Monday, November 19, 2007

Artigo na Folha, novas aquisições etc




- Saiu hoje (na verdade ontem, segunda-feira) artigo meu sobre arte contemporânea na Folha de S.Paulo. Sei que lá vem pedrada.

- Acabei de encomendar dois livros na Amazon, duas biografias de dois ídolos sobre os quais não leio nada há algum tempo. O primeiro é Coltrane: The Story of a Sound, de Ben Ratliff, sobre o lendário saxofonista John Coltrane. O segundo é o terceiro volume da monumental biografia de John Richardson sobre Picasso, Life of Picasso Vol.3: The Triumphant Years, 1917-1932. Depois comento.

Nos vídeos abaixo, Coltrane e Picasso em ação.



Saturday, November 17, 2007

O amor não tem preço, mas a arte tem


Eu não pretendia voltar tão cedo ao tema, mas não resisto.

Uma nota nos jornais de hoje informa que Rindy Sam, uma jovem artista plástica cambojana, foi condenada por desenhar um beijo com batom num quadro do pintor americano Cy Twombly exposto em Avignon, no sudeste da França. Ela vai ter que desembolsar 1.500 euros, além de prestar 100 horas de serviço comunitário. Terá também de pagar um euro simbólico, por perdas e danos, ao artista, que a processou declarando-se horrorizado com a atitude da jovem. Rindy chegou a afirmar que o desenho dos seus lábios melhorou a obra.

Avaliada em 2 milhões de euros, a tela beijada era imaculadamente branca. Em sua defesa, Rindy declarou que o "beijo" foi um ato artístico e um gesto de amor à arte: "Meu beijo foi um testemunho daquele momento, do poder da arte. Cy Twombly tinha deixado aquele branco para mim", declarou. Seus advogados argumentaram que ela foi arrebatada pela emoção diante do quadro, reafirmando que o beijo foi um gesto de amor. Os advogados do dono da tela, o galerista parisiense Yvon Lambert, responderam: "No amor, é necessário o consentimento das duas partes". Também argumentaram que a restauração da pintura vai custar 33.400 euros, valor considerado exorbitante pela Corte francesa.

Agora vamos lá: fiz um passeio virtual pelos sites dos jornais franceses, para ver como o assunto estava sendo tratado. O crítico Demian West escreveu o seguinte:

"O pior é que Rindy Sam foi considerada culpada, quando sua culpa foi ter respondido ao apêlo que o próprio Cy Twombly fez naquela tela, tão branca que exigia uma marca indicial que enfim a animasse de uma vida contingente. (...) É claro que Rindy Sam tem nesse escândalo uma excelente ocasião para conquistar seu lugar ao sol no mundo das artes. (...) Quanto a Twombly, que não era assim tão conhecido na França, agora vai ser." (De fato: na foto abaixo, Rindy aproveita seus 15 minutos de fama, num programa de televisão)



Outro crítico, Jean-Philippe Domecq, foi muito mais radical, denunciando a impostura e a arrogância da tela em branco apresentada como obra de arte (e avaliada em 2 milhões de euros). Domecq é autor do livro Misère de l'art (editora Calmann Lévy, 1999), no qual analisa a produção artística dos últimos 50 anos, segundo ele miserável. Domecq faz menção à peça teatral ART, de Yasmina Réza, sucesso em Nova York e em várias capitais européias nos anos 90 (houve duas montagens brasileiras), sobre três amigos que entram em crise depois que um deles gasta uma fortuna na aquisição de uma tela em branco, justamente. Aliás, outros artistas também pintaram telas em branco, como o meu favorito Yves Klein.

Mas o ponto que me chamou a atenção é: enquanto no Brasil quem ousa debater os rumos da arte contemporânea é sumariamente condenado à fogueira, e críticos de 40 anos atrás (Arthur C. Danto, Clement Greenberg, David Sylvester) são publicados como se fossem grande novidade, na França, aparentemente, existe uma atitude crítica e uma disposição para o debate muito maiores.

Mais Pirandello




Pirandello volta aos palcos cariocas numa montagem da atriz e produtora Ana Paz: a peça Sonho...ou não? tem direção de Eduardo Tolentino e traz a própria Ana Paz e Giuseppe Oristanio no elenco. Temporada de 23 de novembro a 27 de janeiro no teatro do Oi Futuro.

Agora, complementando o post anterior:

O aspecto mais estranho do meu lapso de memória foi que editei, há poucos meses, uma coletânea de contos de Pirandello, O marido de minha mulher, em mais de um sentido complementar aos dois livros citados. Leitura altamente recomendável:

O adultério segundo Pirandello

Em 12 contos, o escritor italiano reflete sobre a solidão,
o casamento e o absurdo da condição humana

O marido de minha mulher
de Luigi Pirandello
Tradução de Jacob Penteado
Odisséia Editorial

A Odisséia Editorial inaugura sua linha de ficção com uma reunião de contos do dramaturgo e prosador italiano Luigi Pirandello, O marido de minha mulher. São doze contos, publicados originalmente na coleção Novelle per un anno, concebida com a ambiciosa meta de reunir 365 histórias – uma para cada dia do ano.

Além de renovador do teatro moderno, Luigi Pirandello (1867-1936) também escreveu novelas e romances,como O falecido Mattia Pascal. Em O marido de minha mulher, com profundo senso de humor, o autor expõe o ridículo das situações cotidianas, em histórias povoadas de adultérios e personagens tomados por pequenas
e grandes angústias: “Cada qual se veste com a sua dignidade por fora”, escreveu Pirandello, “mas sabe muito bem tudo de inconfessável que se passa no seu íntimo”.

Na história que dá título ao livro, o narrador, consciente da proximidade da morte, especula sobre o provável envolvimento entre sua mulher e seu melhor amigo; em “Um matrimônio ideal”, a dúvida sobre a paternidade confere um caráter trágico ao destino de um homem comum; em “Retorno”, um personagem volta ao povoado natal e não é reconhecido por ninguém.

Em todos os contos deste volume, Pirandello expõe,com ceticismo, graça e melancolia, os sentimentos contraditórios e inconfessáveis que, muitas vezes, entram em conflito com as convenções sociais. Ao revelar a contradição, presente nas situações mais banais, entre a verdade e a ilusão, entre a aparência e a realidade, o autor revela o absurdo da condição humana.

Pirandello afirmava pertencer, desgraçadamente,à categoria dos escritores filósofos, cuja tarefa seria desvendar as infinitas máscaras que camuflam a realidade. Em O marido de minha mulher estão presentes os três motivos explorados pelo autor nesse empreendimento: a ilusão da compreensão mútua, as múltiplas personalidades que cada pessoa carrega dentro de si e o conflito trágico entre a dinâmica da vida e a rigidez das convenções.

