Monday, April 21, 2008

Gullar x Habacuc

Antes tarde do que nunca. Na edição de ontem da Folha de S.Paulo, Ferreira Gullar escreveu sobre o artista costa-riquenho Habacuc e sua obra - deixar um cão morrer de fome, numa galeria. Habacuc foi tema de um dos meus primeiros posts sobre arte contemporânea, seis meses atrás. Bom ver Gullar voltar a escrever sobre arte, de qualquer forma. Transcrevo seu artigo abaixo:


FERREIRA GULLAR

O cachorro como obra de arte
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A arte de vanguarda, que nasceu contra a institucionalização, é refém da instituição
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ANO PASSADO, em 2007, um costarriquenho, que se diz artista e se chama Guillermo Habacuc Vargas, pegou na rua um cão vira-lata, amarrou-o numa corda e o prendeu à parede de uma galeria de arte, onde o animal ficou definhando até morrer de fome. Tratava-se, segundo ele, de uma "instalação perecível", uma obra de vanguarda. Pois bem, para o espanto das pessoas que já se tinham revoltado com a crueldade de Habacuc, a Bienal de Arte Centro-Americana de Honduras acaba de convidá-lo para dela participar com a referida "obra" e concorrer a um dos prêmios do certame.
Será tudo isso verdade ou apenas uma "pegadinha"? Custa crer que o dono de uma galeria de arte permita que um exibicionista pirado amarre ali um pobre cão e o deixe morrer de inanição. Como se deu a coisa? O animal urinava e cagava preso à parede, ganindo desesperado? As pessoas iam assistir a esse espetáculo de sadismo e ninguém se revoltou nem nenhuma sociedade protetora dos animais protestou? A possibilidade de ter o cão morrido sem que ninguém tenha sabido está fora de questão, uma vez que o objetivo desse tipo de "autor" é precisamente chamar a atenção sobre si, já que nenhum outro propósito pode ser considerado. Mais surpresa causa ainda a notícia de que a Bienal de Honduras o tenha convidado a repetir, nela, aquele mesmo espetáculo de crueldade e sadismo.
Não obstante, essa informação está em vários sites, e surgiu até um movimento de protesto -um abaixo-assinado- para impedir que a Bienal mantenha o convite. Se o que Habacuc queria era escandalizar e ganhar notoriedade, conseguiu, ainda que a notoriedade própria aos torturadores e carrascos.
Não obstante, apesar da repercussão que o cerca, esse fato não é tão novo assim. Sem a mesma dose de cocô e urina nem a mesma animalidade, outras "obras" e atitudes ocorridas antes são reveladoras do impasse a que chegaram a arte dita de vanguarda e as instituições que a exibem, particularmente as Bienais. Uns poucos anos atrás, um gaiato enviou para a Bienal de São Paulo, como sua obra, a seguinte proposta: abrir uma segunda porta na exposição por onde as pessoas entrariam sem pagar. Não podia ser aceita, pois implicaria sério prejuízo ao certame, mas também não poderia ser rejeitada, porque, sendo a Bienal "de vanguarda", tal rejeição comprometeria sua imagem.
Em face disso, adotou-se a seguinte solução: improvisar, nos fundos do prédio, uma portinha meio secreta, garantida por um guarda que a manteria aberta por apenas uma hora e só permitiria a entrada de dez visitantes, no máximo. E assim as coisas se acomodaram, salvando-se a audácia do artista e o caráter vanguardista da instituição. Pode ser que me engane, mas a impressão que tenho é de uma luta farsesca entre falsos inimigos que necessitam um do outro para existir: sem o espaço institucional (galeria, museu, Bienal), não existe a vanguarda e, sem a vanguarda, não existem tais instituições. E a gente se pergunta: mas a vanguarda não nasceu contra a arte institucionalizada? Pois é...
Voltemos ao cachorro. O tal Habacuc pegou o cachorro na rua e o levou para a galeria de arte a fim de fazer dele uma "instalação perecível", ou seja, uma obra de arte. Se o tivesse levado para um galpão qualquer e o deixasse lá morrendo de fome, ele não passaria de um pobre vira-lata vítima de um maluco. Mas, como o Habacuc é artista -ou se diz-, levou-o para uma galeria de arte e aí o pobre cão, de cão virou instalação, por obra e graça do espaço em que o puseram para morrer. Esse é um dado que os críticos de arte (também de vanguarda) teimam em ignorar, ou seja, que, nessa concepção estética, é o espaço institucional que faz a obra: por exemplo, um urinol igualzinho ao de Duchamp, se estiver no Pompidou, é arte; se estiver no banheiro de um boteco, é urinol mesmo, pode-se mijar nele à vontade.
É, portanto, diferente da Mona Lisa, que depois de roubada do Louvre, em 1911, e levada para um quarto de hotel na Itália, continuou a obra-prima que sempre foi. É que a chamada arte conceitual dispensa o fazer artístico e afirma que será arte tudo o que se disser que é arte, mas desde que o ponham numa galeria ou numa Bienal.
Ou seja, a essência da arte de vanguarda, que nasceu contra a institucionalização da arte, é contraditoriamente, a instituição; não está nas obras e, sim, no espaço institucionalizado em que ela é posta. Talvez por isso, a próxima Bienal de São Paulo não terá obras de arte: exibirá apenas o espaço institucional vazio, que as dispensa.

