Monday, December 17, 2007

O artista, o mercado e o desenho apagado



Já deu para perceber que arte contemporânea é um tema riquíssimo para debates, em parte porque a reflexão crítica nessa área está aparentemente congelada já há algum tempo no Brasil. Os críticos foram confinados à modesta posição de escrevedores de prefácios para catálogos, quando endossam o que se produz, ou simplesmente expulsos de cena pelos mecanismos reguladores do sistema da arte como mercado. A desvalorização do crítico não aconteceu apenas nas artes plásticas (a crítica de cinema na grande imprensa, por exemplo, foi subtituída por sinopses mínimas, acompanhadas de avaliações aleatórias na forma de estrelas, "bonequinhos" etc). Mas no mundo da arte esse processo foi tão radical que o artista simplesmente se desacostumou a ser criticado: ele verá sempre uma "má intenção", uma "posição política" ou coisa que o valha em quem ousar questionar sua obra. Este foi um dos efeitos do chamado "fim da arte", isto é, como cada um faz o que dá na telha e não existem mais critérios de valoração (senão os do mercado), o questionamento da obra é recebido como ofensa pessoal.

A minha tentativa nos textos sobre arte é entender como chegamos a esse ponto, e algumas coisas começam a ficar claras para mim: no cerne da questão (no coração da matéria, para citar Graham Greene), está a assimilação pela lógica do mercado de projetos, práticas, idéias e valores que, em sua origem, se contrapunham ao próprio mercado. O exemplo clássico e inevitável é o de Marcel Duchamp com seus ready-mades. O gesto de expor o urinol como objeto de arte foi de rebeldia: como o próprio Arthur Danto reconhece, Duchamp se opunha à concepção do "grande artista" como estrela ou herói cultural, por pensar que a adoração exagerada do artista levaria a conseqüências desastrosas. E hoje ninguém é mais adorado do que Duchamp, ironicamente.

O gesto de Duchamp foi destrutivo e anti-artístico. Graças a Duchamp a mão do artista, a técnica, o artesanato deixaram de ter importância - a criação sem a intervenção direta do artista era aliás um ideal dadaísta. Isso teve algumas conseqüências maravilhosas e outras trágicas para a arte. E, nunca é demais lembrar, o urinol é de 1917: tem 90 anos. Uma coisa é reconhecer sua importância histórica, outra é continuar se comportando como se este fosse o último grito da criação artística.

Além disso, o gesto de Duchamp poderia ter tido desdobramentos completamente diferentes. A conspiração de circunstâncias que transformaram o urinol numa obra seminal constituiu um dos momentos-chave aos quais é necessário voltar para se entender a arte moderna e contemporânea. Mas houve outros, naturalmente. Por exemplo, em Berlim, em 1922, Laszlo Moholy-Nagy pegou o telefone (uma tecnologia relativamente recente n época), ligou para uma fábrica de placas e encomendou cinco "pinturas", passando oralmente para o atendente as coordenadas de cores, geometria e outros elementos espaciais [imagem no alto]. As obras, produzidas sem o contato e sem a presença direta do artista, ficaram conhecidas como "telephone paintings". Ora, o que Moholy-Nagy estava propondo, 85 anos atrás, era uma discussão sobre as noções de autoria e anonimato, originalidade e repetição, sobre o status cambiante do objeto artístico numa era de reprodutibilidade técnica (na expressão imortalizada por Walter Benjamin).

São temas retomados hoje numa clave pós-moderna, só que ninguém leva essas questões às suas últimas conseqÜências, isto é, à desaparição do criador individual e à inserção/dispersão da criação artística num contexto impessoal, coletivo e tecnológico. Décadas depois de Moholy-Nagy, artistas como Donald Judd e Jeff Koons copiaram a idéia, atribuindo a execução de suas obras a engenheiros e artesãos - mas, é claro, sem abrir mão da "autoria", da fama e de outras recomepnsas. Ora, hoje, os artistas que se proclamam herdeiros desses gestos de ruptura de rebeldes só concervam a atitude: na verdade estão muito bem "colocados" no sistema da arte. Apesar de tomarem como modelo gestos de oposição ao mercado e à própria noção de autoria, na hora de receber os louros (e euros) se aferram a um ideal romãntico de criador individual.

Ou seja, o sistema da arte agiu transformando gestos de transgressão e revolta de 80 ou 90 anos atrás em modelos de sucesso comercial. Já que a habilidade e técnica artísticas perderam sua relevância, os artistas passaram a poder fazer obras de arte sem na verdade fazer coisa alguma, ou até mesmo desfazendo obras já feitas: foi assim que, já em 1953, Robert Rauschenberg pediu autorização a Willem de Kooning para APAGAR um de seus desenhos, como um gesto de arte. O resultado, o desenho apagado intitulado Erased De Kooning, é representativo dos (des) caminhos que a arte tomou. No alto, a obra e um vídeo em que Rauschenberg a comenta.

Ora, quando eu olho Erased De Kooning, a minha sensação é de que, diante dessa obra, são duas as reações possíveis: a primeira é a de uma fascinação adolescente, a de olhar para algo inusitado e "comprar" a idéia; a segunda é de questionamento adulto, a de olhar algo inusitado e perguntar "Tudo bem, mas e daí? Vamos mesmo reconhecer (e valorar) isso como obra de arte?". O sistema da arte contemporânea depende de um pacto com a crítica e o público, que ao reagirem da primeira forma referendam esses sistema, isto é, engolem como arte tudo o que for "vendido" como arte. Ainda bem que não sou crítico de arte e não preciso me comprometer com esse pacto!

PS Digo que não sou crítico de arte porque não estou interessado no julgamento e na análise de obras de arte em si, premissa da atividade crítica; mas sim em entender a menira como a arte opera na sociedade hoje. O que venho tentando fazer aqui está mais próximo, portanto, de um estudo cultural/jornalístico que de um ensaio crítico.

Pluralismo singular


“Tentei incorporar à minha atividade como crítico lições que aprendi com a filosofia: escrever com clareza, concisão e coerência. Muito da crítica de arte não passava (e ainda não passa) de um amontoado de jargões e idéias vagas” (Arthur C. Danto)

“Talvez o que mais ouça tolices seja um quadro de museu!” (E. e J. de Goncourt)

Arthur C. Danto fez carreira acadêmica como filósofo (escreveu um livro interessante sobre Sartre, por exemplo, já lançado no Brasil), e ele mesmo conta que enveredeou pela crítica de arte por acaso, em 1984, quando foi convidado a assinar uma coluna na revista The Nation. (Curiosamente, no ano anterior, ele tinha escrito o ensaio em que inaugurava sua reflexão sobre o fim da arte). Mais ou menos na mesma época, outro crítico, Hans Belting, publicou o ensaio O fim da História da arte?, em que desenvolve idéias parecidas, mas chega a conclusões diferentes. Danto procura fazer um diagnóstico mais imparcial da situação atual da arte, enquanto Belting endossa as conseqüências do seu “fim”. Para os dois, o que se esgotou não foi a arte em si, mas um tipo de pensamento sobre a arte, que já não daria conta da produção atual, isto é, pós década de 60.

Considerados figuras de proa na reflexão sobre a arte contemporânea, Danto e Belting são pensadores sérios, cuja leitura faria bem a muitos praticantes da arte “Caninha 51”. Há quem diga que eles chegaram no Brasil com atraso, e que já existem outros debates em curso na Europa e nos Estados Unidos, o que é verdade. Mas mesmo assim eles estão muito adiante da mentalidade que prevalece no Brasil, onde discutir a idéia do fim da arte é uma heresia. Por outro lado, o que eles escrevem não deve ser recebido como as sagradas escrituras: seus ensaios só serão úteis se servirem a um debate inteligente e livre de preconceitos. Em outro momento vou resenhar livro de Belting; por ora vou desenvolver a análise das idéias de Danto iniciada dois posts atrás.

Recapitulando, Danto resume a história da arte em três períodos. O primeiro, gigantesco, vai desde os primórdios, na Grécia antiga, até os artistas acadêmicos franceses do século XIX: a questão ali era a representação do mundo tal como ele se apresentava aos nossos olhos. O segundo período correspondeu ao Modernismo, que colocou em evidência os próprios mecanismos da representação e ampliou o papel e os limites da arte; abandonou-se a pretensão ilusionista na pintura, por exemplo, com as pinceladas se tornando visíveis, e a cor passando a denotar mais expressão que autenticidade. Isso culminaria na arte abstrata e nos diversos movimentos de vanguarda dos anos 60 (Pop Art, Minimalismo, Arte Conceitual etc).

Quando os valores do Modernismo deixaram de se aplicar à arte que se estava produzindo, começou o terceiro período, “pós-histórico”, marcado pelo pluralismo e pala liberdade absoluta do artista. Fim da progressão linear, fim dos movimentos hegemônicos, fim, num certo sentido, das próprias teorias da arte. Por outro lado, predomínio de uma "estética do sentido" em detrimento de uma "estética da forma".

Danto teve seu primeiro insight sobre o fim da arte em 1964, quando viu uma exposição de Andy Warhol em Nova York. "Eu pensei: se isso é possível [uma caixa de sabão em pó, Brillo Box, ser vista como arte], qualquer coisa é possível”. Na década de 70, ele sistematizou suas idéias, e de lá para cá vem publicando livros em que combina a crítica de artistas contemporâneos com reflexões filosóficas sobre este período pós-histórico da arte. Os últimos foram The Madonna of the future e Unnatural wonders: essays from the gap between art and life.

São textos sempre inteligentes e intelectualmente estimulantes, mas que partem de uma premissa que a realidade do mundo da arte vem desmentindo: Danto afirma que vivemos numa época de pluralismo, mas numa entrevista recente ele próprio declarou o seguinte: “Hoje, grande parte da arte é conceitual”. Ora, este é um ponto fundamental do debate: adota-se um discurso do pluralismo para justificar uma série de coisas, mas o que se vê na prática é um predomínio absoluto da arte de matriz conceitual. Nesse caso se incluem, naturalmente, as quatro obras que deram início a toda esta polêmica sobre arte contemporânea: as maçãs, a paçoca, a orelha e o cachorro. Que pluralismo é esse, em que uma vertente é quase homogênea?