Duas faces de Pirandello




Há poucos dias achei uma entrevista que fiz com Pierre Bourdieu da qual só me lembrava vagamente. Agora achei um texto meu sobre Pirandello do qual rigorosamente não me lembrava. Foi publicado no extinto Jornal de Resenhas, da Folha de S.Paulo, em 2001:

Aceitação e evasão:
Duas faces de Luigi Pirandello

Um, Nenhum e Cem Mil
Luigi Pirandello
Tradução: Maurício Santana Dias
Apresentação: Alfredo Bosi
Cosac & Naify

O Velho Deus - Novelas Para um Ano
Luigi Pirandello
Tradução: Bruno Berlendis de Carvalho
Berlendis & Vertecchia

LUCIANO TRIGO

"Nós não somos aquilo que pensamos ser, mas apenas aquilo que, a cada vez, nos construímos". "A vida é uma fúnebre farsa, em que nós -mais ou menos inconscientes- representamos os papéis mais diferentes, pobres marionetes nas mãos do destino cego." Essas duas declarações de Luigi Pirandello poderiam servir de epígrafes, respectivamente, ao romance "Um, Nenhum e Cem Mil" e à coletânea de contos e novelas "O Velho Deus", recém-lançados no Brasil.

Romance que, sob a aparência de um divertimento despretensioso, lança questões profundas sobre o conflito entre o complexo conjunto de afetos e aspirações de cada indivíduo e as máscaras sociais que a sociedade o obriga a assumir, "Um, Nenhum..." é marcado por um humor amargo e corrosivo em relação ao mundo dos pequenos-burgueses, das pessoas medíocres e obscuras que se deixam arrastar pela circunstâncias, sem comandarem seu próprio destino -sem, como acentua Alfredo Bosi, "ver-se vivendo", característica que distingue o protagonista-narrador Vitangelo Moscarda.

Moscarda mergulha numa crise existencial quando descobre, pela mulher, que seu nariz pende para a direita. A partir desse episódio banal, ele passa a viver atormentado por dúvidas e desconfianças sobre si mesmo e os que o cercam, angustiado sobretudo pela consciência das máscaras que falsificam permanentemente a identidade de cada indivíduo. Moscarda mergulha numa especulação metafísica sobre o desajuste entre a sua vida interior e a realidade objetiva: qual é a relação entre o seu "eu" e a sua imagem pública?

Outra vida

Solitário, introspectivo e rebelde, Moscarda avança até o limite da loucura em seu questionamento bizarro da realidade. Nesse sentido, é primo-irmão de Mattia Pascal, dividido entre o impulso de viver e a impossibilidade de se libertar dos grilhões sociais, entre a felicidade da recusa e a impossibilidade de evasão. O anti-herói do romance "O Falecido Mattia Pascal" (1904), vale lembrar, aproveita-se da falsa notícia de sua morte para mudar de nome e tentar viver uma outra vida, mais feliz porque livre das convenções sociais.

Mas ele descobre que, sem uma identidade civil, essa segunda chance lhe é negada, pelos motivos mais prosaicos -não pode se casar nem dar queixa de um roubo, por exemplo. Quando decide voltar à sua cidade e esclarecer tudo, é rejeitado pela sociedade, pois a nova máscara de Mattia Pascal é a de um morto. Moral da história: na prática, cada indivíduo é somente o que os outros pensam que ele é, e não o que ele acredita ser, o que significa dizer que todos são coagidos a viver à margem de si mesmos. É contra isso que Moscarda se revolta, causando polvorosa na cidade de Richieri quando rejeita a máscara de banqueiro e usurário -e paga seu preço.

Sem querer estabelecer laços de determinismo entre vida e obra, alguns aspectos biográficos podem lançar luzes sobre o romance. Por exemplo, como a mulher do protagonista de "Um, Nenhum", Maria Antonietta Portullano, com quem Pirandello se casou em 1894, pertencia a uma família próspera. O desequilíbrio de Maria Antonietta, em constante competição doméstica com a filha Lietta -ela suspeitava de uma ligação amorosa entre o marido e a filha-, tornou-se desesperador, resultando em duas tentativas de suicídio e na internação da mulher. Em que medida essa difícil situação familiar não terá inspirado Pirandello a criar Moscarda?

Além de explorar os temas da tensão entre a face particular e a máscara pública e do homem como animal que interpreta um papel, "Um, Nenhum" é um livro escrito em atrito constante com a linguagem, pondo em questão sua natureza e seus limites, trazendo embutida uma discussão teórica valiosa sobre as possibilidades da narrativa e seu entrelaçamento com a reflexão filosófica. Incorpora assim alguns temas de peças como "Cada Um a seu Modo" e "Seis Personagens à Procura de um Autor".

"Um, Nenhum e Cem Mil" foi publicado em capítulos, em 1926, e é o último romance de Pirandello. A edição brasileira traz ainda uma preciosa entrevista concedida pelo autor a Sergio Buarque de Holanda, em 1927.

O diálogo entre a prosa e o teatro também está presente nos textos reunidos em "O Velho Deus", escritos ao longo de quatro décadas. A fidelidade do autor ao gênero -continuou a escrever novelas mesmo quando entrava em crise criativa no teatro- não muda o fato de que muitas desses textos curtos eram uma espécie de exercício de temas e formas que seriam desenvolvidos em suas peças e narrativas mais longas. "O Velho Deus" mostra a face menos experimental e mais humanista do escritor, que afirmou certa vez: "A minha arte ensina cada indivíduo a aceitar o seu fardo com submissão e humildade".

Os protagonistas, aqui, são seres humildes, de vida precária, para quem não se coloca a questão da tirania da máscara que o olhar alheio impõe, já que estão preocupados com problemas mais básicos da existência. Inspirados sem dúvida nos habitantes da aldeia de Chaos, na Sicília, onde Pirandello nasceu em 1867, são textos mais sofridos, áridos, por vezes chocantes, narrados de forma linear, quase sem as machadianas intervenções diretas do narrador presentes no romance. No conto que dá título ao volume, um velho franzino, pressentindo a morte, dedica seu último verão a visitar todas as igrejas de Roma. São situações banais, que registram o cotidiano da gente simples que tem a sabedoria de aceitar a vida.

Pirandello pretendia reunir em suas "Novelle per un Anno" 364 textos em um só volume, um para cada dia do ano. O projeto permaneceu inacabado. Em 1936, quando estava nos estúdios da Cinecittá trabalhando na adaptação de "Mattia Pascal" para o cinema, o escritor pegou uma pneumonia e não se recuperou mais, morrendo em 10 de dezembro.