10 comments:

BOA SORTE!!! said...

no caso o vazio certamente será melhor, talvez a desconstrução do Ibirapuera tb - o material pode ser reutilizado para a construção de casas populares

Daniel said...

O ultimo paragrafo do Gullar é perfeito: "Talvez por isso, a próxima Bienal de São Paulo não terá obras de arte: exibirá apenas o espaço institucional vazio, que as dispensa"

Nao ha mais o que acrescentar..

Ah, ha sim...(ja que é pra ser sadico) eu gostaria que alguem fizesse uma instalacao com o filho do "artista" dessa "instalacao" preso, que ninguem o alimentasse, e ele "perecesse".

Ai sim eu gostaria de ver a opiniao sobre o valor "artistico" pelo "artista" costa-riquenho.

Daniel said...

Luciano, da uma olhada.

Abracos.

D said...
This comment has been removed by the author.
D said...

ahn... gente. acho q tem algumas coisas importantes a saber:

O nome da obra é "Eres lo que les"
Você é o que vc lê.Sacaram?

O nome do cão é Natividade. Diz o artista q é um cão doente retirado das ruas de Managuá, Nicarágua. Mas isso é o que ELE diz. Qual é a verdade? "Eres lo que les".

Tudo o que se sabe da exposição de Guillermo Vargas foi veiculado SOMENTE pela internet. :) não há testemunhas REAIS a Foto pode muito bem ter sido produzida. O Cão pode nunca ter morrido, só posado para as fotos e dái o cara criou a história. Assim como o grupo de desconhecidos em pé não permite sua identificação.

Fotos e videos de um cão magrelo amarrado a uma parede numa sala cheia de pessoas - veiculadas em blogs, spams e afins - é tudo o q realmente existe. :)) Qual é a verdade? "Eres lo que les".

Mais: não se faz menção dos autores das fotos nem quando foram feitas. :)))
E tem mais: ele queimou 175 pedras de crack num queimador de incenso no local da expo. 8(O)

A sociedade protetora dos animais tentou achar provas mas não encontrou nada no local.
O diretor da galeria (Codice Gallery) desmentiu o autor dizendo q ele (o autor) alimentou o cão sim e o cão só ficou amarrado durante as 3 horas do período de exposição. Disse tmbm q a certa altura do ato... o cão fugiu.
O artista afirma q além de não ter deixado o bicho comer, impediu as pessoas de alimentar o bichim e aindas por cima fez o bicho sofrer "outros maus tratos" q o levariam a morte.
Há vaarias informações diferentes veiculadas pela internet (algumas de puro ódio contra o cara que afirma q fez isso para q o mundo preste atenção no drama dos cãozinho q vagam nas ruas da nicarágua).