Mais uma vez, não se trata de negar a História, nem de negar valor a toda arte conceitual. Meu problema em relação às quatro obras citadas não é a resistência ao novo, mas a resistência ao velho: elas usam uma gramática e um vocabulário de 40 anos atrás. A "transfiguração do banal", isto é, apresentar objetos comuns como arte, é um procedimento que já foi usado até a exaustão, será que ainda pensam que isso é novidade? Pior: as obras que insistem nisso hoje não discutem nenhuma das questões urgentes enfrentadas pela sociedade contemporânea, mas se encerram sobre si mesmas, segundo modelos ultrapassados, num sinal de evidente esterilidade criativa. Ora, a valorização desse tipo de obra no sistema da arte não é casual: para esse sistema, o que importa é fazer o mercado girar: a obra e o artista se reduzem a meros pretextos para que a engrenagem não pare de funcionar, num mercado globalizado no qual, cada vez mais, os mesmos valores artísticos são impostos e compartilhados num nível planetário.

Não é à toa que a idéia do "fim da arte", intelectualmente tão atraente, é mais ou menos contemporânea da idéia do "fim da História", lançada por Francis Fukuyama, funcionário do Departamento de Estado americano. No livro O fim da História e o último homem, o triunfo do liberalismo capitalista foi apresentado como o encerramento da luta imemorial por uma sociedade mais justa e estável. Ou seja, o fim da História nada mais seria que a interrupção da busca histórica por um mundo melhor. Na arte, é a mesma coisa: o sistema neoliberal está satisfeito com a circulação permanente de modelos velhos em novas roupagens, que faz funcionar o mercado de compra e venda de obras e de estrelas.

Friday, December 14, 2007

Resultados desanimadores

Muita gente reclama, e com razão, que faltam no Brasil prêmios literários e outras formas de reconhecimento e incentivo ao escritor. Mas acho que o problema não é tanto a falta de prêmios e bolsas em si, mas a forma como eles são realizados, sobretudo os que envolvem dinheiro público.

Saíram ontem no Diário Oficial da União os resultados dos prêmios literários da Biblioteca Nacional e da bolsa de incentivo à criação literária da Funarte - neste caso, os resultados saíram com uma rapidez impressionante, já que as inscrições terminaram no dia 10 de dezembro...

Pois bem, entre os premiados pela Biblioteca Nacional, com o Prêmio Sergio Buarque de Holanda, categoria Ensaio Social (coitado do Sergio Buarque!) está o livro

José Genoino - escolhas políticas, de Maria Francisca Pinheiro Coelho

Ora, será que não se publicou nenhum ensaio social melhor que este no Brasil em 2007? José Genoíno não era um dos chefes do Mensalão, como foi apontado pelo próprio procurador geral da República? Será que o livro da Maria Francisca toca nesse assunto?

Já entre os contemplados com a bolsa da Funarte, que receberão R$30 mil cada um, está o projeto 68 motivos de 68, de Luiz Arthur Toríbio, que foi assessor de comunicação social do Minc até abril de 2006.

Talvez o projeto do Toribio seja até meritório, não duvido, mas não fica estranho a Funarte, um órgão do próprio Minc, premiá-lo? Ainda mais se pensarmos que o resultado saiu 48 horas após o fim das inscrições? Ora, a inscrição incluía obrigatoriamente trechos do livro em produção. Será que a comissão julgadora teve tempo de avaliar as centenas (talvez milhares) de obras enviadas? Duvido muito.

Resultados desanimadores para quem insiste em se dedicar à literatura. Bater na porta das editoras é cada vez mais inútil; mesmo quando se consegue publicar, as livrarias não expõem; mesmo no caso em que o autor é apadrinhado por alguma estrela e recebe atenção da mídia, vende muito pouco. Aí aparecem os prêmios e bolsas, que poderiam servir de consolo, mas o brilho nos olhos dura pouco: os critérios de seleção são incompreensíveis em alguns casos, ou compreensíveis até demais, em outros.

A lista completa de premiados, incluindo as comissões julgadoras, está no link:

https://www.in.gov.br/imprensa/jsp/jsp/jornaiscompletos/visualizacao/pdf/visualiza_pdf_novo.jsp?jornal=do&secao=1&pagina=36&data=13/12/2007

Olhando bem, devem aparecer outros absurdos.

PS. Complementando: Maria Francisca é co-autora de um livro sobre a Bárbara Freitag (Itinerários de Bárbara Freitag, UnB, 2005), que fez parte da comissão que premiou a Maria Francisca. Ação entre amigas? Êta, Brasil...

PS2. A vencedora da categoria melhor romance de 2007 foi Idalina Azevedo Silva (quem?), pelo livro O tempo físico. Na comissão que a premiou, seu colega do departamento de Letras da UFRJ, Manuel Antônio de Castro, que justificou a escolha pelo "modo de narrar aliciante" e por uma "oralidade muito difícil de realizar". Dizer o quê?

Segue a sinopse fornecida pela editora de O tempo físico, o melhor romance do ano segundo a Biblioteca Nacional:

Em uma degustação rápida de leitura do livro O Tempo Físico da autora Idalina Azevedo da Silva, o leitor se vê envolvido com o curso e o percurso de Maria, sua infância e adolescência, sua fase adulta e, finalmente, a experienciação mais palpável de que é uma peregrina no tempo, pelo advento da morte de muitos daqueles que constituíram seu mundo. Se ficasse aí não haveria muita novidade, pelo contrario, isso se torna o previsível para cada um de nós. Porém, aí não passamos ainda do tempo cronológico. Mas há outros, e estes estão nos interstícios da sua obra, convidando e provocando os leitores mais exigentes, que queiram um alimento mais substancial.

Thursday, December 13, 2007

O fim da arte segundo Arthur Danto





Em Após o fim da arte , Arthur C. Danto afirma que a arte - ou pelo menos uma determinada idéia de arte - chegou ao fim. A tese não é nova: Hegel já havia anunciado algo parecido no começo do século XIX. Nem Hegel nem Danto estavam anunciando um tempo em que não se fazem mais obras de arte, ou onde os artistas deixariam de existir ou de ter um papel relevante: isso seria uma idiotice, pois, como na época de Hegel, hoje artistas continuam produzindo obras de arte – cada vez mais, é verdade, dentro de um sistema de relações cada vez mais movido pela lógica do mercado e da mercadoria, o que caracterizaria um período “neoliberal” da arte.

O fim da arte, segundo Danto, não significa o fim das obras de artes, mas sim de um tipo de arte que fazia parte de uma história (ou de uma narrativa), pautada pelas noções de estilos e movimentos, e pela crença de que existia uma linha evolutiva entre eles - linha que seria preciso compreender para interpretar e avaliar qualquer obra de arte particular. Em outras palavras, o que acabou foi o laço que unia a arte à História, laço que estava na base de todos os manifestos e movimentos do século 20, pelo menos até meados dos anos 60. A partir daquele momento, e cada vez mais, o único compromisso dos artistas seria com a liberdade absoluta, liberdade inclusive de repetir, colar, reler, citar etc, do jeito que quiserem. Existe até uma corrente pomposamente chamada de "apropriacionista", a que se filia, por exemplo, o artista Mike Bildo, que se apropria de imagens alheias para supostamente lhes atribuir um novo sentido. Desta forma, as imagens a seguir não são, como parece, de obras de Marcel Duchamp e Andy Warhol, mas de obras de Mike Bildo intituladas "No Duchamp" e "No Warhol".



Entenderam? Para mim, sinceramente, isso é um embuste, uma palhaçada, uma tolice. Jorge Luis Borges, no conto Pierre Menard, autor del Quijote, cria um personagem que reescreve palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes, atribuindo assim um novo sentido à obra. É, evidentemente, uma ironia. Bildo é uma espécie de Menard que se levou a sério - e o mais grave é que todo mundo bateu palmas.

Aspas de Danto: "É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar. O que não lhes está disponível é o espírito em que a arte foi realizada." [e isso faz toda diferença].

Ora, levando-se Danto a sério, a implicação direta disso é que não existe mais critério para se estabelecer o que é ou não é arte. Se a técnica e o talento deixaram de ter importância, se não existe diferença visível, por exemplo, entre um objeto do cotidiano e um objeto de arte, o que determina o valor de um artista passa a ser sua capacidade de inserção no sistema da arte, através de uma rede de relacionamentos com marchands, galeristas, curadores, colecinadores – sistema que expeliu, por desnecessários, os críticos. Esse sistema dita o que vale e o que deixa de valer, segundo movimentos que têm muito mais a ver com a Bolsa de Valores do que com a idéia convencional de arte. Ao mesmo tempo, o aspecto sensorial da arte perdeu importância frente ao seu aspecto filosófico: o papel da arte passou a ser refletir sobre si mesma. O próprio Danto assume que o modelo vigente "impossibilita a definição de obras de arte com base em certas propriedades visuais que elas possam ter". Ele vai além, numa sentença que considero verdadeira e estarrecedora (estarrecedora porque tristemente verdadeira): "O que quer se seja a arte, ela já não é basicamente algo para ser visto".

Danto - e, como ele, Hans Belting, em O fim da História da Arte - sugere que o fim da arte começou a acontecer nos anos 60, com a Pop Art e Andy Warhol. Até ali, as obras de arte eram pensadas e avaliadas fundamentalmente em termos estéticos. Toda a arte moderna apresentou questões estéticas, mesmo quando discutia as condições, os meios e os métodos da representação. E foi quando esse predomínio da estética, por algum motivo, deixou de corresponder ao que se produzia, é que o conceito de moderno se tornou insuficiente, e se buscou um substituto: pós-moderno ou contemporâneo (mas não contemporâneo no sentido puramente temporal, já que continuaram existindo artistas preocupados com a estética).

Danto sugere que existiram duas grandes narrativas sobre a arte, isto é, duas grandes modelos que estabeleciam como a arte deve ser: a de Giorgio Vasari, no sec. XVI, correspondente à arte mimética, e a de Clement Greenberg no século 20, correspondente à arte moderna. Os dois modelos bastam para entender a arte de vários séculos, sua natureza e sua função. A narrativa de Greenberg, responsável pela teorização do modernismo, teria deixado de fazer sentido para a arte dos nossos dias. "Contemporâneo", escreve Danto, "passou a significar uma arte produzida dentro de uma estrutura de produção jamais antes vista em toda a História da Arte". A minha conclusão é que hoje não existe mais uma narrativa que permita compreender o passado, o presente e o futuro da arte – a não ser a narrativa do mercado.