Embora seja naturalmente lembrado sobretudo por sua importância como dramaturgo, Pirandello foi um precursor da literatura moderna. Entre outras influências, antecipou-se aos existencialistas em sua angústia sobre a natureza da existência, e a Samuel Beckett, na reflexão sobre o isolamento do homem e a desintegração da personalidade.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "O Viajante Imóvel - Machado de Assis e o Rio de Janeiro de seu Tempo" (Record)

Thursday, November 15, 2007

A volta do idiota na Veja

Livros
Dentes, pra que te quero

Os ensaístas que dissecaram o idiota latino-americano
alertam para os perigos da nova esquerda carnívora




Os jornalistas Plinio Apuleyo Mendoza, colombiano, Carlos Alberto Montaner, cubano, e Álvaro Vargas Llosa, peruano, tiveram uma felicidade rara na vida dos escritores. O trio cunhou uma expressão definitiva: "perfeito idiota latino-americano". Sob essa rubrica, abriga-se a barulhenta turma dos que atribuem ao capitalismo todos os males do mundo, dos que abominam os Estados Unidos e admiram o comunismo tropical de Cuba. Pouco mais de dez anos depois de O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, a trinca reuniu-se novamente para barrar a marcha do socialismo – encarquilhado, ainda que com roupagem "do século XXI" – sobre este continente. A Volta do Idiota (tradução de André Pereira da Costa e Luciano Trigo; Odisséia; 240 páginas; 34,90 reais), que chega agora às livrarias brasileiras, é uma análise devastadora da nova onda de idiotia que vem afligindo a América Latina, com representantes vistosos na Venezuela, na Bolívia, no Equador. O livro também traz duas outras expressões que prometem se popularizar: esquerda carnívora e esquerda vegetariana. A primeira é representada por caudilhos autoritários como Hugo Chávez. Na sua versão vegetariana, a esquerda adaptou-se ao mundo globalizado e fez as pazes com os fundamentos da economia de mercado e do estado democrático. Michelle Bachelet, presidente socialista do Chile, é o melhor exemplo dessa corrente.

Incluído entre os vegetarianos, o presidente Lula é tratado com condescendência no livro. Seu compromisso com a responsabilidade fiscal é elogiado, com a ressalva de que o crescimento econômico do Brasil é pífio se comparado aos resultados de emergentes como China e Índia. A Volta do Idiota responsabiliza o "sistema político brasileiro" pela impossibilidade de aprovar reformas que aliviem a carga fiscal que pesa sobre as empresas – como se o governo que anda aí brigando para manter a CPMF tivesse algum desejo de maneirar a mordida tributária. Em uma perífrase desajeitada, os autores ainda afirmam que Lula "não combateu como deveria" a "corrupção do partido governista". Em entrevista a VEJA, Álvaro Vargas Llosa – filho do romancista Mario Vargas Llosa, que assina o prólogo de A Volta do Idiota – admite que o livro pega leve com Lula, por razões estratégicas: "Ele merece nosso apoio por ter se afastado, até agora, da tentação populista que assola a América Latina", diz.

As trapalhadas peronistas do argentino Néstor Kirchner, o indigenismo de fancaria do boliviano Evo Morales e os delírios nacionalistas do equatoriano Rafael Correa são devidamente destroçados em A Volta do Idiota. O melhor capítulo é dedicado ao ditador venezuelano Hugo Chávez, o tiranossauro rex da esquerda carnívora. A formação ideo-lógica de Chávez é examinada em detalhe – e revela uma inusitada parceira entre a esquerda carnívora e a direita mais feroz. O guru político de Chávez foi o fascistão argentino Norberto Ceresole, que chegou a ser conselheiro do general e ditador Viola. A partir das idéias fascistas de Ceresole, Chávez desenhou o caminho para a sua "revolução bolivariana", através da cooptação das Forças Armadas e da concentração de poder, com o progressivo enfraquecimento da democracia representativa. "Na Colômbia, no Peru, no México, Chávez tem financiado ilegalmente ONGs e movimentos políticos próximos ao seu populismo. É uma estratégia mais insidiosa, e portanto mais perigosa, do que as guerrilhas que Fidel Castro financiou nos anos 70", diz Llosa. O idiota mais perigoso é aquele que às vezes mostra esperteza.



DIVISÕES DO JURÁSSICO

Os líderes da esquerda latino-americana segundo
os autores de A Volta do Idiota

A ESQUERDA CARNÍVORA
O ditador da Venezuela, Hugo Chávez, não respeita princípios democráticos básicos como a liberdade de imprensa e o direito à propriedade. É um perigoso dinossauro carnívoro

A ESQUERDA VEGETARIANA
O presidente Lula foi carnívoro na oposição – mas, uma vez eleito, aderiu a regras fundamentais como a responsabilidade fiscal. Tornou-se um dinossauro herbívoro

Bourdieu, Freud etc












Uma gripe renitente e o tempo fechado neste feriado provocam tédio, mas a falta do que fazer também dá livre curso à imaginação. E a Internet - ou melhor, o conceito de hipertexto que a fundamenta - tem muito em comum com a associação de idéias freudiana (aliás, Freud passará a aparecer com freqüência aqui, já que estou traduzindo The death of Sigmund Freud, de Mark Edmundson, o que me levou a outras leituras, como o excelente Freud e seus discípulos, de Paul Roazen etc).


Terminei o post abaixo pensando em reler As regras da arte, de Pierre Bourdieu. Ao fazer uma busca na Internet, para saber se o livro ainda está em catálogo, me deparei com a enteevista abaixo, que fiz com Bourdieu em Frankfurt e deve ter sido publicada em O Globo, no final dos anos 90. Uma das melhores coisas da atividade jornalística é a possibilidade de colocar o repórter em contato direto com seus ídolos.

Entrevista com Pierre Bourdieu
Luciano Trigo
(http://www.icb.ufmg.br/lpf/Trigo,Entrevista-com-Pierre-Bourdieu.html)

- O senhor acha que o pensamento francês está em crise?

Pierre Bourdieu - Pode-se dizer que sim, mas essa crise faz parte de uma problemática maior da Europa em geral, que ê a multiplicação dos falsos intelectuais produzidos pelos meios de comunicação. Esses intelectuais "mediáticos" acabam prejudicando - ou ao menos ocultando - o trabalho dos verdadeiros pensadores. Eles tornam mais difíceis o pensamento e a ação pública de quem tem realmente algo interessante a dizer. Eu caracterizo a obra desses autores como fast thinking. Seus livros são exemplos de um pensamento superficial, descartável e cheio de jargões incompreensíveis. Nesse sentido, talvez a pior crise seja a da impossibilidade crescente de estabelecer um canal de comunicação eficiente com o grande público, de forma a transmitir os resultados das pesquisas sociais serias. Mas por que você perguntou isso?

- Nos anos 60 e 70 os intelectuais franceses eram muito mais atuantes...

Bourdieu - Existe efetivamente uma crise de idéias, uma falência da crença em algumas instituições... Os intelectuais de esquerda perderam suas ilusões relativas à idéia da revolução, por exemplo. Hoje é mais difícil lutar contra o poder porque ele se exerce de forma muito mais sutil. Mas é preciso reconhecer que existiam muitos intelectuais que eram falsamente engajados, homens que só com o tempo mostraram sua verdadeira face.

- Poderia citar algum exemplo?

