Tuesday, December 04, 2007

Arte num mundo pós-orgânico


Lamento desconcertar mais uma vez quem tenta me (des)classificar como desinformado, conservador (conservador é quem defende o velho, e a arte que está sendo discutida aqui é velha, portanto conservador não sou eu, é quem não deixa a arte chegar ao século 21), filhote de Ferreira Gullar etc. Alguns posts abaixo, foi feita uma defesa do Startrek, digo, Sterlac, até interessante - embora, como é comum em textos acadêmicos nessa área, fantasiosa (por exemplo, a leitora afirma que "o corpo está obsoleto"...).

Pois bem, fui procurar nos meus guardados e achei esta entrevista que fiz em 2003 com a filósofa Paula Sibilia, já tratando das questões levantadas pela autora do comentário. Já fui e já voltei. Então, por favor: ninguém é obrigado a concordar comigo, nem eu sou obrigado a conhecer tudo, mas respeito e educação são fundamentais.

Na ilustração, mais uma fotinho do Sterlac com sua terceira orelha. Pensei em colocar outra obra dele, mas as imagens eram muito bizarras. Quem tiver curiosidade faça uma busca na rede. Aliás, sobre a orelha, vou voltar a citar o Gullar: "É fácil criar o paletó de três mangas e apresentá-lo como obra inovadora". A terceira orelha é como o paletó de três mangas: não serve para nada!
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“É preciso inventar novas armas”
Entrevista de PAULA SIBILIA a LUCIANO TRIGO

Antropóloga, professora de História das Idéias e Filosofia da Técnica, a argentina Paula Sibilia condensou suas reflexões sobre realidade virtual e vida digital no livro O homem pós-orgânico. Refletindo criticamente sobre hipóteses como a digitalização total da mente humana, Paula considera que o novo cenário pós-orgânico tem um potencial de emancipação, como declara nesta entrevista.

O modelo da memória como lugar de acúmulo de conhecimento foi substituído por outro, no qual o que importa é o acesso às informações. Num mundo desigual e injusto, isto não pode gerar novos mecanismos de exclusão social?
Desde seus primórdios, o capitalismo manteve na miséria dois terços da população mundial. Mas, com a automatização das fábricas e o advento das tendências virtualizantes, e com o atual deslocamento do foco para as finanças, os serviços, o marketing e o consumo, essa porcentagem de “excluídos” está aumentando perigosamente. São poucos aqueles que podem se submeter à vertigem da flexibilidade e da reciclagem constante, a fim de satisfazer as demandas da competitividade, colocando no mercado de trabalho os atributos igualmente “virtuais”, etéreos e imateriais que hoje são solicitados: criatividade, inteligência, conhecimento, habilidades comunicativas e informação.

A hibridização homem-máquina é um processo irreversível, ao qual à humanidade está condenada? Isso deve suscitar alguma forma de resistência?
É irreversível a compatibilidade entre homens e computadores, isto é, a mutua impregnação pela lógica digital através do convívio com os aparelhos e com as metáforas que os atravessam. Isso já está ocorrendo no presente. Mas se trata de uma construção histórica e, como tal, pode mudar. Ou seja, não se trata de um fato “natural”, de uma “conseqüência inevitável do progresso”, mas de uma construção que responde a um projeto sócio-político e econômico determinado. Eu, particularmente, sinto um desconforto profundo com relação ao papel que o mercado assumiu em nossas vidas, e concordo com Gilles Deleuze quando ele diz que a nossa sociedade sofreu uma mutação nas últimas décadas, e que não cabe temer ou esperar: é preciso inventar novas armas.

A Internet está gerando novas dinâmicas na afetividade e na sexualidade, já que cada vez mais pessoas se relacionam virtualmente. Qual o efeito disso sobre o indivíduo? É possível estabelecer verdadeiros laços afetivos, ou de desejo, pela Internet?
Sinto a tentação de dizer que sim, pois a sexualidade humana é múltipla, e suas manifestações variam historicamente, mas o fenômeno é inquietante. Eu não considero que o cyberespaço seja um universo separado do mundo real. Pelo contrário, trata-se de um fenômeno perfeitamente “real”, que faz parte de nosso mundo e está afetando fortemente nossas subjetividades, nossas cosmovisões e nossos modos de ser. As práticas desenvolvidas nos ambientes digitais estão influenciando as condutas sexuais e o imaginário erótico, mas este é um fenômeno muito recente, cuja popularização começou há menos de uma década.