É por isso que, desligada da História, uma boa parcela da arte contemporânea caiu num processo de repetição vazia. Para muita gente, a superação das questões modernas representou um vale-tudo, um contexto em que tudo é arbitrário. A questão é: quem arbitra o valor nesse cenário, que Danto descreve como sendo de "desordem informativa" e "entropia estética"? O artista, para ter uma existência social neste modelo, não estaria abrindo mão de sua soberania para se tornar mais facilmente assimilável pelas correntes da moda? Esse pacto econômico que fundamenta o sistema da arte e excluiu a reflexão crítica – a ponto de hoje qualquer pensamento questionador der recebido a pedradas pelos próprios artistas – não estaria mergulhando num divórcio suicida entre arte e sociedade? A anunciada Bienal do Vazio não seria um sintoma de que algo vai mal?

Após o fim da arte – A arte contemporânea e os limites da História, de Arthur C. Danto. Tradução de Saulo Krieger. Edusp, 294 páginas, R$49

Wednesday, December 12, 2007

Tuesday, December 11, 2007

Máquina de escrever versão 2.0

Máquina de escrever já está no G1:

http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever

Fiquei surpreso com a repercussão: 44 comentários só no texto de apresentação, postado hoje!

Monday, December 10, 2007

Munch

Novidade: Máquina de Escrever no G1


Nos próximos dias, o blog Máquina de Escrever passará a ser hospedado no portal G1, da Globo.com (www.g1.com.br).

Inicialmente vou conservar também este endereço, isto é, postando aqui e lá. Mas como o tráfego no G1 tende a ser muito maior, provavelmente em pouco tempo ficarei só lá. Espero que continuem me prestigiando com comentários, críticas, sugestões etc.

Saturday, December 08, 2007

Picasso

Leituras na Casa do Saber

Dica da Alessandra Colasanti. Fui na primeira e gostei muito:

Onde andará Petrucio Felker?


Mais um curta genial sobre a arte contemporânea:
Onde andará`Petrucio Felker, animação de Alan Sieber. Não achei no Youtube, mas está no Porta-Curtas, clique abaixo e digite o título:

http://www.portacurtas.com.br/busca.asp

Contra a arte contemporânea?

Abaixo, um artigo da Daniela Labra no site Canal Contemporâneo. Entre colchetes, alguns comentários meus. Talvez comente mais depois.
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Arte e Fla x Flus, por Daniela Labra

É admirável como as discussões públicas sobre o tema Arte Contemporânea se tornam verdadeiros Fla x Flus muito facilmente. De um lado, críticos e artistas inconformados com a história do século XX que transformou a arte numa espécie de engodo para satisfazer um mercado consumista, fabricante de estrelas fugazes das artes plásticas, muitas vezes sem preparo técnico adequado.

Do outro lado da discussão, outros artistas, críticos, curadores e todos os que se interessam positivamente pelo tema, não o compreendendo como uma aberração histórica, mas como um caminho estranho e instigante que a arte tomou ao se desligar de sua premissa número um que era representar mimeticamente a natureza.

Em comum, ambos os lados parecem querer defender seus pontos de vista como se fosse uma verdade. O curioso é perceber como se dão tais críticas e suas réplicas, sempre muito reativas e pouco cordiais, principalmente daqueles que são ‘contra’ a arte contemporânea. [Depois sou eu que generalizo: eu não sou "contra a arte contemporânea", sou contra uma determinada vertente da arte, como já disse e repeti mais de uma vez: sou contra quem é sectário, impositivo e alérgico a críticas e a pensamentos diferentes dos seus; sou contra quem deixa um cachorro morrer de forme num canto de galeria e chama isso de arte; mas sou a favor de Vik Muniz, Adriana Varejão e dezenas de outros artistas. E aí?]

Ao ler artigos de alguns ‘contra’ [pronto: está decretado que sou um "contra"! É assim que funcionam os debates no Brasil] em terreno brasileiro como Affonso Romano de Sant’anna, o poeta Ferreira Gullar e o jornalista Luciano Trigo, percebemos que os comentários normalmente partem para o ataque desde uma visão unilateral e utilizam uma arma fácil de ser usada contra o alvo: o ridículo. [Por que será tão fácil? Talvez o problema seja do alvo] Além de piadas e denominações bem-humoradas mas pejorativas (como ‘arte caninha 51 - a da boa idéia’ de Gullar e ‘arte horti-fruti’ de Trigo, para obras que usam alimentos orgânicos), também são utilizados outros recursos como: insistir em acusar a arte conceitual (ou o precursor Duchamp) como a linha filosófica que destruiu - e banalizou a produção de arte; enxergar apenas um lado da formação do artista plástico acusando-o de fazer arte sem preparo, sem estudo, sem técnica; obsessão em ver o mercado como o vilão que torna a arte um mero objeto de consumo e faz do artista um pop-star fugaz ou um enganador pois suas obras, realizadas sem o menor apuro, serviriam para ganhar dinheiro às custas da ingenuidade do público. [E cadê as respostas a isso tudo?]

Outro mote recorrente em tais textos revoltados com os fatos, é a afirmação que os artistas de hoje apenas reeditam coisas que já foram inventadas há 40 anos (pela Pop Art e depois pela a Arte Conceitual) e que como afinal a arte está francamente em crise, os que produzem instalações, performances, ou coisas que surgiram naquele período deveriam parar de repetir os movimentos passados e buscar enfim fazer algo ‘novo’. [De novo, cadê a argumentação que refute isso?]

Não se deve ignorar, contudo, que em todas as acusações listadas acima existe sim o seu lado verdadeiro. [Ah bom...] Hoje vivemos a era da repetição de temas e da banalização da imagem e sua circulação. Os quinze minutos de fama de Warhol foram enxugados para 5 minutos, e é certo que atualmente tudo é passível de se tornar mercadoria - os corpos, as idéias, os objetos inúteis e qualquer coisa que seja chamada de Arte por um sistema institucional.

Além disso, não deve ser considerado mero detalhe que o artista contemporâneo não precise ser necessariamente formado em artes ou desenho técnico para executar seu trabalho, o que muitas vezes desperta incompreensão e uma certa revolta dos leigos - e dos ‘contra’. [Isso é simplesmente uma mentira: em nenhum momento sugeri a necessidade de artista ter diploma. De novo: atribui-se uma barbaridade ao interlocutor, e depois se responde: esta é a forma de se debater no Brasil] E este ponto talvez seja aquele que torne a situação da arte mais difícil pois pode ser constrangedor assumir que um artista com formação propícia pode ter obra muito menos interessante do que o biólogo que resolveu virar artista.

Diante de espantosa realidade, é possível então descambar para a mais corriqueira de todas as discussões sobre arte contemporânea: como avaliar o que é ‘de qualidade’ [Por que esta discussão seria corriqueira? Para mim é fundamental] se os parâmetros formais da obra e os de formação do artista não mais definem o valor artístico? Se a arte se tornou pesquisa, processo, discurso, como a profundidade disso pode ser medida apenas pela obra ‘acabada’, exposta? E daí, diante das longas possíveis respostas sobre arte processual, conceitos e desmaterialização do objeto artístico, pode-se estimular a discussão a qual os ‘contra’ mais gostam: na verdade é tudo um embuste e uma confusão provocados pelo mercado e pelos críticos vendidos que fabricam artistas e decidem o que é bom para o público consumir.

No modo indelicado como o assunto é abordado por aqueles que são do ‘contra’ [só os contra são indelicados, né? Vou mostrar à Daniela algumas mensagens que recebi de artistas famosos], obras são desqualificadas como sendo meras reedições, e em suas declarações percebemos um olhar moderno que clama sempre por uma tal arte nova, cuja direção para encontrá-la é um mistério. E então vemos uma armadilha dos ‘contra’, para com eles mesmos: estes reclamam de velhos conceitos encobertos por supostas novas propostas, mas não percebem que sua postura também reedita um olhar caduco que parece acreditar sobretudo no formato do suporte e no esmero de uma técnica precisa, tal como era até o final dos anos 50. [Sofisma]

Se de acordo com os contra, depois da Arte Conceitual nada mais vem sendo inovado, o que dizer das experiências interessantes no campo da web art, da bio-arte 1, da sound art, e mesmo da vídeo-arte, para citarmos apenas categorias específicas? É evidente, ainda, que a performance de hoje não é a mesma dos anos 1970, seja pelo contexto ou pelo discurso que se atualiza e renova, o mesmo valendo para a pesquisa do site-specific, entre outros. Não podemos esquecer que durante séculos os artistas investiram no suporte da escultura e da pintura, e que até hoje pesquisas pictóricas continuam sendo feitas com sucesso e inovação. É justo portanto acusar a arte contemporânea de ser uma grande invencionice conspiradora a favor do comércio mas contra o público e contra a própria arte? [O tempo vai responder, mas os sinais estão aí para quem quiser ver: Bienal vazia etc]

Que venha o debate, mas que ele aconteça de modo mais delicado. É muito simples acusar tudo de entulho, [generalização] dizer que Duchamp foi o pai do embuste da arte contemporânea [eu disse mais de uma vez que Duchamp fou um gênio] e esbravejar por ‘caminhos novos’ para a arte. Como a arte justamente não se trata mais de fórmulas e como não podemos negar que vivemos em tempos de mercantilização geral, a delicadeza para analisar a produção artística é fundamental. Se a arte libertou-se da forma do objeto e também se tornou idéia, filosofia, [em termos, né? mas isso exige um comentário maior] a reflexão sobre ela se faz premente mas requer cuidado. Obviamente nem tudo que reluz é ouro (ou arte) mas também nem tudo que parece lixo está desprovido de caráter artístico - pelo menos dentro das acepções moderna e contemporânea de arte. A primeira libertou o quadro do cavalete e a escultura do pedestal, e a segunda, a idéia da carcaça formal de um suporte estático e material.

[Resumindo: a Daniela se esforça para escrever um texto equilibrado, mas deixando claro de que lado está. Cuidado, Daniela, reconhecer que existe um "lado verdadeiro" no que escrevi pode te custar muitos aborrecimentos...]

Caninha 51


Comentário do João Vergilio à minha tréplica na Folha, no site Canal Contemporâneo:

"O único problema do Luciano Trigo é que ele não vai até as últimas conseqüências das premissas de que partiu. A cadeira de Kosuth JÁ era uma bobagem em 1965. A triste realidade é que boa parte das artes plásticas do século XX, ao se desvincular da técnica, do talento, do trabalho árduo e meticuloso, transformou-se em algo que não tem interesse nenhum fora dos círculos de discussão acadêmica. Podemos refletir sobre a identidade do objeto quando vemos "As Meninas", quando lemos Platão, ou quando estamos andando pela avenida Paulista. A diferença é que, no caso das "Meninas", nossa reflexão se dá diante de uma obra monumentalmente bela, coisa que a cadeira de Kosuth jamais teve sequer a pretenção de ser. É caninha 51 na veia, só isso. Repetir esse tipo de proposta hoje, eu concordo, não é NEM SEQUER uma boa idéia. É um porre, talvez. Só isso."