Bourdieu - Bernard-Henri Lévy é o pior deles, aquele que mais compromete o autêntico debate intelectual. O escritor Philippe Sollers também era falsamente revolucionário. Hoje ele é assumidamente um conservador radical e nacionalista. Os nomes que verdadeiramente importam na vida intelectual francesa não aparecem nos jornais e na televisão. Por exemplo, fala-se muito de Jean Baudrillard, mas muito raramente de Georges Dumézil, que é autor de uma obra infinitamente mais importante. Estamos vivendo um momento em que é preciso lutar acirradamente contra esses inimigos do pensamento.

- O senhor acredita no surgimento de uma nova utopia?

Bourdieu - Acredito numa nova utopia desde que ela seja construída em bases mais realistas - o que não tem nada a ver com o trabalho supostamente niilista dos nomes que citei há pouco. Os intelectuais mediáticos fazer i renascer antigas tradições do pensamento para empregá-las de forma distorcida, como acontece com as idéias de Heidegger, que curiosamente construiu uma obra com uma atitude de permanente hostilidade em relação às ciências sociais. Para a construção de uma nova utopia, acredito que se deve buscar os ramos mais pragmáticos da filosofia.

- O que o senhor pensa do conceito de pós-moderno?

Bourdieu – É uma bobagem que não significa nada. Seus defensores controemum grande discurso para justificar o fim dos grandes discursos, das grandes narrativas. É um conceito de uma banalidade extraordinária, da mesma forma que a idéia de que "morte do sujeito" esteve em moda anos atrás. São expressões que não querem dizer rigorosamente nada.

- Como o senhor vê o triunfo planetário do liberalismo e das leis do mercado?

Bourdieu - Esta é uma pergunta muito geral, e o mais importante são as questões específicas. São os intelectuais mediáticos que gostam de falar sobre qualquer assunto, indiscriminadamente. Por exemplo, talvez fosse mais fácil responder a uma pergunta sobre os testes nucleares franceses, um exemplo trágico do reacionarismo do governo, ou sobre os efeitos da ação do FMI nas economias da América Latina. Quanto a isto, existe um problema muito sério, que é o novo imperialismo econômico. No Terceiro Mundo, o fim das utopias socialistas deixou um vazio muito grande, criando uma situação desesperadora é urgente reconstruir as bases da sociedade nesses países, criando condições para a divulgação do conhecimento e surgimento maciço de oportunidades de trabalho.

- Mas a solução desses problemas não depende de uma reformulação de toda a ordem mundial?

Bourdieu - Sim, claro, e temos que trabalhar para isso. Eu participei recentemente de um seminário com representantes da África e da Europa Oriental sobre a nova ordem mundial. Uma das idéias levantadas foi a criação e o fortalecimento de grandes instituições jurídicas multinacionais, que promoveriam uma verdadeira intemacionalização dos direitos. Em outras palavras, o que se propôs foi uma revalorização do conceito de internacionalismo, mas em novas bases, diferentes do internacionalismo comunista é necessário pensar na criação de novos modelos, mesmo que isso pareça muito complicado.

- Desde a morte de Sartre, há 15 anos, não surgiu na França nenhum "maitre-à-penser"...

Bourdieu - São os intelectuais mediáticos e os jornalistas que dizem isso - porque, naturalmente, eles próprios não são "maitres-á-pensar". É preciso levar em conta que o modelo sartriano de intelectual engajado correspondeu a uma etapa diferente da vida cultural francesa e sobretudo a uma etapa diferente da relação entre os intelectuais e os meios de comunicação. Muitas ações políticas de Sartre, ou mesmo de Michel Foucault, foram bem sucedidas porque contaram com um enorme apoio da imprensa. Hoje o espaço máximo que Sartre teria num jornal seria o de um artigo na página de opinião, porque os intelectuais mediáticos exercem uma espécie de monopólio da mídia. Suas obras são sem interesse, mas eles estão sempre dispostos a falar qualquer bobagem sobre qualquer assunto. Aliás, até mesmo Sartre disse muitas besteiras.

- Fale sobre o seu trabalho no Parlamento Internacional dos Escritores.

Bourdieu - Esta entidade existe justamente para tentar mudar esta situação. É uma tentativa de se criar uma Internacional dos Escritores. Mas é um trabalho muito difícil, porque escrever é uma atividade solitária, e por outro lado existem pessoas que querem participar apenas para aparecer. E fundamental combater o narcisismo. Por exemplo, lembro-me que muitos anos atrás Gilles Deleuze, Georges Dumézil, Alain Robbe-Grillet e eu escrevemos um manifesto protestando contra a situação na Polônia, mas decidimos que o texto não seria lido por nenhum de nós, mas por um ator. Hoje, uma das principais atividades do Parlamento é proteger escritores que são perseguidos politicamente.

- O senhor escreveu ensaios profundos sobre a educação nos anos 70, com "A Reprodução", A situação piorou ou melhorou desde então?

Bourdieu - Piorou muito, porque o governo francês não deu nenhuma atenção ao que eu escrevi na época, e já estamos sofrendo as conseqüências disso.

- Em livros como "A economia das trocas simbólicas" o Senhor faz análises penetrantes das transformações da vida cotidiana. Na esfera privada, o senhor acredita que hoje as pessoas são mais conservadoras do que 20 anos atrás?

Bourdieu – É outra pergunta muito geral e sou obrigado a responder: eu não sei. Os intelectuais precisam ter a coragem de dizer "eu não sei", sobretudo diante de perguntas muito gerais, que não levam a nada. Para encerrar esse assunto, faço constar um episódio que me aconteceu. Um dia, Fernand Braudel procurou-me perguntando se eu gostaria de ajudá-lo a escrever um volume sobre o século XX, com o qual concluiria uma gigantesca pesquisa histórica. Pediu-me que dividisse minha reflexão em temas muito gerais, como o fim da religião, o renascimento do individualismo, etc. Então eu impus uma condição. Aceitaria fazer parte do projeto desde que pudesse escrever que eu não sabia todas as respostas. Apresentaria as grandes questões, mas as deixaria em aberto quando não soubesse como interpretá-las de forma satisfatória.

- Ele concordou?

Bourdieu - Sim, mas pouco tempo depois Fernand Braudel morreu, e o trabalho acabou não sendo feito.

- Acabou de ser lançado no Brasil seu livro "Livre troca : diálogos entre ciência e arte" e em breve será lançado "As regras da arte" sobre a obra de Baudelaire. Como o senhor caracteriza a sua abordagem sociológica da arte?

Bourdieu - Minha preocupação principal em meus ensaios sobre á arte é analisar o que legitima social e culturalmente o gasto artístico de uma determinada época, ou seja, como a dominação econômica e social de uma classe também se manifesta culturalmente. As classes dominantes obtém, através de gostos de violência simbólica, a adesão das classes dominadas aos seus próprios critérios estéticos. Procuro também contextualizar historicamente a produção artística, fugindo dos clichês da inspiração e da genialidade. Não quero dizer com isso que um artista não dispõe de nenhum grau de autonomia. Baudelaire, por exemplo, subverteu completamente a tradição da literatura de sua época, e em As regras da arte eu tento explicar como isso foi possível.

