Monday, February 11, 2008

Estado da arte (4)

Querendo ou não, toda arte é de alguma forma determinada pelo contexto social, cultural e histórico que a circunscreve. Mesmo uma arte que se pretenda inteiramente apolítica é em alguma medida ideológica. Neste sentido, existe uma relação direta entre o alardeado pluralismo da arte contemporânea e a globalização e a hegemonia neoliberal.

E não apenas no mau sentido: a reconfiguração da ordem mundial a partir dos anos 50 abriu uma brecha para a arte de países emergentes, e isto foi evidentemente positivo, pois trouxe para o mapa internacional das arte manifestações artísticas até então ignoradas.

Por outro lado, foi também nos anos 50 que começou, de forma avassaladora, o processo de exportação de valores culturais americanos para o então chamado Terceiro Mundo (expressão caída em desuso, já que hje, como se sabe, s´existe um mundo, e ele é "plano"). Da coca-cola e da fast-food ao jeans e à T-shirt, da publicidade e do cinema à música e à dança, o estilo de vida americano foi globalizado de forma extremamente competente - principalmente porque não se tratou apenas de um prcesso de coerção externa, mas de sedução interna, conquistando os corações e as mentes dos neocolonizados.

Nas artes plásticas, o Expresionismo Abstrato foi o primeiro grande movimento de exportação americano. A qualidade das obras de De Kooning e Pollock e mesmo a intenção crítica de suas obras em relação aos valores do capitalismo não mudam o fato de que aquele movimento foi usado estrategicamente pelos Estados Unidos para roubar de uma Europa um pouco exaurida o papel de eixo do mundo da arte.

Subitamente valorizados - inclusive pelo Governo - os artistas americanos se permitiram as experimentações mais descabeladas. Uma obra de Rauschenberg de 1953 deve ser considerada um marco: Erased De Kooning ("De Kooning apagado"). Trata-se de um desenho de De Kooning que Rauschenberg... apagou.


Na minha opinião, este foi um momento crítico, de dimensão e implicações tão grandes quanto os primeiros ready-mades de Duchamp. A partir do momento em que uma folha de papel em que um desenho fora apagado foi validada como obra de arte, o caminho estava aberto para tudo. Um deslocamento decisivo se operou, porque, evidentemente, apagar um desenho alheio não era em si uma forma de expressão, nem uma obra autoral, nem uma obra única e autêntica - e, vale lembrar, os expressionismos abstratos ainda davam valor à autenticidade, à autoria e à expressão, que eram elementos de uma estética moderna. Era uma atitude, e a atitude passava a poder determinar a artisticidade de uma obra, não apenas suas qualidades intrínsecas.

(Com o tempo, estas qualidades intrínsecas foram eliminadas como critério de validação da arte. É por isso que insisto que, num determinado sentido, toda a arte contemporânea é de matriz onceitual. Não sou só eu, aliás: por volta de 2000, a imprensa inglesa criticou acidamente o "conceitualismo" de tubarões e camas desarrumadas, refereindo-se às obras de jovens artistas ingleses (incluindo Damien Hirst). Ou seja, meu emprego do termo "arte conceitual" não se limita à produção específica do movimento de vanguarda dos anos 60 e 70, mas a uma idéia-chave que está presente em toda a produção artística contemporânea, ou pós-moderna.)

No final dos anos 50, foi a vez de Frank Stella pintar telas negras (Black paintings, 1959) - mais ou menos 40 anos depois de Malevich ter feito a mesma coisa na Rússia, mas isso não vem ao caso.

O Modernismo ainda estava cheio de vigor, mas as sementes de sua destruição já estavam lançadas. Os movimentos de decomposição e negação das linguagens e convenções artísticas se tornaram cada vez mais destrutivos.

Na Europa, por sua vez, três artistas levaram a experimentação a extremos radicais: Yves Klein, que expôs o vazio numa galeria, Piero Manzoni, que enlatou as próprias fezes, e Lucio Fontana, que esfaqueou a tela - três gestos diante dos quais as obras "experimentais" de hoje parecem muito tímidas, minúsculas em sua despretensão.

Os artistas que depois disso insistiam na pintura figurativa - incluindo Balthus e Francis Bacon - pareciam depassés. Não é á toa, aliás, que Arthur Danto odeia Bacon, um artista que ainda era fiel a idéia de uma História da Arte e às possibilidades expressivas e emancipadoras da pintura.