Friday, December 07, 2007

A Revolução vista de dentro













Comecei a ler ontem à noite O ano I da Revolução Russa, de Victor Serge, e foi difícil interromper a leitura, já madrugada adentro. De Serge já tinha lido Memórias de um revolucionário. São dois livros complementares, que dão uma dimensão e um sentido pessoais à idéia de revolução, idéia que o autor transformou no eixo e no motor de sua vida.

Publicado em 1930, O ano I da Revolução Russa reconstitui o período entre 7 de novembro de 1917 e 7 de novembro de 1918, das batalhas e debates políticos aos desafios de organização econômica (como o abastecimento das cidades) e militar (a criação Exército Vermelho). Serge traça perfis psicologicamente ricos de Lenin e Trotski, que intercala com descrições da vida cotidiana e análises da situação russa.

Filho de um exilado político que teve que deixar a Rússia após o assassinato do Tzar Alexandre II em 1881, Victor Serge nasceu em Bruxelas em 1890. Aderiu ao anarquismo aos 18 anos, em Paris, passando a escrever assiduamente nos jornais Le Revolté e L'Anarchie. Acusado de envolvimento em atos de terrorismo, foi condenado em 1910 a cinco anos de prisão e viu vários de seus amigos serem executados. Solto, participou da tentativa de revolução em Barcelona em 1917, depois voltou à França e foi novamente preso. Em 1919, foi trocado por franceses anti-bolcheviques presos em Moscou e finalmente conheceu a terra de seus pais.

Na Rússia, Victor Serge aderiu ao bolchevismo sem abrir mão de sua consciência crítica. Rapidamente ele percebe o autoritarismo da revolução, que conduzia a passos largos a uma tirania, sobretudo após a morte de Lenin. Atacou a política secreta soviética e a repressão ao levante dos marinheiros do Kronstadt. Em 1923, como representante do Comintern na Alemanha, ajudou a preparar a malograda insurreição de de 1923.

Em 1928 foi expulso do Partido Comunista. Amigo de Trotsky, voltaria a ser preso em 1933. Solto e deportado devido a presões internacionais (era um intelectual reconhecido por seus livros em toda a Europa), Serge foi para a França, de onde teve que fugir em 1940, com a invasão alemã. Foi morar no México, onde morreu em 1947, isolado e na miséria, com o terno puído e os sapatos furados.

Apesar de tudo que sofreu, na prisão e fora dela, Victor Serge não abriu mão de suas convicções socialistas, exaltando até o fim da vida a entrega sincera da velha guarda bolchevique à causa da revolução mundial (velha guarda esmagada pelo próprio governo soviético). Reconheceu, por outro lado, a sucessão de erros cometidos por Lenin e pela burocracia stalinista que o sucedeu, erros que transformaram a utopia socialista num pesadelo de terror e opressão.

'O único significado da vida é a participação consciente na formação da
história', escreveu em seu diário, já no fim da vida, acrescentando: 'É preciso alinhar-se
ativamente contra tudo o que apequena o homem e envolver-se em todas as
lutas que tendem a libertá-lo, e engrandecê-lo.'

Existem textos de Victor Serge de acesso gratuito na Internet, mesmo em português. O mais interessante é O que todo revolucionário deve saber sobre a represssão, de 1925:
http://www.primeiralinha.org/textosmarxistas/serge1.htm#intro

Thursday, December 06, 2007

Um artista que pensa. E é brasileiro.


Acho necessário reforçar algumas coisas de vez em quando, para evitar mal-entendidos:

Em primeiro lugar: não sou nem pretendo ser crítico de arte, mesmo porque é uma atividade que perdeu toda relevância. Sou jornalista, escritor e editor de livros, não necessariamente nessa ordem, e estas atividades criaram em mim o hábito de pensar críticamente, de interrogar por que determinadas coisas são como são e não são de outro jeito. Foi essa curiosidade intelectual, aliada a décadas de leituras variadas sobre arte, que me levou a escrever o primeiro post, comentando uma matéria da revista Isto É e levantando, sem esoterismos nem comprometimentos de qualquer espécie, algumas hipóteses para explicar o que entendo serem impasses da arte contemporânea. Possivelmente teria parado ali, se aquele primeiro texto não tivesse despertado tantas e tão fortes reações.

Surgiu assim um debate, que em seguida saiu do blog para as páginas da Folha de S.Paulo, e este debate acabou sendo guiado pela necessidade de responder a determinadas questões ou ataques que foram surgindo no caminho. O post Como se processa o reconhecimento da arte contemporânea, por exemplo, nasceu da análise de um texto teórico enviado por uma leitora, texto que a meu ver demonstra a fragilidade das bases do pensamento sobre a arte hoje.

Se a crítica especializada só era capaz de produzir um texto tão modesto, dos artistas nem seria lícito esperar um discurso articulado e inteligente sobre a sua própria produção. De fato, o que geralmente se ouve quando artistas falam sobre arte são discursos superficiais, auto-complacentes, mutuamente elogiosos e fundamentados em idéias de 40 anos atrás. Talvez porque não seja necessário para o sistema da arte - com seu modelo estruturalmente dependente do consumo e da moda - que os artistas pensem.


Mas existem, sim, artistas contemporâneos que pensam com profundidade. Vik Muniz é um deles. Nem sempre sua obra é genial: há momentos que sugerem diluição ou repetição de fórmulas. Além disso, por sua própria natureza, seu trabalho foi perigosamente assimilado por uma certa indústria do entretenimento pop, aparecendo em capas de disco. As suas séries de desenhos feitos com chocolate ou confete foram super-expostas pela mídia. Por vezes, suas obras parecem muito presas a referências a outros artistas. E, apesar do ineditismo dos conceitos e dos materiais, são obras que revelam uma visão figurativa-conservadora da arte, mesmo quando dialogam com artistas não-figurativos (Pollock, Jasper Johns etc) - mas isso talvez seja inevitável, se pensarmos que todo o seu trabalho passa pela representação fotográfica. Por vim, Vik enfrenta o mais perigoso dos inimigos de todos os artistas (não apenas plásticos): o sucesso.



Mesmo assim, Vik Muniz é um artista que está sempre buscando aprofundar sua investigação sobre as possibilidades da representação artística e suas relações com a realidade, o tempo e a memória. Não é um intuitivo: a leitura de seus textos e entrevistas revela não somente inquietude intelectual, mas também uma erudição que nunca é exibicionista nem deslumbrada. Neste link, http://www.vikmuniz.net/www/index.html, estão seis ensaios (em inglês) de Vik sobre questões que permeiam sua obra. E, no vídeo lá no alto, uma palestra (também em inglês) do artista sobre criatividade, pescada no Youtube. Vale a pena ler e ver com muita atenção.

Peixes no liquidificador













Em 2006, o artista chileno-dinamarquês Marco Evaristti criou uma instalação numa galeria em Aalborg, na Dinamarca, na qual colocou à venda almôndegas feitas com sua própria gordura e embaladas com sua foto. Cada uma era vendida por US$ 4.390. Evaristti aproveitou a gordura retirada numa lipoaspiração. Algumas das almôndegas foram comidas em um happening. O título da obra era Polpette al grasso di Marco ("Almôndegas com a gordura de Marco").

Evaristti já era conhecido por ter exposto seus próprios excrementos recobertos com folhas de ouro e incrustados com moscas de diamante; e uma Ferrari com um cadáver embalsamado dentro. Sua obra mais famosa é uma instalação, de 2000, que mostrava peixinhos nadando dentro de liquidificadores. Os visitantes podiam matar os peixinhos apertando o botão: fazia parte do conceito. Em 2004 ele pintou a ponta de um iceberg de vermelho, na Groenlândia. Em junho deste ano, tentou fazer a mesma coisa no Mont Blanc, na França, mas foi detido por tentativa de degradação ambiental.

Será arte?

Mais leitores com a palavra

Meus textos sobre arte, sobretudo os artigos da Folha, estão sendo reproduzidos em diversos blogs, o que mostra que existia uma demanda para esse tipo de reflexão. Fico feliz com essa circulação de idéias, que pelo menos coloca alguma coisa em movimento. Agora há pouco descobri o blog Conexão Arte (http://conexaoarte.arteblog.com.br/), do Ronaldo de Oliveira, que postou meu primeiro artigo. Seguem algumas reações dos leitores:

"Esse texto de Luciano Trigo pode ser entendido como um desabafo de muitos artistas que encaram sua arte de forma, diremos, bem "artística" mas que esbarram em marchand donos do mercado de arte que atualmente se preocupam mais em conquistar fregueses pelo inusitado do que pela própria arte. Sendo assim, enquadrar-se no mercado é talvez a maior preocupação atual do que a árte propriamente dita. Enfim, concordo plenamente com o Luciano Trigo nesse artigo exposto, eu não estou entendendo o propósito das instalações que andam expondo".

"Inventaram a arte paçoca, uma coisa bem da gente de nossa terra. Se eu tivesse pensado nisso antes, com certeza hoje eu não seria o mesmo, mesmo".

"Gostei muito do texto de Luciano Trigo. Concordo totalmente com ele. Ele tem conhecimento do que é a verdadeira arte. Parabéns".

"muito bom o texto, em uma mostra recente da Malu Fatoreli ela simplesmente dolocou vários lápis na galeria e tinha o aplauso de seus alunos e os demais "povinhos" da arte, eu questionei, parece simplesmente uma fileira das lojas de material escolar do saara. resumindo se vc tiver dinheiro, compre várias coisas e coloque lá e chamem de arte".

"Excelente o texto do LUCIANO TRIGO, não Ronaldo? De uma clareza e concisão ao tratar de um assunto complexa que me espantou. Parabéns pelo achado, se não fosse você ele me passaria em branco".

"Muito pertinente o artigo!"

Wednesday, December 05, 2007

Todo Picasso







Para quem tiver interesse na obra de Picasso, recomendo com entusiasmo uma visita ao portal On-Line Picasso Project

http://picasso.tamu.edu/picasso/

Toda a obra catalogada de Picasso (13.704 peças, produzidas entre 1889 a 1973) está lá, classificada ano a ano.