Wednesday, November 14, 2007

Da série 'Será arte?'




Escrevi, alguns posts atrás, que a característica mais aflitiva de boa parcela da arte contemporânea é ser inofensiva, anódina, fechada em si mesma, presa a modelos que fizeram sentido 50 anos atrás. Mas também existe uma vertente, bastante em voga, que procura se afirmar, justamente, ofendendo crenças religiosas e valores coletivos.

A primeira peça reproduzida acima, intitulada "Orientais barbudos criando o império da cruz", de autoria da australiana Priscilla Bracks, funde as imagens de Bin Laden e Jesus Cristo.

A segunda, intitulada "O Quarto Segredo de Fátima", é de Luke Sullivan, também australiano: é uma estátua que mostra a Virgem Maria de burka.

As duas provocaram consternação e protestos em seu país, o que, desnecessário dizer, atraiu a atenção da mídia e deu projeção internacional aos artistas.

No Rio, no ano passado, um "pênis-crucifixo", da artista plástica Márcia X., causou tantos protestos que obrigou a direção do Centro Cultural Banco do Brasil a retirar a peça da exposição Erótica - Os sentidos da arte. O que, por sua vez, gerou protestos dos artistas contra a censura.

No último caso, vale observar o seguinte: a peça foi retirada em função de milhares de correntistas do Banco do Brasil (entre os quais dezenas de empresas poderosas) terem pressionado o banco - que, afinal de contas, custeou a exposição com dinheiro dos correntistas. Essa forma de pressão foi muito mais eloqüente que o barulho feito por vinte ou trinta artistas na porta do CCBB. Isto não é uma opinião, é um fato. Mas será que os artistas que protestaram contra a censura recusariam, no dia seguinte ao protesto, um patrocínio do banco? Acho que não. Mas isto não é um fato, é uma opinião.

Não estou tomando partido, apenas levantando questões. Pessoalmente, acho as três obras citadas infantis. Um adolescente revoltado poderia muito bem ter produzido a primeira, com auxílio de um programa banal de manipulação de imagens, ou ter dado vazão às suas fantasias eróticas, desenhando um pênis com o terço da mãe ou da tia, na intimidade de seu quarto. O que implica dizer o seguinte: o que dá status de arte a essas peças é exterior a elas, é o fato de serem referendadas por um sistema que segue regras de mercado, incluindo a lógica do marketing e a própria participação da mídia.

Outro exemplo, que mostra como as fronteiras são tênues e confusas:



A peça acima não está em qualquer museu ou galeria: é a foto de uma sobremesa servida num restaurante de Taiwan: sorvete em forma de fezes, com a cor e o formato característicos. Viesse assinada por um nome famoso, seria facilmente vendida como arte. Vou mais longe: seria, efetivamente, arte, pelos padrões vigentes. Não por ofender o bom gosto e o estômago, é claro, embora esta pudesse ser a justificativa do artista rebelde, mas simplesmente por ter recebido o aval do sistema.

Rendendo-se a esse sistema, o artista pode pagar um preço alto demais: ao se desligar do diálogo com aquilo que o determina, social e culturalmente, o indivíduo criador abre mão também de qualquer relevância que não seja mercadológica.

Pasolini e a vida supérflua






Fiquei com a expressão "a terra vista da lua" na cabeça [ver post abaixo], até que me lembrei: é o título de um curta-metragem de Pier Paolo Pasolini, na verdade um episódio do filme As bruxas, de 1966. No elenco, Totó e Silvana Mangano. Música de Enio Morricone. Se estes nomes não dizem nada a você, o mundo está mesmo perdido.

Após a morte da mulher, o personagem de Totó parte com seu flho em busca de uma nova esposa. Após várias tentativas desastradas, eles encontram uma bela surda-muda - a mulher ideal. Numa tentativa fracassada de dar um golpe em turistas (ela ameaça se jogar do alto do Coliseu, enquanto eles pedem dinheiro para ajudá-la), a mulher escorrega, cai e morre. De volta ao lar, pai e filho percebem que, mesmo como fantasma, ela desempenha todas as suas funções. “É a felicidade, é a felicidade”, gritam.

Uma fábula filosófica, na qual se combinam o cômico e o grotesco, o delicado e o cruel, e de moral incerta. Lá pelas tantas se afirma: "Tanto faz estar vivo ou morto". O que, de um ponto de vista cósmico, não deixa de ser verdade.

Pasolini morreu aos 53 anos, em 1975, assassinado por um michê - provavelmente a mando dos setores da extrema-direita italiana. Mas a crítica radical que ele fez à sociedade de seu tempo desafia os rótulos de direita e esquerda. "Os bens supérfluos tornam a vida supérflua", afirmou, muito antes de o consumo se tornar o eixo da vida contemporânea.

Mais que um cineasta, Pasolini foi um intelectual integral e, sobretudo, independente. Durante a revolta estudantil de 1968, ao observar os confrontos entre estudantes e policiais nos jardins da Villa Borghese, em Roma, tomou o partido dos policiais, filhos de camponeses, contra os estudantes, filhos privilegiados da burguesia. Não teve medo de ser chamado de reacionário pela esquerda.

Qual democracia?







Artigo de Merval Pereira publicado em O GLOBO, na terça:

É possível ver-se no bate-boca entre o rei da Espanha e o protoditador venezuelano, Hugo Chávez, um mero reflexo do colonialismo espanhol na América Latina, e, com um pouco mais de esforço, trazer esse colonialismo para o presente, vendo na atuação das empresas espanholas na região, em áreas tão estratégicas quanto telecomunicações e infra-estrutura, uma reprodução da antiga dominação colonialista. E é nessa visão simplista, que coloca Chávez como vítima, e ao mesmo tempo como aquele que reage à opressão monárquica, que é possível se separar o tipo de política que distingue os vários governantes da América Latina atual.

Foi Fidel Castro, o ditador cubano, que, ao socorrer seu "companheiro" Hugo Chávez, deu a chave para a compreensão mais fácil do que se passa. Ele dividiu os governantes de esquerda da região em "revolucionários" e "tradicionais". A esquerda "tradicional", que seria representada por políticos como Lula ou Michelle Bachelet, do Chile, ou Tabaré Vázquez, do Uruguai, já não responderia às necessidades dos povos latino-americanos, que teriam nos "revolucionários" Chávez, da Venezuela; Evo Morales, da Bolívia; Rafael Correa, do Equador, ou Daniel Ortega, da Nicarágua, os governantes que refletiriam as reais aspirações das populações latino-americanas.

A esquerda "tradicional" teria mais afinidades com a social-democracia européia, que não por acaso reagiu às críticas de Chávez na cúpula ibero-americana na pessoa do primeiro-ministro Zapatero, cujo partido, o PSOE, emitiu nota oficial apoiando a posição do rei da Espanha, Juan Carlos.