Só pra aumentar o sadismo: no teto acima do cão na "exposição" VEICULOU-SE que está escrito com comida de cachorro:
Vocé é o que você lê.

Quem sabe o trabalho dele na verdade não é toda essa discussão gerada sobre sadismo, morte, vida banalizada, arte, moral, ética, verdade e mentira etc etc etc?

Ah Andy Kaufman... Q escola.

argenide said...

Hoje, 25 de abril a Folha de SP trouxe uma pequena nota sobre um "artista plástico" alemão cujo nome nem merece ser citado que está à procura de um doente terminal para uma "instalação" na qual morreria numa galeria de arte. E aí, Luciano? parece que a cada dia piora, não é? O buraco está cada vez mais em baixo e a imprensa alemã está criticando o "abuso de liberdade artística". Liberdade artística? O que aconteceu com a ética?
Abraço,
Argênide
www.argenide.com.br

Cosco said...

talvez não exista "ética artística"...

T said...

Em concordância com o “d”, que escreveu logo acima, suponho, sinceramente, que o artista tenha conseguido seu intento ao criar uma ilusão bastante convincente na rede - tão propícia a esse tipo de divulgação. Bastou criar um site aqui, uma petição ali, um blog e tal, talvez enviar algumas mensagens a formadores de opinião, e o boato virou discussão polêmica pelo mundo. Até o 'histórico' Ferreira Gullar mobilizou-se. Talvez nem mesmo o artista tivesse a pretensão de ir tão longe com seu cachorro ‘Natividad’ e sua exposição ‘Eres lo que les’ – pelo título, talvez o artista deseje passar a ser o que escrevemos sobre ele... notícias desencontradas, informações que aproximam-se sem um encaixe nítido, nada muito preciso. Quem sabe?

o performer Andy Kaufman, que se dizia 'cantor e dançarino', já fazia esse tipo de 'transgressão-ilusionismo', confundindo realidade, ficção, comédia e provocação, apoiado pelos programas de auditório e talkshows norte americanos...

Tatiana

moreira junior said...

sou obrigado a comentar essa::::::
primeiro que o assunto escolhido por Gullar ja esta mais batido do que falar mal de arte, (Monteiro Lobato pós moderno)
segundo, que sua comparação com o tal trabalho do cachorro "doido" ao trabalho que ele cita da Bienal de SP da porta disfarçada atrás, é totalmente inadequado e inoportuno e não tem nada haver com a polemica virtual do cachorro.
Se é pra falar de Instituição e Vanguarda então melhor encontrar assuntos mais atuais que fazer comparações sem cabimento e dar importância para tal fato virtual.

É impossível não haver, em SP ou no RIO ou onde seja nesse Brasil, algo interessante em abordar em se tratando de arte, instituição e público.

Gullar, melhor dar um tempo de falar de arte...

moreira junior said...

sou obrigado a comentar essa::::::
primeiro que o assunto escolhido por Gullar ja esta mais batido do que falar mal de arte, (Monteiro Lobato pós moderno)
segundo, que sua comparação com o tal trabalho do cachorro "doido" ao trabalho que ele cita da Bienal de SP da porta disfarçada atrás, é totalmente inadequado e inoportuno e não tem nada haver com a polemica virtual do cachorro.
Se é pra falar de Instituição e Vanguarda então melhor encontrar assuntos mais atuais que fazer comparações sem cabimento e dar importância para tal fato virtual.

É impossível não haver, em SP ou no RIO ou onde seja nesse Brasil, algo interessante em abordar em se tratando de arte, instituição e público.

Gullar, melhor dar um tempo de falar de arte...