Tuesday, December 04, 2007

Arte num mundo pós-orgânico


Lamento desconcertar mais uma vez quem tenta me (des)classificar como desinformado, conservador (conservador é quem defende o velho, e a arte que está sendo discutida aqui é velha, portanto conservador não sou eu, é quem não deixa a arte chegar ao século 21), filhote de Ferreira Gullar etc. Alguns posts abaixo, foi feita uma defesa do Startrek, digo, Sterlac, até interessante - embora, como é comum em textos acadêmicos nessa área, fantasiosa (por exemplo, a leitora afirma que "o corpo está obsoleto"...).

Pois bem, fui procurar nos meus guardados e achei esta entrevista que fiz em 2003 com a filósofa Paula Sibilia, já tratando das questões levantadas pela autora do comentário. Já fui e já voltei. Então, por favor: ninguém é obrigado a concordar comigo, nem eu sou obrigado a conhecer tudo, mas respeito e educação são fundamentais.

Na ilustração, mais uma fotinho do Sterlac com sua terceira orelha. Pensei em colocar outra obra dele, mas as imagens eram muito bizarras. Quem tiver curiosidade faça uma busca na rede. Aliás, sobre a orelha, vou voltar a citar o Gullar: "É fácil criar o paletó de três mangas e apresentá-lo como obra inovadora". A terceira orelha é como o paletó de três mangas: não serve para nada!
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“É preciso inventar novas armas”
Entrevista de PAULA SIBILIA a LUCIANO TRIGO

Antropóloga, professora de História das Idéias e Filosofia da Técnica, a argentina Paula Sibilia condensou suas reflexões sobre realidade virtual e vida digital no livro O homem pós-orgânico. Refletindo criticamente sobre hipóteses como a digitalização total da mente humana, Paula considera que o novo cenário pós-orgânico tem um potencial de emancipação, como declara nesta entrevista.

O modelo da memória como lugar de acúmulo de conhecimento foi substituído por outro, no qual o que importa é o acesso às informações. Num mundo desigual e injusto, isto não pode gerar novos mecanismos de exclusão social?
Desde seus primórdios, o capitalismo manteve na miséria dois terços da população mundial. Mas, com a automatização das fábricas e o advento das tendências virtualizantes, e com o atual deslocamento do foco para as finanças, os serviços, o marketing e o consumo, essa porcentagem de “excluídos” está aumentando perigosamente. São poucos aqueles que podem se submeter à vertigem da flexibilidade e da reciclagem constante, a fim de satisfazer as demandas da competitividade, colocando no mercado de trabalho os atributos igualmente “virtuais”, etéreos e imateriais que hoje são solicitados: criatividade, inteligência, conhecimento, habilidades comunicativas e informação.

A hibridização homem-máquina é um processo irreversível, ao qual à humanidade está condenada? Isso deve suscitar alguma forma de resistência?
É irreversível a compatibilidade entre homens e computadores, isto é, a mutua impregnação pela lógica digital através do convívio com os aparelhos e com as metáforas que os atravessam. Isso já está ocorrendo no presente. Mas se trata de uma construção histórica e, como tal, pode mudar. Ou seja, não se trata de um fato “natural”, de uma “conseqüência inevitável do progresso”, mas de uma construção que responde a um projeto sócio-político e econômico determinado. Eu, particularmente, sinto um desconforto profundo com relação ao papel que o mercado assumiu em nossas vidas, e concordo com Gilles Deleuze quando ele diz que a nossa sociedade sofreu uma mutação nas últimas décadas, e que não cabe temer ou esperar: é preciso inventar novas armas.

A Internet está gerando novas dinâmicas na afetividade e na sexualidade, já que cada vez mais pessoas se relacionam virtualmente. Qual o efeito disso sobre o indivíduo? É possível estabelecer verdadeiros laços afetivos, ou de desejo, pela Internet?
Sinto a tentação de dizer que sim, pois a sexualidade humana é múltipla, e suas manifestações variam historicamente, mas o fenômeno é inquietante. Eu não considero que o cyberespaço seja um universo separado do mundo real. Pelo contrário, trata-se de um fenômeno perfeitamente “real”, que faz parte de nosso mundo e está afetando fortemente nossas subjetividades, nossas cosmovisões e nossos modos de ser. As práticas desenvolvidas nos ambientes digitais estão influenciando as condutas sexuais e o imaginário erótico, mas este é um fenômeno muito recente, cuja popularização começou há menos de uma década.

O desenvolvimento das técnicas de clonagem tornará o sexo inútil, ou ao menos desnecessário do ponto de vista reprodutivo. Que futuro você vê para a sexualidade? A tendência é uma hibridização homem-mulher, com comportamentos sexuais cada vez menos diferenciados?
O fato de a reprodução não ser o único objetivo do sexo ficou evidente pelo menos desde a invenção da pílula anticoncepcional. É verdade que as técnicas de clonagem vão mais fundo nesse sentido, pois tornam desnecessária a participação masculina na concepção de um novo ser. Isso é inquietante. As condutas sexuais e o imaginário erótico estão atravessando fortes transformações, com certeza afetados pelas descobertas e invenções tecnocientíficas, tanto no campo teleinformático como no das ciências da vida, mas também em virtude das mudanças sociais e políticas que estamos vivenciando.

Parece sobrar cada vez menos espaço para a reflexão moral num cenário dominado pela ciência e pela tecnologia. Você julga ser necessária a construção de uma nova moral, com valores que acompanhem essas transformações?
Os avanços tecnocientíficos são tantos e tão velozes que as nossas ferramentas para compreendê-los e avaliá-los costumam ser insuficientes, pois também elas estão submetidas ao turbilhão da obsolescência e ao imperativo da reciclagem constante. Acredito que aí resida a origem do despertar da bioética e do biodireito nos últimos anos em todo o planeta, com os debates e questionamentos que decorrem da proliferação de fenômenos inquietantes surgidos dos laboratórios. As propostas de estabelecer proibições e estipular o cumprimento de códigos internacionais, porém, não parecem adequadas à dinâmica da nova tecnociência aliada ao mercado global, e, acredito, a eficácia dessas iniciativas será escassa.

Você fala da compatibilidade entre o cérebro humano e o computador, mas seria possível fazer um download da criatividade? No fim das contas, este resíduo não redutível a “zeros” e “uns” não seria o que existe de mais essencialmente humano? E como pensar a arte num cenário pós-orgânico?
A arte, assim como a ciência e a filosofia, tem um papel fundamental: ela deve ousar. Rasgar o véu do senso comum e das verdades estabelecidas para ir além do que já se sabe, atrever-se a pintar e a pensar o que ainda não foi pensado, ou pintado. A capacidade de criar é um patrimônio valiosíssimo do gênero humano, inclusive daqueles integrantes da espécie que começam a se pensar como pós-orgânicos e como compatíveis com os aparelhos e com a lógica digital. Eu confio plenamente nessa capacidade, admiro essa potência da vida e procuro estar sempre atenta às suas reverberações.

Você enxerga um potencial emancipador no mundo pós-orgânico?
Apesar da minha visão crítica com relação a todos esses processos, vejo forças positivas no desabamento de velhas formas de dominação e outras cristalizações de poder, que estão se desfazendo. Além disso, confio muito na potência criadora dos homens, inclusive dos “pós-orgânicos”, e acredito que os momentos de transição como este são férteis, pois permitem enxergar as inovações sobre o pano de fundo daquilo que vai ficando para trás. Discutir essas questões já é valioso, pois só entendendo aquilo em que estamos nos tornando poderemos definir aquilo em que queremos nos tornar.

Com a palavra os leitores



Frases soltas de mensagens que chegaram pelo correio eletrônico nesta semana. Como não chegaram diretamente no blog, como comentários, não vou transcrever tudo nem citar os autores (a não ser que eles peçam), mas acho interessante dar publicidade a algumas opiniões.

Na ilustração,
Arte conceitual II: Óleo sobre tela [ai...], de Breno Pessoa. Confesso que não entendi se é uma piada, mas quem pode afirmar com certeza?
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"Você elevou o nível do debate em torno da arte contemporânea porque não tem
medo de dizer o que pensa e com um diferencial indispensável: escreve de
maneira clara e elegante, coisa não muito comum na crítica de arte
brasileira, hoje cada vez mais mergulhada num academismo ressentido e
inócuo".

"Luciano, passei as últimas 2 ou 3 hrs lendo a discussão sobre arte contemporânea no seu blog. A coisa provoca, talvez porque os artistas sabem, no fundo no fundo, que têm se comportado como atravessadores da arte. A voz interna se calou."

"Realmente existe uma unidade destes discursos que combatem incondicionalmente qualquer crítica à arte e à música contemporânea. E o pior: estes discursos monopolizam o estudo na universidade pública (da composição musical, ao menos, um dos pontos mais avançados no estudo da música). Trata-se de mais um monopólio da coisa pública no Brasil".

"Arte é experimentalismo. É preciso tentar. Às vezes, não dá certo. Nem toda a loucura é genial. Nem toda idéia original é brilhante. Mas originalidade é fundamental. Copiar é para a propaganda. Quanto a tomates, maçãs e caquis, se o cara põe isso numa galeria de arte, está querendo criar algum impacto visual. Então cabe ao crítico, como é o caso de Ferreira Gullar, dizer se gostou ou não gostou, e por quê. A autora pode se indignar, todos têm o sagrado direito de espernear, mas não pode evitar a crítica porque sua obra está exposta publicamente".

"Escrevo rapidamente, antes de sair, e antes de ler o blog, apenas para o cumprimentar pela ingrata tarefa de desmascarar essa bocó arte conceitual que derivaram de Ducahmp malgré lui même."

"De facto um dia [esta veio de Portugal] e não longe alguém vai dizer: "O REI VAI NU". o rei já está nu ha muito tempo e o conceptualismo tem as costas muiiiiito largas! até lá: basta um texto hermético e uma bosta passa a obra de arte, os galeristas vendem caro, os comissários incham de orgulho e afagam o seu ego, o publico não entende mas para não parecer ignorante diz que sim, dissimulando o seu pouco convencimento em conclusão: todos fazem uma performance!"

"Tenho acompanhado seus textos na Folha e concordo plenamente com vc. Temos mesmno que apontar o dedo para esses engodos."

"Que bom poder ler um texto assim!!! Privilégio, pra dizer o mínimo." [neste caso vou abrir uma exceção: a mensagem foi da Denise Stoklos, uma verdadeira artista do corpo]

"Parabéns! Acho que a sua tréplica na Folha foi bem melhor que o primeiro artigo. Você ganhou muitos pontos ao citar Joseph Kosuth, isso mostra que você não está simplesmente negando as questões contemporâneas (como às vezes sinto que o Sant'Anna e o Gullar fazem), você está tentando ultrapassá-las. Isso é possível de ser feito e está mais do que na hora de a gente aceitar esse desafio"

"Aos poucos, grande parte das artes plásticas produzidas no século XX terá que passar por um processo radical de revisão. É urgente que a crítica comece a valorizar pintores talentosíssimos que são discriminados simplesmente porque... têm talento para a pintura".