Não por acaso, aos "revolucionários" já não basta a democracia representativa, e todos estão envolvidos, de uma maneira ou outra, em ações para ampliar seus poderes, transformando a democracia em uma formalidade apenas.

Por outro lado, os da esquerda "tradicional" estão empenhados em não apenas fortalecer o sistema democrático como em promover a inserção de seus países no mundo globalizado, ampliando as possibilidades de progresso econômico, sem descuidar da distribuição de rendas. O populista latino-americano já foi definido como o governante que gasta mais do que pode em ações demagógicas, mas hoje, com a prevalência da tese do equilíbrio fiscal, essa definição saiu de moda.

Hoje, populistas são aqueles governantes que, como Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, e Lula da campanha de reeleição e do segundo mandato, têm uma ligação direta com o eleitorado, acima dos partidos políticos.

Mas essa é uma ligação tênue entre esses governantes. Segundo o professor Nelson Franco Jobim, especialista em política internacional, as revoluções tecnológicas é que movem a História, relembrando Marshall McLuhan. "A luta de classes não faz sentido num mundo de informação instantânea, em que nerds podem ficar bilionários criando do nada empresas de informática". O desafio é incorporar as massas ao processo produtivo e ao consumo para criar base social forte e estável, ressalta ele, destacando "um viés antiamericano, marxista e retrógrado" das políticas das chamadas esquerdas "revolucionárias".

Já a consultora internacional Izabela Pereira, da Inter Patris Consultoria, faz uma divisão política dos países para além da confrontação esquerda e direita: o populismo (Venezuela, Bolívia e Equador), a social democracia (Chile, Uruguai e Peru) e modelos híbridos de governança (Argentina, Brasil, Colômbia e Paraguai).

Segundo ela, apesar da constatação de que a democracia não tem satisfeito as necessidades das populações, não há uma negação de seu valor. A "desilusão democrática" leva a essa situação atual, em que a saída seria o fortalecimento do sistema democrático, e não sua supressão.

O professor Nelson Franco Jobim reforça a tese dizendo que "o grande desafio da América Latina é fazer a democracia liberal funcionar, antes de tentar fazer experiências que ameaçam trazer de volta o passado caudilhista e o confrontacionismo tão a gosto de uma esquerda atrasada que ainda acredita em luta de classes e luta armada".

Essa divisão entre as tendências de esquerda na América Latina tem outra catalogação, mais irônica. O venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales seriam os expoentes de uma esquerda "carnívora", ainda presa à mentalidade da Guerra Fria. Outra esquerda, "vegetariana", governa o Chile e o Brasil.

É a nova tese de Álvaro Vargas Llosa, Plinio Apuleyo Mendoza e Carlos Alberto Montaner em "A volta do idiota", da Odisséia Editorial, os mesmos autores do polêmico best-seller "Manual do perfeito idiota latino-americano", lançado em 1996.

O livro criticava líderes políticos e formadores de opinião que seriam responsáveis pelo subdesenvolvimento da América Latina. Crenças tais como "revolução", "nacionalismo econômico", "ódio aos Estados Unidos", "fé no governo como agente da justiça social", refletiam apenas um "complexo de inferioridade", segundo os autores.

Eles agora "denunciam" que essas idéias ressurgiram com força na América Latina. Sejam "carnívoras" ou "vegetarianos"; "revolucionários" ou "tradicionais", o fato é que a esquerda da América Latina está dividida em termos de procedimentos e atitudes diante da democracia.

Onde antes atuava o "ouro de Moscou", atuam agora os petrodólares de Hugo Chávez, fazendo com que seu peso político seja desproporcional ao peso geopolítico da Venezuela.

Dependeria da atuação mais clara do Brasil, nos próximos anos, que essa balança pendesse para o lado da esquerda "tradicional", e a favor da democracia representativa, sem dubiedades.

A Terra vista da Lua


Imagem obtida pela sonda Selene mostra a Terra próxima ao horizonte lunar. De longe nossos problemas parecem menores.

Monday, November 12, 2007

Um primário golpe de marketing


Da coluna de Carlos Chagas na Tribuna da Imprensa:


BRASÍLIA - Basta recorrer às coleções de jornais: em junho de 2006 a Petrobras anunciou a descoberta do megacampo de petróleo e gás na bacia de Santos. Por que, agora, esse festival explícito de euforia e patriotismo na repetição da notícia, com direito até ao dividendo suplementar de elevar a ministra Dilma Rousseff a pré-candidata à sucessão de 2010?

Elementar. O anúncio deveu-se a minimizar os efeitos do racionamento de gás já promovido pela Petrobras, com o conseqüente aumento no preço do produto, e mais, para esconder a humilhação a que nos submetemos aceitando a imposição de Evo Morales por maiores investimentos na Bolívia. Em 48 horas o governo apresentou seu antídoto na forma de um golpe primário de marketing. A mídia abriu os braços e as primeiras páginas para a informação requentada mas plena de perspectivas de maior faturamento.

No Congresso, as bancadas da situação entoaram evoés e alvíssaras ao fato de que dentro de dez anos poderemos pleitear ingresso na Opep. Saíram das manchetes a prorrogação da CPMF e a açodada equação do terceiro mandato. Poderá a operação servir para abafar os protestos dos taxistas deixados à míngua de gás ou enfumaçar os reclamos das indústrias obrigadas a pagar mais pelo combustível?

Prestar-se-á, mesmo, para iludir o cidadão comum de que não nos deparamos com uma crise energética? Talvez o golpe ajude a calar a voz de quantos se insurgem contra o esbulho que sofremos do governo boliviano. Além, é claro, de haver proporcionado aos especuladores um inesperado lucro de 14% nas ações da Petrobras.

Convenhamos, tudo por conta de primária jogada de marketing, cujos artífices, fica evidente, credenciam-se para criar novas ilusões, quando chegar a temporada sucessória. O país do faz-de-conta sobrepõe-se ao país real, mas como os tempos são de festejar, que pelo menos proíbam aumentos imediatos no preço da cerveja...

Sunday, November 11, 2007

'Por qué no te callas?"



Numa atitude sem precedentes, durante a cerimônia de encerramento da Cúpula Ibero-americana, ontem, no Chile, o Rei Juan Carlos, da Espanha, mandou Hugo Chávez calar a boca. José Luís Zapatero, que aliás é de esquerda, pedia a Chávez respeito, após o Presidente venezuelano ter chamado José María Aznar de fascista, mas Chávez insistia em bater boca, quando se deu a intervenção do Rei.

Sobre Chávez e a volta do populismo à América Latina, recomendo a leitura de A volta do idiota, que chega às livrarias no dia 19 (mas já está em pré-venda no site www.saraiva.com.br, com preço promocional). Sobre o episódio em si, duas observações:

1. Quem fala o que quer ouve o que não quer. Não é a primeira vez que Chávez busca roubar a cena com ataques de estrelismo em encontros de cúpula. Depois dessa descompostura, talvez ele passe a pensar duas vezes antes de falar. Ou não.

