Wednesday, January 09, 2008

O museu do efêmero


"I feel I've opened a can of worms in my own head"
(Damien Hirst)


Associados à idéia de coleção, os museus nasceram com a missão de conservar o patrimônio artístico do passado (segundo critérios determinados, é claro, por diferentes esferas do poder) e, mais tarde, também do presente. Assim as obras representativas do Impressionismo, das vanguardas européias, dos artistas modernos do século 20 e, mais recentemente, da fotografia, podem ser apreciadas e analisadas até hoje, porque, por radicais que sejam as diferenças entre elas, todas têm uma relação com a idéia de permanência, fundamento da própria idéia de museu.

Uma vez derrubada a permanência como valor relevante, seria mais coerente, por parte dos artistas do efêmero, abominar os museus - ainda mais porque, hoje, eles servem a uma ideologia ultracapitalista de mercado. Mas não: quanto mais rebelde é a atitude do artista, mais ele se dispõe a ser "museificado". Isso traduz, da parte do artista, a pretensão de ver sua obra, mal ela é concebida, já pertencente à posteridade; o que, para o sistema, representa a garantia de um bom investimento: fazer parte do acervo de um museu importante aumenta a cotação do artista, é claro.

Contrariamente ao impulso dos movimentos artísticos (ainda modernos) dos anos 60 e 70 de rejeição aos museus, galerias e outros espaços públicos institucionais - movimento associado a uma ideologia crítica do mercado -, a arte contemporânea fez as pazes com esses espaços, integrando-se sem culpa à dinâmica especulativa do neoliberalismo globalizado. Sob o signo do cinismo pós-moderno, o artista volta satisfeito aos espaços que outrora denunciou como ideológicos, burgueses etc.

Mas isso nem sempre é simples: após ser desmaterializada, desestetizada, desistoricizada, despolitizada etc, a arte, associada a novas tecnologias e mediatizada ao extremo, enveredou por formas de produção e difusão e incorporou formatos (virtuais inclusive) incompatíveis com os espaços convencionais. O que se conserva nos museus, portanto, acaba sendo muito diferente da obra original - mesmo porque esta muitas vezes depende de variáveis que se perdem, como a interação com o espaço, com o público e com o contexto, para adquirir significação.

Além disso, muitas obras são deliberadamente efêmeras e incorporam em seu conceito os efeitos da passagem do tempo, como a célebre cabeça de boi cercada de moscas de Damien Hirst, denominada A thousand years (foto acima): a decomposição progressiva da carniça faz parte da obra. Como guardar este objeto (avaliado em centenas de milhares de libras na época de sua exposição, nos anos 90) no espaço de um museu? E o que fazer com seus restos quando, por assim dizer, a obra chegar ao fim? Cada vez mais artistas usam materiais ou suportes perecíveis, isso quando usam algum material ou suporte. Como conciliar as questões relativas ao tempo, à efemeridade, à imaterialidade dessas propostas com a idéia de conservação intrínseca ao museu? Este passou a acumular resíduos, traduções, sinais, registros, imagens ou palimpsestos da arte, mas não a arte em si.

(No caso da arte digital, é sintomático que ela já nasça patrocinada por grandes instituições privadas e seus canais de difusão: Nokia Trends, Motomix, Oi Futuro e Itaú Cultural etc. Não é à toa que já nasce com cara de velha)

Esta é apenas uma das contradições do sistema da arte: a impossibilidade de conservação de obras efêmeras combinada com o imperativo simbólico-mercadológico de museificá-las. Um problema adicional é que não apenas a materialidade da obra é passageira, mas também seu significado. Por fim, o crescente caráter de mercadoria da arte faz com que galerias e museus parecem cada vez mais mostruários comerciais.

Outra contradição: os movimentos dos anos 60 e 70 apontavam para a diluição da idéia de autoria - em sintonia com a idéia pós-estruturalista da "morte do autor" de Michel Foucault, mas também com o espírito contracultural e coletivista da época. Hoje, ao contrário, cada vez mais a arte segue as regras do star system, em que nomes são lançados, estrategicamente projetados, valorizados e vendidos, como as estrelas de cinema, da televisão ou do esporte. O ranking dos artistas mais valorizados do mundo, divulgado periodicamente, lembra muito a corrida dos campeões do tênis ou de outros esportes competitivos. As salas de leilões são cada vez mais freqüentadas por estrelas do cinema e da televisão, como Hugh Grant (que recentemente vendeu um Andy Warhol de sua coleção) e Sarah Jessica Parker: é a arte sendo atravessada pelas relações mundanas da sociedade e da cultura do espetáculo

Por exemplo, o modo como os Young British Artists foram fabricados pelo colecionador Charles Saatchi seguiu uma rigorosa estratégia de marketing e manipulação, com a conveniente colaboração de premiações, exposição na mídia e outras formas de agenciamento. Vários livros contam essa história em detalhes, mas o sistema é tão forte que se torna imune à crítica. Ninguém acha estranho o inchaço do papel dos curadores, que ocuparam o lugar do crítico como legitimadores do valor da arte.

