Saturday, April 26, 2008

50 anos de 'O Vazio'


Há 50 anos, em abril de 1958, Yves Klein abriu sua exposição Le Vide ("O Vazio"), na Galeria Iris Clert, em Paris. O texto do convite classificava o evento como uma "manifestação de síntese perceptiva", que reafirmava a "busca pictórica de Klein por uma sensação de êxtase imediatamente comunicável". Mais tarde, numa conferência na Sorbonne, Klein explicou o objetivo da exposição: "criar, estabelecer e apresentar ao público um estado pictórico palpável, dentro dos limites de uma galeria. (...) Esse estado pictórico invisível deve estar tão presente e tão dotado de vida autônoma que deveria ser visto, a partir de então, como a mais abrangente definição da pintura: radiação". Conta-se que muitas pessoas chegavam na exposição sem saber do que se tratava - e se surpreendiam com a constatação de que não havia nada para ver: a galeria estava vazia, sem nada exposto, ou melhor: expondo o vazio.



No mesmo espírito, Klein criou "zonas de sensibilidade pictórica imaterial", que eram trocadas por barras de ouro, numa complicada transação incluindo recibos, instruções de uso e uma cerimônia em que as barras eram atiradas nas águas do Sena. Kelin também fez esculturas de fogo e pinturas de vento e chuva (prendendo uma tela em branco no capô de seu carro, durante uma viagem de Paris a Nice), além de projetos urbanísticos de alteração climática, e telas pintadas com pincéis humanos - belas garotas nuas, embebidas em tinta, nas chamadas antropometrias (ver vídeo acima). Mas ele é conhecido sobretudo por seus monocromos, quadros pintados de uma cor só: em 1960, ele patenteou a cor
International Klein Blue, resultado de uma pesquisa com pigmentos e resinas - um azul ultramarino com o qual recobriu telas, esculturas, esponjas e corpos femininos.

Ao articular, nestes e em outros trabalhos, o conceitual com o espacial, o efêmero, o imaterial e o virtual, Yves Klein antecipou diversas questões levantadas pelas vanguardas dos anos 60 e 70. Antecipou também procedimentos de muitos artistas contemporâneos, com seu comportamento excêntrico e seu gosto pelo espetacular. Klein era, contudo, um católico fervoroso, devoto de Santa Rita. E também campeão de judô, assunto sobre o qual escreveu um livro.

Um de seus últimos trabalhos foi a antrometria acima, Suaire de Mondo Cane, feita em seu apartamento/estúdio na Rue Campagne Première, em Paris. Yves Klein se deixou filmar realizando a obra, e o resultado está no filme Mondo Cane (1962), um documentário de Gualtiero Jacopetti. Klain imaginou, equivocadamente, que Jacopetti faria por ele o que Hans Namuth fez por Jackson Pollock, ou Hanri-Georges Clouzot fez por Picasso. Exibido no Festival de Cannes, o filme foi um fracasso. O artista morreu de ataque cardíaco poucas semanas depois da exibição, no auge da fama, em 1962, aos 34 anos.

5 comments:

João Vergílio said...

"Yves Klein antecipou diversas questões levantadas pelas vanguardas dos anos 60 e 70."

Isso quer dizer apenas que ele se portou como um retardado mental antes dos outros.

Ele é um farsante. Mas todos que estão naquele auditório fazendo carinha de paisagem são ainda MAIS FARSANTES do que ele.

moreira junior said...

Olá Luciano,

após algumas leituras de alguns de seus artigos publicados neste blog, chego a uma opinião que vc é um modernista e não suporta a produção contemporânea.
Eu gosto de alguns aspectos de seus artigos, mas sempre vc vem com uma idéia de desconstruir a produção dos artistas que atuam hoje.
Concordo que em algumas situações até eu mesmo prefiro levantar a bandeira de prós e contras,tb tenho muitas críticas ao sistema de arte, mas na maioria dos exemplos que vc propõe uma leitura da produção contemporânea de arte são para comprovar sua intenção ou seu entendimento para dizer que nada mais se faz interessante em se tratando de arte hoje.
Concordo que tem muita m... por ai mesmo, ainda mais se tratando de um circuito de arte elitista-oficial que é o Brasil. Mas acredito que no meio disso tudo há muitas obras e artistas interessantes na produção contemporânea de arte.
E aproveitando esse Post do Yvens Klein, que é uma referência para a produção de arte hoje, mas realmente não podemos repetir seus atos, será que hoje em são paulo não há nada de interessante que se possa comentar diante das exposições de alguma das galerias que levam a produção recente de arte?
E ainda sobre a Exposição O Vazio de Klein realmente é um parâmetro interessante para nós hj, é uma reflexão. Falam e repetem tanto pejorativamente da próxima Bienal, mas realmente é necessário refletir sobre o consumo ancioso da arte para Bienais (principalmente a de SP), e toda boa produção anterior sempre será uma referência para quem quer pensar e fazer arte.

gosto de de vez em quando dar uma olhada nos seus artigos que de alguma forma falam de arte na atualidade, mas tb ás vezes não da pra se ter uma reflexão além do que ja se falou nessas mídias.

artistas como jeff koons, damien hirst e até mesmo o Win Delvoye são artistas realmente de um patamar muito avassalador do mercado de arte hoje, mas mesmo assim acredito, trazem embutido (de alguma forma) em suas obras algo que faz refletir sobre tudo que vem acontecendo nesse campo....