O desenvolvimento das técnicas de clonagem tornará o sexo inútil, ou ao menos desnecessário do ponto de vista reprodutivo. Que futuro você vê para a sexualidade? A tendência é uma hibridização homem-mulher, com comportamentos sexuais cada vez menos diferenciados?
O fato de a reprodução não ser o único objetivo do sexo ficou evidente pelo menos desde a invenção da pílula anticoncepcional. É verdade que as técnicas de clonagem vão mais fundo nesse sentido, pois tornam desnecessária a participação masculina na concepção de um novo ser. Isso é inquietante. As condutas sexuais e o imaginário erótico estão atravessando fortes transformações, com certeza afetados pelas descobertas e invenções tecnocientíficas, tanto no campo teleinformático como no das ciências da vida, mas também em virtude das mudanças sociais e políticas que estamos vivenciando.

Parece sobrar cada vez menos espaço para a reflexão moral num cenário dominado pela ciência e pela tecnologia. Você julga ser necessária a construção de uma nova moral, com valores que acompanhem essas transformações?
Os avanços tecnocientíficos são tantos e tão velozes que as nossas ferramentas para compreendê-los e avaliá-los costumam ser insuficientes, pois também elas estão submetidas ao turbilhão da obsolescência e ao imperativo da reciclagem constante. Acredito que aí resida a origem do despertar da bioética e do biodireito nos últimos anos em todo o planeta, com os debates e questionamentos que decorrem da proliferação de fenômenos inquietantes surgidos dos laboratórios. As propostas de estabelecer proibições e estipular o cumprimento de códigos internacionais, porém, não parecem adequadas à dinâmica da nova tecnociência aliada ao mercado global, e, acredito, a eficácia dessas iniciativas será escassa.

Você fala da compatibilidade entre o cérebro humano e o computador, mas seria possível fazer um download da criatividade? No fim das contas, este resíduo não redutível a “zeros” e “uns” não seria o que existe de mais essencialmente humano? E como pensar a arte num cenário pós-orgânico?
A arte, assim como a ciência e a filosofia, tem um papel fundamental: ela deve ousar. Rasgar o véu do senso comum e das verdades estabelecidas para ir além do que já se sabe, atrever-se a pintar e a pensar o que ainda não foi pensado, ou pintado. A capacidade de criar é um patrimônio valiosíssimo do gênero humano, inclusive daqueles integrantes da espécie que começam a se pensar como pós-orgânicos e como compatíveis com os aparelhos e com a lógica digital. Eu confio plenamente nessa capacidade, admiro essa potência da vida e procuro estar sempre atenta às suas reverberações.

Você enxerga um potencial emancipador no mundo pós-orgânico?
Apesar da minha visão crítica com relação a todos esses processos, vejo forças positivas no desabamento de velhas formas de dominação e outras cristalizações de poder, que estão se desfazendo. Além disso, confio muito na potência criadora dos homens, inclusive dos “pós-orgânicos”, e acredito que os momentos de transição como este são férteis, pois permitem enxergar as inovações sobre o pano de fundo daquilo que vai ficando para trás. Discutir essas questões já é valioso, pois só entendendo aquilo em que estamos nos tornando poderemos definir aquilo em que queremos nos tornar.

3 comments:

argenide said...

Luciano, me desculpe a correção mas, o conservador muda, ainda que seja para permanecer, quem permanece no velho é mais do que conservador, é retrógrado!!
Abraço,
Argênide

Stela said...

The inaugural installation - Emotional Systems, contemporary art between emotion and reason, 30 November 2007 to 3 February - develops in three clearly distinct yet complementary phases: an Exhibition, a Publication and a programme of Lectures designed to investigate the topic of emotions, proposing a reinterpretation of the correlation between the contemporary artist, the work of art and the user, in the light of the latest discoveries in the neurological sciences about the human brain and its effects on the emotions.

The artists in the exhibition include: Bill Viola (USA), William Kentridge (South Africa), Yves Netzhammer (Switzerland), Katharina Grosse (Germany), Christian Nold (Great Britain), Maurice Benayoun (France), Teresa Margolles (Mexico) Andrea Ferrara alias Ongakuaw (Italy) and the poets Elisa Biagini, Antonella Anedda and Valerio Magrelli.
The participating artists all work with different media. They have been chosen for the different ways in which their works emotionally affect the public, a process in which empathy often plays a significant role. Visitors will find themselves being involved at sensorial, cognitive and emotional levels.
http://www.palazzostrozzi.org/Sezione.jsp?idSezione=274&idSezioneRif=165

Ana Beatriz Guerra said...

Põe velho nisso... Em 2000, Stelarc foi um dos temas da minha monografia de conclusão de curso. Saturno deu uma volta e os assuntos continuam os mesmos.