Wednesday, August 06, 2008

Argel é aqui


Revi ontem no cinema A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Foi realizado em 1966, quando os acontecimentos que relata - a luta pela independência argelina - ainda eram recentes. É uma obra-prima - como também é Queimada, com Marlon Brando, do mesmo diretor. O que não muda o fato de que o filme pede, hoje, uma leitura diferente da de 20 ou 30 anos atrás.

Naquela época, não havia dúvidas de quem eram os bandidos e os mocinhos do filme, nem de quais eram as questões em causa. O povo argelino era o herói, o colonizador francês o vilão. É claro que Pontecorvo defendia a causa da libertação argelina, mas seu filme não é tão partidário quanto parecia, quero dizer: era fácil, para o espectador da época, vibrar com os atentados terroristas cometidos pela FLN; para o espectador de hoje, eles parecem tão hediondos quanto a tortura e outros crimes praticados pelos militares franceses.

É justamente por isso que A Batalha de Argel conserva sua força. Pontecorvo mostra os dois lados da horrorosa escalada de violência que tomou conta do país, expõe seus mecanismos sem aprová-los. É, nesse sentido, um filme mais verdadeiro que qualquer documentário sobre o tema (aliás, desconfio cada vez mais da maioria dos documentários). O que importa ao cineasta italiano não é dar razão à insurreição argelina, mas mostrar como ela foi possível, e como ela aconteceu.

Por outro lado, hoje já se sabe que outros fatores, econômicos e políticos, foram decisivos no processo de descolonização, além das insurreições locais: manter colônias nos moldes do século 19 estava se tornando inviável, e a independência de países como a Argélia seria de qualquer forma inevitável - e mesmo desejável.

Mesmo assim, Pontecorvo soube realizar um filme permanente numa época em que a tentação panfletária era fortíssima. O mundo era cenário de batalhas ideológicas sem fim, para o bem e para o mal. A adesão idealista a uma causa era algo rotineiro. O que mudou, se as questões de fundo que geraram aquelas batalhas continuam? A desigualdade, a exploração, a exclusão, o abismo social entre ricos e pobres podem ser até maiores hoje, mas no nosso mundo globalizado parece quimérica a emergência de um "contrapoder" real, seja qual for o poder de que estivermos falando. É como se as coisas tivessem, de fato, chegado a um fim, como se estivéssemos num "pós-escrito" da História. Ou não? E isso é necessariamente ruim, ou bom?

Para quem mora no Rio de Janeiro, outro aspecto que chama a atenção no filme é a geografia de Argel: a "ville europeènne" parece uma Zona Sul, ameaçadoramente cercada pela Casbah, isto é, por uma maioria esmagadora de excluídos que também tem que viver, e a violência é aos poucos incorporada à rotina de todos. Não há invasor a expulsar, nem independência a conquistar, mas ainda assim a cidade mostrada no filme parece estranhamente familiar. Argel é aqui?

14 comments:

BandAid said...

conheci hoje esse blog e me adorei. todo o meu estranhamento com arte contemporânea se sentiu representado nos posts que li.

afmurad said...

Gostaria muito que você comentasse sobre essa atual onda grafitti. Decorativo, design, moda, comercial, contemporâneo...?

afmurad said...

Gostaria que você comentasse esse novo cenário artes plásticas, influenciado pelo grafitti.
estética, moda, decorativo, contemporâneo???

Cynthia Castro said...

Oi, Luciano!

Achei o seu blog por acaso e acabei gostando logo de cara.

Confesso que só assisti A Batalha de Argel uma vez, apesar de inúmeras recomendações de amigos meus (um deles, jornalista também).

Esse filme me fez refletir sobre a fase pela qual estava passando e, sem dúvida, senti inveja tanto de Ali, que não abandonou o navio por uma causa, quanto de Mathieu, o temerário estrategista que sabia muito bem onde pisava, tendo admiradores e inimigos.

Parabéns pela análise!

Cássia ... said...

"Naquela época, não havia dúvidas de quem eram os bandidos e os mocinhos do filme, nem de quais eram as questões em causa."

Será que existiu um tempo em que realmente sabíamos quem era mocinho e quem era bandido, ou simplesmente éramos inocentes demais e acreditávamos nisso?

interessante teu blog...

Du Santana said...

Então vc é escritor!!!!!!
Sabia que os escritores tbm salvam o mundo?

Juliana said...

Caro Luciano Trigo,
Sou repórter do jornal O POVO, de Fortaleza, e gostaria de entrar em contato com você. Qual o seu e-mail ou telefone. Obrigada!
Juliana Girão
(jugirao1@gmail.com)

John Lester said...

Parabéns pelo excelente blog.

Grande abraço, JL.

Juliana Rosa Vall Lloveras Fernandes said...

Instigou-me! Ainda não vi o filme e agora fiquei bem interessada em procurá-lo.
Abraço!

Juliana Rosa Vall Lloveras Fernandes said...

Instigou-me! Ainda não assisti ao filme e agora fiquei interessada em procurá-lo!
Abraço!

Lucubrina said...

Não parecendo ando por aqui

Bom Ano de 2009 e espero continuar a ler o seu blog.
Há sempre alguém que nos lê mas não escreve - "je"

Josimara said...

Olá Luciano, tudo bem?
Sou jornalista da MIXMD e gostaria de te fazer um convite para escrever em um blog. É um projeto muito bacana.
Favor me responder por email ou me enviar seus contatos para que possamos falar.
Aguardo seu retorno e agradeço desde já!

Abraços,

Josimara Silva
email: josi.silva@mixmd.com.br
Tel.: 11 2166-1848
Cel.: 11 9559-7749

Dani Andrade said...

Olá Luciano,

Costumo ler o máquina de escrever e hoje (28 de fevereiro), pela 1a vez, deixei um comentário.

Gosto muito dos seus textos.

Daniela Andrade

Priscila Lopes said...

Excelente post. A imagem também, ótima.

Luciano, você recebe emails pelo endereço do gmail? Vou enviar um agora.

Até!