2. Aznar foi chamado de fascista por ter demonstrado preocupação com os investimentos espanhóis na Venezuela e na Bolívia, em função da insegurança jurídica crescente nesses países. Ora, após o lamentável episódio envolvendo a Petrobras e o Presidente boliviano Evo Morales, nenhnum brasileiro pode, de boa fé, negar que a preocupação de Aznar é justificada.

Saturday, November 10, 2007

Isto não é um debate


A obra acima, One and Three Chairs, do artista plástico americano Joseph Kosuth, é emblemática do movimento chamado Arte Conceitual. Ela consiste de uma cadeira, da fotografia da mesma cadeira e da ampliação fotográfica da definição do dicionário de uma cadeira. O artista propunha à audiência a questão: em qual das três está a verdadeira identidade da cadeira: na coisa em si, na representação ou na descrição verbal?

Acho a obra fascinante, sem ironia. O problema é que, como os ready-made de Marcel Duchamp dos quais é herdeira, a Arte Conceitual é datada. Parte de seu sentido e valor não pode ser dissociada do ano (no caso de Kosuth, 1965) e do contexto de sua produção. Ficar repetindo esse tipo de proposta hoje é tão anacrônico quanto imitar a pintura acadêmica pré-impressionista.

Duchamp se interessava mais pela idéia do objeto artístico que pela sua execução e pelo produto final. Essa "arte como idéia", anti-formalista, abriu caminhos inteiramente novos (nas primeiras décadas do século passado) para a experimentação. Mal comparando, teve um impacto, nas artes plásticas, semelhante ao que a obra de James Joyce (não por acaso sua contemporânea) teve na literatura. Também gerou, é verdade, muita empulhação.

A Arte Conceitual estabeleceu as seguintes premissas: 1) a arte se realiza numa ideia básica, sem assumir necessariamente uma forma material; 2) a matéria-prima da arte é a linguagem, e não há separação entre a arte e a teoria da arte; 3) a atividade artística consiste na investigação sobre a natureza da própria arte; 4) existe um paralelismo entre a arte e a linguagem, ou melhor, a arte é uma forma de linguagem. Tudo muito interessante. Na época.

Sintomaticamente, Kosuth produziu uma importante obra ensaística sobre teoria da arte e sobre o papel do artista na sociedade. Levou adiante um debate necessário sobre a relação entre a estética e a representação, radicalizando questões de linguagem propostas por Duchamp e, mais tarde, por René Magritte, que com seu famoso "Ceci n'est pas une pipe" (1928) introduziu um paradoxo lingüístico essencial à Arte Conceitual.



Ora, o percurso que começa em Duchamp, passa por Magritte e atinge sua realização radical na Arte Conceitual dos anos 60 e 70 é um dos capítulos mais fascinantes da arte do século 20. Mas é apenas um capítulo, que já foi escrito e virou História. Suas propostas deixaram de ser vanguarda há muito tempo. Insistir nelas hoje é irrelevante. Mais uma vez, mal comparando, seria como se prevalecesse entre os escritores de hoje o compromisso com a experimentação lingüística de Joyce - que, com seus herdeiros, também constituiu um capítulo fascinante da literatura do século 20, mas que não esgota, de forma alguma, essa literatura. Graças a Deus isso não aconteceu, e a literatura seguiu caminhos plurais.

Escrevo tudo isso porque meus posts anteriores sobre arte foram mal compreendidos. Reações por parte de artistas conhecidos meus foram do desdém complacente à vituperação indignada e ao julgamento sumário. Com arrogância e corporativismo autoritário, perguntaram se eu já tinha lido isso e aquilo, e respondi que sim; perguntaram se eu conhecia a trajetória dos artistas que citei, e respondi que sim. Tentar desqualificar o interlocutor é o recurso mais pobre num debate - aliás é o que fazem o tempo inteiro com Gullar e Affonso Romano. Como Bertrand Russel, eu não daria a vida pelas minhas idéias, porque posso estar enganado. Mas só vou mudá-las se for racionalmente convencido a isso, e não na base do grito e da grosseria.

Norman Mailer está morto



Mais um que se vai. Aos poucos, vão desaparecendo todos os remanescentes relevantes da cultura do século 20. Daqui a pouco, nossos únicos laços com o mundo que eles ajudaram a moldar serão os dos arquivos e os da memória.

Norman Mailer foi dos dos precursores do jornalismo literário, também chamado de "New Journalism", ou "creative nonfiction", isto é, a adoção de técnicas da ficção em reportagens. Truman Capote, Tom Wolfe e Gay Talese, entre outros, foram seus parceiros nesse projeto, mas Mailer foi o mais radical, o mais ousado. Ele não se limitou a trazer ingredientes de romance para seus textos jornalísticos: viveu ele próprio situações reais que parecem tiradas de romance, abusando de álcool, mulheres e drogas, não necessariamente nessa ordem.

Por exemplo, Mailer foi preso por esfaquear a segunda de suas seis mulheres, num episódio até hoje nebuloso; deu uma cabeçada em Gore Vidal no meio de um debate televisivo (Vidal retrucou com espírito: "Once more, words fail Norman"; saiu no tapa com um marinheiro que pusera em questão a sexualidade de seu cachorro; dedicou-se seriamente ao boxe; apoiou o movimento negro mas combateu as feministas; candidatou-se em 1969 à Prefeitura de Nova York; foi um crítico feroz das Guerras do Vietnã e do Iraque etc. Politicamente, definia-se como um "conservador de esquerda".

Também como romancista, Mailer se engajou na exposição dos ingredientes mais sórdidos da sociedade americana, que retratou como um caldeirão amoral de violência, sexo e ambições irrefreadas. Os nus e os mortos, Um sonho americano e O Evangelho segundo o filho, na ficção, e seus ensaios biográficos sobre Marilyn Monroe e Pablo Picasso são excelentes cartões de visita para sua obra. Suas coberturas jornalísticas de diversas convenções nacionais dos partidos Democrata e Republicano, como Os degraus do Pentágono, ficaram um pouco datadas, mas também são de leitura saborosa. Seu último livro, The Castle in the Forest, enfoca a infância e a adolescência de Hitler.

Mailer pensava que não ia passar dos 40 anos. Morreu hoje, aos 84. Já tinha largado a maioria de seus vícios, menos um: a insubordinação.

Friday, November 09, 2007

Paulinho da Viola canta Wilson Batista



Meu mundo é hoje
(Wilson Batista)

Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.
Meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
Eu sou assim, assim morrerei um dia.
Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia.
Tenho pena daqueles que se agaixam até o chão
Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte desse enorme batalhão,
Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão.
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.