Diante dessa situação, são duas as alternativas que se apresentam para os artistas: acomodar-se ou discutir estratégias que façam frente às determinações desse sistema. Criar uma plataforma de discussão sobre a arte nesta época de espetacularização e banalização da cultura deveria interessar aos próprios artistas. Como escapar dessa teia de relações que, cada vez mais, enquadra e domestica a arte? Quais seriam os termos de uma relação mais saudável entre os diversos agentes do sistema? Mas a reflexão sobre a situação da arte e sua relação com o público, que provoca animados debates lá fora, não parece atrair a atenção dos artistas brasileiros. Por quê?

4 comments:

Jefferson de Camargo said...

Tenho lido seus artigos e posso dizer que compartilho de suas idéias, mas parece que muitos artistas, críticos, instituições etc... não estão tão preocupados com essas questões que são de fundo moral, de uma arte que se tornou sem substância, esvaziada de qualidades, financeiramente especulativa... que não trazem nenhum benefício para o intelecto e para o espírito.

Continue escrevendo por favor!

Sergio Leo said...

Bom saber do teu ótimo blogue, Trigo!!! Sabe que a polêmica despertada por ti lá na Folha foi tema de prova do mestrado no Instituto de Artes da UnB?

A turma que teve Duchamp como ídolo já nos anos 50, 60, desdenhava da arte exposta nos museus, que dizia ser apenas resíduo do trabalho artístico real, criador. Para o Joseph Kosuth, mesmo os quadros cubistas, em si, não valiam nada como arte, mas como registro museológico do ato criador dos cubistas, que seria algo diferente, bem além, do resultado cromático registrado na tela. Os cubistas, claro, não concordariam com essa avaliação.

Me parece que o pessoal da arte contemporânea resolve da seguinte maneira essa contradição que v. aponta aí: não se deve considerar o que é exposto, o objeto comercializado, como a obra do artista. A obra seria a criação, o processo que antecedeu o objeto... Mas ninguém diz isso ao povo leigo que lota as bienais.

Roberto Silva said...

O que dizer da pintura de Milhazes que atingi preços de 50 mil a 250 mil dólares no mercado, preços esses praticados na última mostra na Galeria Fortes Vilaça, que antes da abertura já estavam todos vendidos? Sorte a dela e de muitos outros artistas brasileiros que tem a oportunidade de chegar a tais patamares.
A paixão é outra coisa, o espiritual na arte fica a critério de cada um. Estamos falando da produção do artista, ele faz arte, tem a habilidade no fazer, produz seu trabalho com muitas dificuldades, pois alem de ter que correr o risco da não venda tem que se submeter a lei do mercado. Teorias e conceitos acadêmicos se tem aos montes e sobrando em edições temáticas nas livrarias, que também estão lá para serem vendidas!!!
Gostaria de ouvir a opinião de profissionais das artes sobre os malefícios desse mercado especulativo. Falar de mercado quando não se vive da arte parece ser simples, as questões são complexas. Ser artista é uma profissão, ou não é?

Estamos passando por um processo de intensa aceleração, experimentação e adaptação nas artes plásticas no Brasil. Há uma diversidade gigantesca no universo criativo em nosso país. O Brasil vive processos do moderno e pós-moderno ao mesmo tempo. Neste contexto temos tido constantes mesas de discussões nas áreas acadêmicas preocupadas com essa memória artística brasileira. Nas artes digitais a dificuldade é maior ainda, pois as mídias envelhecem rápido, não há como imaginar um museu sem que haja mídias compatíveis para sua reprodução.
O Brasil tem uma narrativa fragmentada da arte que está sendo escrita em publicações de pesquisas nas universidades, penso que é nelas que temos que nos referenciar para compreender o que somos e o que produzimos hoje no Brasil.

Sergio Leo said...

O artista precisa viver, mas é, antes de tudo, um criador, Roberto. Quando ele passa a pautar seu trabalho de acordo com o mercado e as expectativas de rendimento, deixa de ser artista, Guimarães Rosa vira Paulo Coelho. Ou Bruna Surfistinha, como queira.