que todo mundo se rendeu ao mercado e ninguém discute mais nada, nem propõe nada realmente novo. Se o sucesso vira critério estético, a Beatriz e o Romero têm que ser considerados grandes artistas. Esta é a armadilha na qual a arte contemporânea está caindo.

A valorização de artistas brasleiros deve ser festejada, mas o problema é que o que passa a ser importante na arte é apenas isso: as cotações que ela atinge. Ninguém discute a arte em si, porque há panelas e interesses os mais diversos em jogo. Se o artista se une incondicionalmente ao mercado e às instituições, a sua produção acaba ficando domesticada e sem relevância. É o que está acontecendo com a arte contemporânea, que cada vez mais tem um status parecido com o da moda. As somas movimentadas são cada vez maiores, mas qual a importância real da produção atual?

Saturday, May 24, 2008

Sobre a Bienal

Sobre a próxima Bienal de São Paulo, já consegrada como "a Bienal do vazio", li algumas declarações interessantes, que transcrevo e comento a segir:

“Estamos num excelente momento para repensar o papel das exposições realizadas pela Bienal no mundo globalizado. (...) Seria interessante definir os caminhos da instituição neste século.” (Manoel Francisco Pires da Costa, presidente da Fundação Bienal)

“Considerando a perspectiva local inserida num circuito global em que as bienais operam, elas correm o risco de se tornar provedoras do exotismo para consumo, de espaços de interação com a alteridade (diversidade cultural, racial, econômica), e dos álibis políticos e sociais para a economia globalizada do capitalismo transcontinental. O modelo parece criticamente exaurido, banalizado (...) Ao sistematizar uma reflexão sobre as bienais, reavaliar as qualidades e objetivos, promover uma reflexão sobre sua vocação, a Bienal de São Paulo poderá definir um novo papel de protagonista entre as tantas mostras de artes visuais periódicas que povoam o mundo neste século.” ” (Ivo Mesquita, curador)

(Depois comento)

Será arte?


Tail (1992), obra da artista plástica contemporânea Kiki Smith

Thursday, May 22, 2008

Matisse em ação


Matisse e sua modelo em 1939. Fotografia de Brassai.

Keith Haring


A foto acima mostra Keith Haring em ação no metrô de Nova York, em 1983. Nessa altura ele já era uma celebridade internacional e fazia sucesso comercial, mas suas cotações no mercado começaram a subir de verdade quando foi divulgado, no final dos anos 80, que ele era HIV-positivo, confirmando uma previsão que ele próprio fizera numa entrevista: "Em minha vida fiz muitas coisa, ganhei muito dinheiro e me diverti muito. Mas também vivi em Nova York nos anos do ápice da promiscuidade sexual. Se eu não pegar AIDS, ninguém mais pegará". Haring morreu aos 31 anos, em 1990. Hoje suas obras estão entre as mais caras da arte contemporânea.

A descoberta de dois artistas foi fundamental para a carreira de Haring. Primeiro, foi ao assistir a uma conferência de Christo, no final dos anos 70, que ele se sentiu motivado a desenhar em espaços públicos, de forma que pessoas comuns pudessem esbarrar em suas obras; mais tarde, foi ao conhecer os graffitis de SAMO, pseudônimo de Jean-Michel Basquiat - que também virou um super-astro da arte e também morreu precocemente, de uma overdose de heroína - que Haring deu um rumo definitivo à sua obra, desenvolvendo o vocabulário visual que se tornaria sua marca registrada: bebês engatinhando, discos voadores, cachorros latindo, pirâmides vibrando, homenzinhos que voam, sempre desenhados de maneira crua e rápida.

O sucesso, como costuma acontecer, veio acompanhado de muitas críticas: rico e famoso, Haring ficou amigo de Madonna e Andy Warhol e passou a circular na alta sociedade. Além disso, emprestou sua arte a anúncios de bebidas e automóveis - e abriu uma empresa para comercializar produtos com desenhos seus. Além disso, parou de desenhar no metrô: seus desenhos eram roubados poucas horas depois de concluídos, e ressurgiam à venda em poucos dias. Por tudo isso, muita gente o acusou de estar se vendendo - expressão que faz cada vez menos sentido, na medida em que os artistas contemporâneosn incorporam os valores neoliberais do sucesso financeiro.

Pessoalmente, acho o trabalho de Keith Haring engraçadinho. Mas não tem a profundidade nem a sutileza que espero encontrar na arte verdadeira. Que obras que ele rabiscou em poucas horas, numa produção em série, cheguem a valer milhões de dólares me parece incompreensível.