"I enjoy your blog, but why are we feeding stupidity and emphasizing mental disease by writing about it? Please, let's blog about who has real (good or bad) talent to share and contributions to make. Habacuc and Laura have neither. It is a shame that they found a space to exhibit their "lack of" and worse yet, "people" attended!!! Keep the quality of your blog."

"Enfastiado V. pode ficar, só não pode é esmorecer. Caso contrário, se pessoas
como V., que têm acesso à imprensa, esmorecem, o que será deste exército, do qual faço parte, que não concorda com esse lixo que nos é imposto em praticamente todos os centros culturais?"

"Você elevou o nível do debate em torno da arte contemporânea porque não tem
medo de dizer o que pensa e com um diferencial indispensável: escreve de
maneira clara e elegante, coisa não muito comum na crítica de arte
brasileira, hoje cada vez mais mergulhada num academismo ressentido e
inócuo."

Como lágrimas na chuva

Para quem ficou curioso com a referência ao replicante do filme Blade Runner, de Ridley Scott:



Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave... I've seen things you people wouldn't believe... Attack ships on fire off the shoulder of Orion... I've watched C beams glitter in the dark near the Tannhauser gate... All those moments will be lost in time... like tears in rain. Time to die.

Não é uma confissão de derrota do replicante Rutger Hauer diante do humano Harrison Ford, ao contrário: é a lamentação, na hora da morte, de alguém que se julga infinitamente superior ao seu algoz, por ter visto e feito coisas que ele jamais sonhará ver ou fazer.

Picasso e Duchamp


Freud explica: às vésperas de 2008, continuamos presos a um urinol de 1917, 90 anos atrás. O cachorro, a orelha, a paçoca, as maçãs, são todos filhos bastardos desse urinol - contemporâneo? Sim, mas da Revolução Russa. A União Soviética já acabou faz tempo, mas o urinol continua lá, idolatrado, no altar do niilismo cínico ou desesperado.

Será que nada foi feito de relevante depois de 1917? Por que ninguém fala mais em Picasso e tanta gente ainda se inspira em Duchamp? A resposta é simples: a arte de Picasso exige talento, técnica, reflexão sobre a vida e a História, enquanto Duchamp, por genial que tenha sido em seu momento, traz uma mensagem muito mais fácil de ser assimilada e copiada. A mensagem é: qualquer um pode ser artista. Como no anúncio da Caninha 51, basta uma boa idéia. O talento, a criatividade, o artesanato e o pensamento deixaram de ser relevantes; a própria mão do artista se tornou dispensável. Como é gratificante saber que não é preciso estudo, treino, empenho, paciência, vocação, nada para se tornar artista, além da afirmação de que se é artista e do reconhecimento "do circuito" ou "da galera"!

Ora, a experiência demonstrou que isso é uma porta aberta para o embuste, e os artistas deveriam ser os primeiros a se preocupar com isso. Porque é aí que entram o cachorro que morre de fome amarrado no canto de uma galeria e a orelha implantada no braço do artista. Desculpem, mas a mim essa gente não engana. Já chamei a atenção para o fato de que todo mundo que me criticou evitou dar uma opinião clara sobre essas duas obras. Medo de parecer reacionário? Amadureçam. Como disse um replicante em Blade Runner: deve ser triste viver com medo.

Não estou dizendo que não existem instalações nem obras conceituais artisticamentre relevantes. É claro que existem, e já citei algumas. O que estou dizendo é que nem toda instalação e obra conceitual são relevantes, e que esse dois modelos já estão velhinhos para serem chamados de contemporâneos: se isso provoca tanta indignação, alguma coisa está errada. Porque, no dia em que for proibido questionar ou pensar diferente, a arte terá mesmo chegado ao fim.

A crise da arte contemporânea é um tema em discussão no mundo inteiro, tanto do ponto de vista estético (o suicídio da arte pela opacidade, pela superficialidade e pela repetição teimosa de modelos de 50 anos atrás) quanto do ponto de vista institucional (a crise das bienais e o esgotamento de um modelo mercadológico que roubou a soberania do artista). Todos os anos, saem livros e mais livros discutindo isso, na Europa e nos Estados Unidos. Mas no Brasil propor essa discussão é proibido: quem se aventura a fazê-lo vira "filhote de Ferreira Gullar", a encarnação do demônio para muita gente. Muito difícil.

Ilustrando o post, o abraço do Picasso e o urinol do Duchamp.

O cinema independente presta homenagem à arte contemporânea

Falando no Samir, lembrei desse curta exibido na última (ou penúltima?) edição d'A Organização: Quimerda, de Fernando de La Rocque, com brilhante atuação do Guilherme Zarvos. Será que todo mundo vai entender a mensagem?

Samir vê/vende planos

Recebi do Samir Abujamra e divulgo.

Monday, December 03, 2007

Quem matou esse cara?

Voltando a um tema menos polêmico que arte contemporânea, esta é uma das cenas mais fortes do filme Tropa de Elite. Na minha opinião, todo o debate sobre as drogas no Rio de Janeiro passa por essa pergunta: quem matou esse cara? Foi o Capitão Nascimento ou foi o usuário? Participe da primeira enquete deste blog.

Êta Brasil...

Estava procurando uma música dos Racionais no Youtube quando me deparei com esse vídeo, que mostra o senador Eduardo Suplicy interpretando uma letra do grupo. Arte conceitual perde. Seria cômico se não fosse trágico:

Chico Buarque e Zizi Possi

Mudando de assunto, um pouco de música: Chico Buarque e Zizi Possi cantando Pedaço de mim. Uma canção sobre a perda, a distância e a saudade.



Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Começo a ficar enfastiado


Recebi um longo artigo de Almandrade, artista plástico que tem no currículo a participação em três Bienais de São Paulo. Seguem os trechos mais relevantes, mas confesso que já estou um pouco enfastiado. Minha intenção era provocar um debate produtivo, mas não existe debate possível com gente que só enxerga o que quer, que só entende o que quer e que, na falta de argumentos, recorre a zombarias, geralmente escritas em mau português. Às vésperas de 2008, continuamos presos a um urinol de 1917, 90 anos atrás! O cachorro, a orelha, a paçoca, as maçãs, são todos filhos bastardos desse urinol - contemporâneo, sim, mas da Revolução Russa! A União Soviética já acabou faz tempo, mas o urinol continua lá, idolatrado, no altar do niilismo cínico ou desesperado!

Será que nada foi feito de relevante depois de 1917? Por que ninguém fala mais em Picasso e tanta gente se inspira em Duchamp? A resposta é simples: a arte de Picasso
exige talento, técnica, reflexão sobre a vida e a História, enquanto Duchamp, por genial que tenha sido em seu momento, traz uma mensagem muito mais fácil de ser assimilada e copiada: qualquer um pode ser artista, como no anúncio da Caninha 51 basta uma boa idéia! O talento, a criatividade, o artesanato e o pensamento deixaram de ser relevantes; a própria mão do artista se tornou dispensável. Como é gratificante saber que não é preciso estudo, treino, empenho, paciência, vocação, nada para se tornar artista, além da convicção de que se é artista e do reconhecimento "da galera"!

Não estou dizendo que não existem instalações nem obras conceituais artisticamentre relevantes. É claro que existem. O que estou dizendo é que nem toda instalação e obra conceitual são relevantes: se isso provoca tanta indignação, alguma coisa está errada.

A crise da arte contemporânea é um tema em discussão no mundo inteiro, tanto do ponto de vista estético (o suicídio da arte pela opacidade, pela superficialidade e pela repetição teimosa de modelos de 50 anos atrás) quanto do ponto de vista institucional (a crise das bienais e o esgotamento de um modelo mercadológico que roubou a soberania do artista). Todos os anos, saem livros e mais livros discutindo isso, na Europa e nos Estados Unidos. Mas no Brasil propor essa discussão é proibido: quem se aventura a fazê-lo vira "filhote" de Ferreira Gullar, a encarnação do demônio para essa gente. Muito difícil.

Aliás, agora entendo por que o Gullar evitou se manifestar sobre o assunto em sua coluna na Folha de S.Paulo: ele deve estar muito mais enfastiado do que eu. Para que se aborrecer? Que continuem chamando de arte matar cachorros de fome e implantar orelhas no braço!

Segue o artigo do Almandrade (na ilustração, sua tela "O Carnaval de Wittgenstein"):

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A arte, entendida, como meio de conhecimento, hoje em dia, vem cedendo lugar a uma experiência ligada ao lazer e a diversão, que envolve outros profissionais como responsáveis pela sua legitimação: o curador, o empresário patrocinador e organizador de eventos, marchands, profissionais de publicidade, administradores culturais e captadores de recursos. Com as leis de incentivo a cultura e a presença marcante da iniciativa privada, paradoxalmente, levou a arte a um limite, o fim da obra, do trabalho ligado a um saber. E o artista, nem artesão e nem intelectual, sem dominar qualquer conhecimento, está cada vez mais sujeito ao poder do outro. As grandes mostras são grandes empreendimentos para atender à indústria do entretenimento, (mais empresarial e menos cultural), que movimentam uma quantidade significativa de recursos e envolve um número assustador de atravessadores. (...)

As contradições modernidade / tradição, contemporâneo / moderno, neste início de século, cede lugar a uma outra contradição: artistas que pertencem ao metier e artistas estranhos ao metier, inventados por empresários da cultura, cujos trabalhos se prestam para ilustrar uma tese ou teoria imaginária de um suposto intelectual da arte e garantir o retorno do que foi investido pelo patrocinador e pelo comerciante de arte. Uma mercadoria fácil de investir, sem risco de perda, basta uma boa campanha publicitária. O artista pode ser substituído por um ou por outro, a obra é o menos importante. Aliás, é o que a indústria do marketing tem feito com as mostras dos grandes mestres como: Rodin, Manet, etc., pouco importa as obras desses artistas e sim o nome e o patrocinador. A publicidade leva consumidores/espectadores como quem leva a um shopping center. A quantidade de público garante o sucesso. O público é como o turista apressado, carente de lazer cultural que visita os centros históricos com o mesmo apetite de quem entra numa lanchonete para uma alimentação rápida.