A rejeição às convenções da arte moderna traduz um desprezo visceral da pós-modernidade por tudo que esteja associado à uma divisão entre a alta cultura e a cultura de massa - divisão prejudicial à lógica da reciclagem e do relativismo que prevalece hoje. A estética da publicidade, do consumo, da produção em série favorece a citação fugaz - seja ela crítica, irônica ou reverente.

O ideal das vangjuardas dos anos 60 e 70, de fusão entre arte e vida, foi realizado, mas não da forma esperada. Hoje, da mesma forma qualquer pessoa que seja designada artista é artista - diferentemenre de outras esferas da cultura: por exemplo, para ser um cantor de ópera não basta a designação; é preciso ter voz, técnica, talento etc - a qualquer pessoa que queira se sentir em sintonia com a arte contemporânea basta aderir a ela: ninguém lhe cobrará reflexão, análise, sequer compreensão.

É uma situação muito mais democrática que o elitismo modernista, é verdade, pois este exigia a compreensão de questões formais, tanto na pintura quanto na escultura, em suma, apresentava ao público um desafio, na forma de um objeto carregado de valores de decodificação nem sempre imediata.

Essas duas características da arte ocidental, às quais o Modernismo permaneceu fiel -primeiro, a arte entendida como um objeto, com determinadas características, criado pelo artista; segundo, a arte como algo que demanda um olhar contemplativo e inquiridor - foram simplesmente abolidas por práticas que, nos anos 60 e 70, eram autenticamente experimentais e que, a partir dos anos 80, viraram uma espécie de academicismo às avessas, isto é, uma produção que é endossada pelas instituições e pelo mercado, apesar de sua aparência contestadora.

Assim hoje se vê de tudo nas feiras de arte e galerias, menos pinturas e esculturas no sentido moderno do termo: o artista transforma em suporte, ou mesmo na própria obra, seu corpo, sua atitude, suas idéias, seus projetos irrealizados, seus processos de criação, menos um objeto acabado.

Essa elevação do provisório, do circunstancial, do rascunho, ao status de obra de arte é uma confissão tipicamente pós-moderna de incapacidade de realização de uma obra inteira, completa, que se ofereça ao julgamento e à crítica sem subterfúgios. Mais uma vez, uma herança de Marcel Duchamp, que depois de tentar a sorte na pintura, percebeu que teria muito mais impacto declarar que a pintura estava morta e acabada desde décadas antes - o que desqualificava a obra de artistas como Picasso e Matisse, para só citar dois. Esta opinião de Duchamp só foi realmente levada a sério pelo pós-modernismo.

Por outro lado, diversos processos realmente contestadores promovidos pelas vanguardas dos anos 60 e 70 foram simplesmente ignorados pela arte pós-moderna: a denúncia do caráter ideológico dos espeaços de exposição, a tentativa de escapar da mercantilização em todas as etapas da arte, da produção à difusão etc. Por isso movimentos interessantíssimos como a land art e os earth works são hoje vistos como curiosidades históricas, ignorando-se as questões que eles colocavam em relação a materiais, lugares, técnicas, autoria etc.

A arte, simplesmente, deixou de ser o que era, e isto aconteceu duas vezes. Primeiro, nos anos 70, quando a arte se "des-definiu", na expressão do crítico Harold Rosenberg. Depois, novamente, quando ela se enquadrou ideologicamente, fazendo as pazes com as instituições e o mercado - e, portanto, com os valores da sociedade pós-moderna.

2 comments:

Rodrigo said...

Admiro bastante sua disposição em colocar em discussão, de forma tão clara, questões fundamentais que parecem ser ignoradas por (e nem mesmo despertarem o interesse de) grande parte dos envolvidos com o meio artístico.
Sou apenas mais um estudante de arte e, para falar a verdade, faz pouco tempo que comecei a me envolver neste meio. Entretanto, gostaria de me atrever a fazer duas colocações sobre seus textos:
1 - não posso deixar de perceber em seu discurso uma perigosa generalização, colocando todo o cenário atual num mesmo caldeirão indistinto, onde nem mesmo ao público - ainda que apenas àquela parcela mais interessada (e informada) - é reservada a liberdade de escolha e de livre exercício de suas faculdades críticas;
2 - gostaria realmente de saber qual sua opinião (ainda que breve) sobre a obra do Bill Viola, artista ainda em atividade e que pertence ao período "dos últimos 30 anos";
Um abraço e continue com suas investigações, pois elas podem ser muito produtivas para a formação de uma nova geração mais crítica e menos comprometida com a triste situação em que nos encontramos.

lijialefw said...

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