João Vergílio said...

1. 15 minutos de projeção de um branco uniforme sobre a tela. Fundo sonoro: metrônomo regulado para 70 batidas por minuto.
2. 15 minutos de projeção de projeção de um azul uniforme sobre a tela. Fundo sonoro: metrônomo regulado para 120 bpm.
3. 15 minutos de projeção de um azul uniforme sobre expectadores sentados em banquinhos encostados a um écran. Fundo sonoro: barulho de trânsito gravado por John Cage (ou pelo curador da mostra, pouco importa).
4. 15 minutos de projeção de uma transição contínua das cores do espectro. Fundo sonoro: mantra budista.
5. 15 minutos de projeção de uma transição contínua das cores do espectro. Fundo sonoro: gargalhada distante dada pelo artista.
6. 15 minutos de projeção do artista sentado num banquinho, com um écran às suas costas na qual um de seus vídeos está sendo exibido. Quando ele olha na direção da platéia, não resiste, e começa a gargalhar. Fundo sonoro: principiante tentando tocar Escravos de Jó no violino.
7. 15 minutos de projeção do artista fazendo cocô no banheiro de sua casa, completamente alheio à platéia. Fundo sonoro: Glenn Gould tocando as Variações Goldberg. Os ruídos produzidos pelo organismo do artista e pela descarga devem ser igualmente audíveis.
8. 15 minutos de projeção de cenas de beijos cinematográficos (citação de Cinema Paradiso) sobre um enorme aquário, no qual nada um tubarão solitário. Título recusado pela curadoria: Beijos liquefeitos. Título definitivo: Eros e Psiquê.
9. 15 minutos de projeção de cenas de uma autópsia sobre uma reprodução gigante da Lição de Anatomia. Fundo musical: som ampliado de uma goteira.
10. 15 minutos de projeção com cenas da avó do artista em seus últimos momentos. O artista segura as mãos da velhinha, que exibem uma grossa aliança de ouro. Fundo musical: Marcha Nupcial.

* * *

Grossa rodela de metal com um recorte geométrico preciso.

Qual a diferença?

Carlos D said...

O fato é que parece a alguém q um grupo de sacerdotes da arte deve dar a medida do que É e do que NÃO É Arte. Sob quais parâmetros?
Assim como existem pinturas figurativas ou de paisagem pouco ou nada expressivas como as pinturas do jovem Adolf Hitler existem, por outro lado, trabalhos de arte "de vanguarda" que dão a medida certa da sensibilidade.
Existe muito de crítica, provocação, ironia, denúncia na tresloucura artística contiporanha que discursos rasos e generalistas só fazem ocultar. Dizer q figurativo eh melhor q abstrato ou q retangulos pintados falam mais q objetos ou objetos falam mais q ações etc é quase como debater qual religião se aproxima mais de Deus.

Farsa? Claro que é farsa. Teatro é farsa. Cinema é farsa. Quadrinhos são farsa. Mesmo a melhor biografia terá em si a graça e a malícia da farsa. Os impressionistas eram brilhantes farsantes da luz. E os maneiristas, farsantes do corpo. Farsantes somos todos. Já os (maus) políticos e outros profissionais... já estes são falsários. Enganam mesmo. Pra usurpar a vida e alienar a realidade.
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Voltando ao artista frustrado Adolf Hitler... É sempre bom lembrar (com base no ótimo documentário "Arquitetura da Destruição") que o Fürer mandou perseguir os artistas expressionistas e queimar sua arte por achar q ela preconizava a aberração em detrimento de uma beleza que Hitler julgava a base do pensamento nazista: a beleza clássica helênica (que é muito linda mesmo mas que não é o único caminho do olhar na Arte). Tempos mais tarde nos Isteites, um crítico de nome Greenberg anunciou que o Abstrato era o ponto final da arte e que a pureza absoluta da arte só existia na pintura (abstrata). A intervenção de elementos cotidianos em obras de arte representava para Greenberg uma degenerescência do espírito artístico.

Enfim, é preciso tomar cuidado com discursos rasos. Daí sim vamos ter O Vazio de verdade... Ops! Já temos... Basta ligar a TV... e no BBB ainda por cima. :)

T said...

Yves Klein não abriu uma exposição vazia, apenas. O artista expôs 'a galeria', que teve a fachada pintada em azul, cor que Klein relacionava ao invisível... o azul do céu - que também é uma farsa - mero efeito optico.

Mostrar a galeria é expor uma importante peça do sistema da arte feita sob medida para a pintura no século 18, que define o consumo da arte na sociedade do mercado, e que, apesar de todas as tranformações tecnológicas, científicas, sociais, artísticas, permanece praticamente intocada em seu conceito.

E afinal, a galeria não esteve vazia enquanto havia público, peça não menos relevante deste sistema secular.

“Falta muito a ser compreendido se considerarmos os critérios apropriados ao conceito de arte que tem prevalecido por alguns séculos.” (Arthur Danto)

Tatiana