Na “sociedade do espetáculo”, regida pela ética do mercado, o artista sem curador, sem marchand, sem patrocinador, é simplesmente ignorado pelas instituições culturais, raramente é recebido pelo burocrata que dirige a instituição. Seus projetos são deixados de lado. Também pudera, essas instituições, sem recursos próprios, tem suas programações determinadas pelos patrocinadores. Numa sociedade dominada pelo império do marketing, a realidade e a verdade são mensagens veiculadas pela publicidade que disputa um público cada vez maior e menos exigente. A vida é vivida na especulação da mídia, na pressa da informação. E neste meio, a arte é uma diversão que se realiza em torno de um escândalo convencional, deixando de lado a possibilidade do pensamento. (...)

Na barbárie da informação e da globalização, estamos assistindo ao descrédito das instituições culturais e da dissolução dos critérios de reconhecimento de um trabalho de arte. Tudo é tão apressado que acaba no dia seguinte, os artistas vão sendo substituídos com o passar da moda, ficam os empresários culturais e sua equipe. Uma corrida exacerbada atrás de uma “novidade”, que não há tempo para se construir uma linguagem. O chamado “novo” é a experimentação descartável que não chega a construir uma linguagem elaborada, mesmo assim, é festejado por uma crítica que tem como critério de julgamento interesses pessoais e institucionais.

Manual do artista contemporâneo


Muito engraçado. Publicado originalmente no blog www.bookofhours.blogspot.com Na ilustração, Ready-made sobre raquete de pingue-pongue, de Michael Marriott

Receita de bolo para o artista contemporâneo iniciante. Servida em qualquer galeria, museu ou salão do eixo Rio e São Paulo, ou em qualquer outro lugar do mundo.

1. Quanto pior, melhor
Saber desenhar e fotografar é coisa dos caretas puristas. Bom mesmo é aquele desenho infantil feito no guardanapo sujo da rodoviária e a fotografia que você tratou no photoshop pra ficar ruim de propósito. Sem falar no vídeo sem foco e imagem tremida para realmente dar aquele ar de "espontaneidade".

2. Quando eu pintava...
Jovens artistas contemporâneos em início de carreira afirmando a sua "larga" experiência na arte com declarações do tipo "quando eu pintava". Só pra dizer que romperam ou estão se lixando com qualquer tradição na arte e agora são subversivos, revolucionários e experimentais.

3. Meu corpo é a minha tela
Em 2 de 10 trabalhos de arte contemporânea, sempre tem alguém que desenha ou corta o próprio corpo e se fotografa ou se filma fazendo isso.

4. Eu me filmo, eu me filmo, eu me filmo, eu me....
Já vi vídeo de gente arrumando a casa, gente se auto-flagelando, gente descascando cebola, gente andando na praia segurando um livro de gelo se derretendo. Dão bons casos de estudo de comportamento obsessivo-compulsivo para um psiquiatra.

5. A Negação da ausência do vazio
Fazer vídeo, instalação, ou fotografia sobre o nada. Nem Sartre aguentaria.

6. Apropriação da fotografia alheia
Sem querer ou saber fotografar, artistas de apropriam de fotos de outrem e as exibem como evidência de um ato cleptomaníaco.

7. Usar e transformar objetos cotidianos
Warhol fez, Lichstenstein fez, e até o cara que faz esculturas com latinhas de coca-cola na feira de São Cristovão fez. Hoje, constitui um verdadeiro marco de originalidade nas artes, e ainda empregam o termo "ready-made" para descrever a obra.

8. A pegadinha urbana
Plantar uma sombrinha amarela no centro da cidade e filmar a reação dos transeuntes ao avistar um objeto tão "estranho" num espaço tão comum é um exemplo dessa vertente. Até o Faustão acha chato.

9. Plagiar Hélio Oiticica
Usar palavras inventadas por HO como bólide, penetrável e parangolé para descrever o próprio trabalho. Criar instalações como labirintos. Usar a estética da favela sem nunca ter pisado numa.

10. Performance
Fora a maioria das companhias de dança contemporânea, um par de moças que se enfiam em casulos no topo de prédios, e uma outra moça que se fotografa em espaços inusitados vestindo roupas incríveis que ela mesma confecciona, toda e qualquer performance feita por um artista jovem é uma pagação de mico.

11. Usar palavras e textos dentro da obra de arte
Artista quando escreve só fala besteira. E ninguém tem paciência de ficar lendo textos críticos e pretensiosos quando ali esperam ver algo de visual. Uso de textos para explicar a obra.

12. Papo-cabeça
Falar usando termos acadêmicos e ininteligíveis sobre qualquer assunto. Uso excessivo de expressões inócuas tiradas de algum texto filosófico francês como "questionamento do meio", "desconstrução do elemento pictórico" e "poética da metáfora da obra".

Leituras do samba

Recebi do Felipe Taborda e divulgo:

Sunday, December 02, 2007

Por que gosto de Yves Klein


Agora eu pergunto. Será que essa gente toda que está enxergando no vazio uma grande atitude estética e conceitual [ver post abaixo] esqueceu que, em 1958, portanto 50 anos atrás, o artista francês Yves Klein (foto) inaugurou uma exposição chamada Le Vide ("O Vazio"), na galeria Iris Clert, em Paris (aliás elogiada no livro de visitas por Albert Camus)?

Foi por esta e outras obras que Yves Klein, que raramente é citado no Brasil, teve uma importância histórica fundamental. Antes mesmo de a expressão "arte conceitual" se tornar corrente, ele levou os seus princípios ao paroxismo. Depois dele, de Lucio Fontana (sobre quem ainda vou falar) e de Piero Manzoni (de quem já falei brevemente), qualquer tentativa de insistir nesse caminho é diluição, reciclagem e conformismo. Depois deles, ou se nega de vez o objeto artístico e se decreta a morte da arte, ou se parte para outra investigação, em novas bases, e que tenham alguma conexão com o mundo em que vivemos ou o modo como vivemos hoje.

Nos sete anos de sua curta carreira (já que ele morreu muito jovem, aos 34 anos, em 1962), Yves Klein disse tudo o que havia de relevante sobre a desmaterialização da arte, com esculturas feitas de fogo, luz e ar, até chegar à produção de espaços abertos de criação artística puramente virtuais. Aliás, tocou também em questões delicadas sobre as regras do mercado da arte, ao vender telas monocromáticas idênticas por preços absurdamente diferentes.

Klein voltaria ao tema do vazio em 1960, com a obra Leap into the Void: Man in Space! The Painter of Space Throws Himself into the Void!, uma fotomontagem em que ele aparece se atirando no espaço vazio, rompendo todos os limites espaciais.



Aí vem um pessoal, 50 anos depois, invocar o vazio como um valor esteticamente relevante e como justificativa para o fracasso da próxima Bienal? Ora, isso só torna evidente que a arte contemporânea está patinando. Não, provavelmente, por falta de artistas de valor, mas porque o sistema da arte instalado no poder, como qualquer sistema, tem como prioridade a auto-preservação. É por isso que qualquer análise que coloque em questão a sua lógica interna é rechaçada com ódio e intolerância.

Os coveiros da arte

Algumas opiniões sobre a próxima Bienal de São Paulo, a Bienal sem arte e com o vazio, que acontecerá de 19 de outubro e 30 de novembro de 2008:

"É necessário reconhecer um esgotamento no tema bienal, e é por isso coloco uma crítica a partir da própria bienal. (...) Para colocar estes diálogos, proponho um espaço vazio. Não há nada mais claro no universo em suspensão do que um espaço vazio, que o fato de falar de algo inexistente. (...) Ao se ver em um espaço vazio, surgirão dúvidas ao espectador acostumado a paredes cheias. Acho que é um projeto que provocará discussão e sobre o qual há muitas expectativas"
Ivo Mesquita, curador

"Teremos, 23 anos depois, o "Grande Vazio". Nada é mais necessário neste momento do que o vazio, e pode ser bem mais difícil lidar com o vazio do que com o cheio"
Sheila Leirner, curadora da Bienal de 1985

"(...) poderá redefinir a missão da Bienal na contemporaneidade e recuperar a confiança e o respeito esgarçados em anos recentes"
Moacir dos Anjos, curador

"A idéia de um pavilhão vazio já é em si uma grande atitude artística conceitual" Paulo Climachauska, artista

"Enquanto os artistas e suas obras aparecerem como figuração fantasmática dentro uma estrutura fortemente armada em termos não-artísticos, acho difícil avançarmos"
Carmelça Gross, artista

A Bienal do vazio


Artigo do Affonso Romano de Sant'Anna publicado hoje no jornal O Estado de Minas. Para quem não sabe, a próxima Bienal de São Paulo terá um andar inteiro vazio e não exibirá obras de arte, saída encontrada pelo curador Ivo Mesquita para não cancelar o evento, endividado e em crise:

Achei corajosa e necessária a iniciativa de Ivo Mesquita curador da próxima Bienal em São Paulo de colocar em xeque a própria instituição, pretendendo deixar todo um andar vazio, outro andar para um arquivo histórico do evento e outro para performances e exibição de vídeos.

Há vários anos que muitos artistas deixaram de ir à Bienal, porque consideram uma perda de tempo. Há vários anos que a imprensa está dizendo que o modelo desse tipo de exposição já se esgotou. Há vários anos que milhares de pessoas que vão lá movidas por grande publicidade perambulam como zumbis entre as obras sem entender o que os instrutores decoraram e lhes repetem.

Já está passando da hora de repensar a arte do século XX. A psicanálise que aflorou naquele século, está se repensando desde os anos 60; o marxismo que, também naquele século, teve sua prova real, está sendo repensado. Por que não se quer repensar a arte do século XX? Um século que teve acertos tão grandes e tão trágicos equívocos tem que ser reexaminado em todos os ângulos.

Um crítico alegou que seria absurdo fazer " uma bienal sem arte". Contudo, Isto já ocorre há muito. Dentro e fora do Brasil. Há até um livro, de 1994, tratando exaustivamente disto- "Artistas sem arte?" de Jean -Phillipe Domecq. Como diz Jean Clair, que dirigiu o Museu Picasso e foi o responsável pela primeira retrospectiva de Duchamp em 1977, no Beaubourg, " Poucas épocas como a nossa terão conhecido um tal divórcio entre a pobreza das obras que produz e a inflação de comentários que a menor delas suscita. Mais a obra é minguada, mais sábia a sua exegese".

Há mais de 20 anos a França discutiu as aporias da arte de nosso tempo como está no volume que sintetiza as polêmicas "(Toda)arte contemporãnea é inútil?" de Patrick Barrer. Em todos os países, até mesmo na recém reinventada Slovênia, críticos e historiadores estão desencadeando uma revisão dos conceitos de arte. Certas pessoas, que não podem ser acusadas de ignorantes, como Levi-Strauss, Paul Valery, André Gide, Eric Hobsbawm, Mircea Eliade, Pierre Bourdieu, Edward Wilson, Jean Baudrillard, Rodolf Arheim, Frederic Jameson, Theodor Adorno, entre muitas, iniciaram um diagnóstico das falácias de certo tipo de arte que virou " arte oficial". E, no entanto, um determinado "sistema" gerido por interesses que não têm nada a ver com a arte continua autoritariamente a exercer o seu autismo, o seu solipsismo.

Se até teóricos de outras áreas estão vendo que o rei está nu, porque insistem em não rever as falácias dentro dos muitos acertos?

Não é à toa que Thomas S. Khun, no seu célebre livro, de 1962, explicando como se dá a "mudança de paradigmas" na ciência e nas artes, já havia dito : " Nos nossos dias, as pesquisas desenvolvidas em certos domínios da filosofia, da psicologia, da linguística e mesmo da história da arte tendem a sugerir que há qualquer coisa que não vai bem com o paradigma tradicional". Há mais de 40 anos, portanto, " qualquer coisa não vai bem" também no domínio da arte. Historiadores dizem que a pós-modernidade entrou em declínio nos anos 80,o que complica um pouco mais certos " contemporâneos".

Vivemos um paradoxo perfeitamente diagnosticável. São os críticos que não fazem parte do sistema os que podem ver mais claramente os equívocos e sugerir caminhos. No entanto, Ivo Mesquita está se dando a si e aos seus companheiros uma chance histórica única. Quem sabe um país na periferia da pós-modernidade, pela sua singularidade, acabe desencadeando com criatividade uma revisão que outras bienais um dia adotarão?

Que se considere, no entanto, a advertência de James Gardner em Arte ou lixo: "É provável que os artistas contemporâneos, em vez de incentivar a arte do futuro, acabem por atrasar seu nascimento, do mesmo modo que os laureados e medalhados artistas oficiais dos salões de arte do século passado tentaram impedir o surgimento do Modernismo".

O vazio já estava há muito dentro da Bienal. Faltava coragem para pensá-lo.

Saturday, December 01, 2007

Qualquer semelhança é mera coincidência



Vejam só como são as coisas. Guillermo Vargas Habacuc, o sujeito que amarrou um cachorro no canto de uma galeria e o deixou morrer de fome - e chamou isso de arte - também é autor de uma obra intitulada Alfombra Roja: 300 kilos de tomates (2006, foto acima).

Agora comparem essa obra com a foto da instalação da Laura, que juntou sete mil maçãs sobre uma mesa de mármore - e ficou indignada quando Ferreira Gullar a criticou:



Pelo visto, está nascendo uma nova corrente na arte contemporânea: a arte hortifruti (Artefruti? Hortiarte?)

A semelhança das duas obras permitiria levantar questões interessantes sobre autoria e originalidade na arte contemporânea (o verdadeiro autor dos tomates e das maçãs é a natureza, ou, para quem for religioso, Deus; o gesto de espalhá-los pelo chão de uma galeria permite a alguém dizer que criou uma obra de arte e reivindicar sua autoria? Se, amanhã ou depois, eu espalhar 500 quilos de caquis - para ficarmos na cor vermelha-, serei um artista? Se quem fizer isso for um artista consagrado, será uma obra de arte? Mesmo que a idéia já tenha sido usada? A obra de Habacuc diminui o valor da obra de Laura? Por quê?).

Já dá para adivinhar o que vão dizer: a intenção de Habacuc era brincar com a idéia do "tapete vermelho", enquanto Laura quis refletir sobre a transitoriedade das coisas etc. Mas, neste caso, a diferença principal não está nas obras, mas tão somente na cabeça dos artistas. Concretamente, o que temos são sete mil maçãs e 300 quilos de tomate. Quando as pessoas vão acordar?

PS1: E espero que não me perguntem se eu fui lá olhar pessoalmente (ou tomatalmente) os tomates. Façam o favor!

PS2: Respondendo a uma das perguntas acima: na minha opinião uma obra não diminui a outra. Ambas são igualmente desimportantes, porque usam uma gramática e um vocabulário de 40 anos atrás. Ambas são reciclagem.

Minha tréplica na Folha


Saiu hoje, na Folha de S.Paulo, outro artigo meu. Na segunda parte do artigo, respondo às três réplicas publicadas no jornal.

As idéias fora do tempo
LUCIANO TRIGO
Especial para a Folha

A obra "One and Three Chairs", do artista plástico norte-americano Joseph Kosuth, é emblemática do movimento chamado arte conceitual. Ela consiste de uma cadeira, da fotografia da mesma cadeira e da ampliação fotográfica da definição do dicionário de uma cadeira. O artista propunha à audiência a questão: em qual das três está a verdadeira identidade da cadeira? Na coisa em si, na representação ou na descrição verbal?

É uma obra intrigante, que traz para o território da arte questões associadas à linguagem e à comunicação. O problema é que, como os ready-made de Marcel Duchamp dos quais é herdeira, a arte conceitual é datada. Parte de seu sentido e valor não pode ser dissociada do ano (no caso de Kosuth, 1965) e do contexto de sua produção. Repetir esse tipo de proposta hoje é tão anacrônico quanto imitar a pintura acadêmica pré-impressionista.

Duchamp se interessava mais pela idéia do objeto artístico do que pela sua execução e pelo produto final. Essa "arte como idéia" abriu caminhos inteiramente novos (nas primeiras décadas do século passado) para a experimentação. Mal comparando, Duchamp teve um impacto nas artes plásticas semelhante ao que a obra de James Joyce (não por acaso sua contemporânea) teve na literatura. Também gerou, é verdade, empulhação e impostura.

A arte conceitual estabeleceu, entre outras premissas, que a arte se realiza numa idéia; que a matéria-prima da arte é a linguagem; que não existe separação entre arte e teoria da arte; que a atividade artística consiste na investigação sobre a natureza da própria arte; que a arte é uma forma de linguagem. Tudo muito interessante. Para a época. E mais interessante como teoria do que por seus resultados. Só sobre a questão de a arte ser ou não uma linguagem existe uma bibliografia imensa (e inconclusiva), mais relevante para a semiótica do que para a própria arte.

Sintomaticamente, Kosuth produziu uma vasta obra ensaística sobre teoria da arte e sobre o papel do artista na sociedade. Levou adiante um debate necessário sobre a relação entre a estética e a representação, radicalizando questões de linguagem propostas por Duchamp e, mais tarde, por René Magritte, que com seu famoso "Ceci N'Est Pas une Pipe" (1928) introduziu um paradoxo lingüístico essencial ao desenvolvimento da arte conceitual.

Ora, o percurso que começa em Duchamp passa por Magritte e atinge sua realização radical na arte conceitual dos anos 60 e 70 (este é um recorte, é claro que existem outros) é um dos capítulos mais fascinantes da arte do século 20. Mas é apenas um capítulo, que já foi escrito e virou história. Reduzir a arte à expressão de uma boa idéia (a "arte Caninha 51" de que fala Ferreira Gullar) tem um preço: como uma boa piada, a boa idéia só tem graça na primeira vez. Não fosse assim, a idéia das cadeiras de Kosuth poderia ser reproduzida "ad infinitum", com outros objetos (ele repetiu o modelo com uma marreta e uma capa de chuva, sem sucesso).

Essas propostas deixaram de ser vanguarda há muito tempo. Insistir nelas 40 anos depois, num contexto cultural radicalmente diferente, é irrelevante. Mais uma vez, mal comparando, seria como se prevalecesse entre os escritores de hoje o compromisso com a experimentação lingüística de Joyce (que, com seus herdeiros, também constituiu um capítulo fascinante da literatura do século 20, mas que não representou, de forma alguma, a linha de chegada da literatura). Graças a Deus isso não aconteceu, e a literatura seguiu caminhos plurais. Imaginem, por exemplo, se toda poesia fosse concreta.

PS. Este espaço seria destinado a uma resposta ao jornalista Marcos Augusto Gonçalves e ao sr. Moacir dos Anjos. Mas, como um e outro deram razão à minha tese de que qualquer questionamento da arte contemporânea é recebido com pedradas, preferi utilizá-lo para desenvolver novas idéias. Mesmo assim, alguns esclarecimentos são necessários:

1) O título do meu primeiro artigo era "Será arte?", citação de um poema do Ferreira Gullar, mas a Folha preferiu pinçar uma frase do texto -uma prática jornalística comum, mas acabou atraindo atenção desmedida para um detalhe lateral. O que não muda o fato de que não afirmei, em momento algum, que todos os artistas são movidos pela busca da fama e de dinheiro, mas sim questionei o sucesso como critério de qualidade num sistema de arte mercantilizado;

2) A tentativa de desqualificação do outro é o recurso mais pobre de um debate. Em todas as respostas (já foram três), os articulistas omitem os pontos relevantes para me atribuir coisas que não escrevi e intenções que não tive. E evitam, sugestivamente, dar sua opinião sobre a orelha implantada no braço e o cachorro que morre de fome, duas obras de arte citadas em meu artigo;

3) A reação ao meu artigo, fora das páginas da Ilustrada, foi muito mais plural. Recebi mensagens estimulantes de centenas de pessoas interessadas em arte e de diversos artistas, entre eles, Adriana Varejão, Antonio Veronese e Julia Cseko, para citar os mais conhecidos. Eles leram minhas idéias sem antolhos, e entendem que qualquer discussão sobre arte contemporânea, potencialmente infinita, só tem graça se houver diálogo, e não troca de ofensas;

4) Por fim, não pretendi generalizar, mas sim falar de uma tendência recorrente em galerias. Em 1961, Piero Manzoni defecou em 90 latinhas, assinadas e numeradas, e as vendeu a peso de ouro, batizando a obra de "Merda d'Artista". Era um ataque frontal e um comentário irônico ao mercantilismo da arte e à idéia, moderna no mau sentido, de que não há limites para a arte, de que a arte está em toda parte, de que tudo é arte. Mais de 40 anos depois, parece que a mensagem não foi compreendida, e a arte se mercantilizou de vez, premiando com freqüência a mediocridade. E ai de quem apontar o dedo para isso.

Luciano Trigo é jornalista e editor de livros