A volta do idiota






Autores do Manual do perfeito idiota latino-americano lançam livro em que criticam a volta do populismo de esquerda na América Latina

DIA 19 NAS LIVRARIAS!
JÁ ESTÁ EM PRÉ-VENDA NO SITE www.saraiva.com.br

Ao longo de todo o século XX, os líderes populistas da América Latina levantaram bandeiras marxistas, praguejaram contra o imperialismo e prometeram tirar seus povos da pobreza. Sem exceção, todas essas políticas e ideologias fracassaram, o que levou ao recuo dos homens fortes e das ilusórias utopias da esquerda. Agora, uma nova geração de revolucionários tenta ressuscitar os métodos ineficazes de seus antecessores. O venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales são os expoentes desta nova esquerda "carnívora", ainda presa à mentalidade da Guerra Fria. Outra esquerda, vegetariana, que governa no Chile e no Brasil, tenta evitar os erros do passado. Mas o fato é que idiota latino-americano está de volta.

É o que afirmam Álvaro Vargas Llosa, Plinio Apuleyo Mendoza e Carlos Alberto Montaner em A volta do idiota (Odisséia Editorial, 240 pgs. R$34,90). São os mesmos autores do polêmico best-seller Manual do perfeito idiota latino-americano, lançado em 1996. Aquele livro criticava os líderes políticos e formadores de opinião que, apesar de todas as provas em contrário, se apegavam a mitos políticos ultrapassados. A espécie dos "idiotas", dizíam então, era responsável pelo subdesenvolvimento da América Latina. Tais crenças – revolução, nacionalismo econômico, ódio aos Estados Unidos, fé no governo como agente da justiça social, paixão pelo regime do homem forte em lugar da lei – tinham origem, na opinião dos autores, num complexo de inferioridade.

As idéias nacionalistas e populistas ressurgiram com força na América Latina. É o que denuncia A volta do idiota, ao analisar os regimes de Hugo Chávez, Evo Morales e Néstor Kirchner, representantes da "esquerda carnívora". Mas o livro aponta também os equívocos cometidos e os riscos representados pela "esquerda vegetariana" que assumiu o poder no Brasil, no Uruguai e no Peru, muitas vezes com o apoio de intelectuais e políticos europeus e mesmo norte-americanos. Em contrapartida, os autores apresentam experiências bem-sucedidas de países que optaram por estratégias liberais de crescimento, como o Chile.

A leitura deste livro é uma vacina contra a idiotice!

Os idiotas latino-americanos tradicionalmente se identificam com os caudilhos, figuras autoritárias quase sobrenaturais que têm dominado a política da região, vociferando contra a influência estrangeira e as instituições republicanas. Por outro lado, a visão de mundo do Idiota, vez por outra, encontra eco entre intelectuais ilustres na Europa e nos Estados Unidos. Esses pontificadores aliviam o peso na consciência apoiando causas exóticas em países em desenvolvimento. Suas opiniões atraem fãs entre os jovens do Primeiro Mundo, para os quais a fobia da globalização oferece a perfeita oportunidade de encontrar satisfação espiritual na lamenta鈬o populista do Idiota latino-americano contra o perverso Ocidente.

Os autores de A volta do idiota demonstram que esses observadores estrangeiros estão deixando de compreender um ponto essencial: o populismo latino-americano nada tem a ver com justiça social. Populistas têm características básicas comuns: o voluntarismo do caudilho como um substituto da lei, a denúncia do imperialismo (com o inimigo sempre sendo os Estados Unidos), a projeção da luta de classes entre os ricos e os pobres para o terreno das relações internacionais, a idolatria do Estado como uma força redentora dos pobres, o autoritarismo sob a aparência de segurança e o clientelismo. O legado dessas políticas é claro: quase metade da população da América Latina vive na pobreza.

Tuesday, November 06, 2007

Um urinol faz 90 anos










Affonso Romano de Sant'Anna acaba de me enviar, gentilmente, o texto que transcrevo a seguir, publicado originalmente nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, no dia 7 de outubro:

Você sabia que o urinol que Marcel Duchamp mandou para o Salão dos Independentes, em Nova York(1917), está completando 70 anos e foi eleito a obra mais importante que tudo o que se produziu em artes plásticas no século XX?

Você sabia que, na verdade, o urinol de parede, que Duchamp intitulou de “Fonte” e assinou como sendo de R. Mutt, produzido pela J. L. Motta Iron Works Company, nem chegou a ser exibido naquele salão, porque foi censurado e a peça original, relegada, desapareceu.

Você sabia que a obra considerada fundadora da contemporaneidade, portanto, não existiu, foi uma simples idéia e que permaneceu “in absentia” até os anos 1940, quando Duchamp começou a fazer réplicas dela para vários museus, e que, em 1990, a Tate Galery pagou um milhão de libras por uma dessas cópias?

Você sabia que a polêmica fomentada na ocasião pelos jornais de Nova York foi organizada pelo próprio Duchamp, sua amante Beatrice Wood e pelo seu marchand Arensberger?

Você sabia que embora Duchamp dissesse que o urinol era apenas um urinol, um objeto deslocado de suas funções, alguns críticos, como George Dickie, começaram a ver nessa porcelana as mesmas virtudes plásticas das obras de Brancusi?

Você sabia que outros críticos, -já que o urinol havia desaparecido, começaram a ver na fotografia do mesmo feita por Stieglitz uma referência à deusa Vênus, que surgiu das águas?

Você sabia que outros críticos considerando bem a fotografia do urinol concluíram que ali estava projetada a efígie de Nossa Senhora?

Você sabia que a mulher do músico de vanguarda Eduardo Varese sustentava que o urinol era a reprudução da imagem de Buda?

Você sabia que Duchamp, embora dissesse que o artista não deve se repetir, mandou fazer várias réplicas desse urinol para vender para museus, e confeccionou uma caixa portátil com miniaturas de suas obras para vender também para museus e colecionadores?

Você sabia que o homem que dizia que a pintura estava morta era marchand e vendia quadros e esculturas de seu colegas?

Você sabia que em 1993, numa exposição em Nîmes, o artista francês Pierre Pinnocelli se aproximou de um dos urinóis de Duchamp e decidiu se “apropriar” da obra, primeiro urinando nela e dizendo que o fato de ter urinado nela a obra de Duchamp agora lhe pertencia?

Você sabia que depois de ter urinado no urinol, Pinnocelli, pegou um martelo e quebrou a obra de Duchamp com o argumento de que agora a obra era dele, ele havia se “apropriado” conceitualmente dela.

Você sabia que ele foi processado pelo estado francês que lhe exigiu uma hipoteca de 300.000 francos e que a questão deixou de ser estética para ser policial e até o Ministro da Justiça e da Cultura na França tiveram que opinar?

Você sabia que o mesmo Pinnocelli em 2005, obcecado pelo urinol, insistindo que o urinol é de quem “intervém” nele, atacou a marteladas a cópia dessa obra no Beaubourg, em Paris, o que provocou novos problemas com a polícia?

Você sabia que esse urinol comprado originalmente em loja de ferragens, com a assinatura de Duchamp vale hoje US$3.6 milhões?

Você sabia que Sherry Levine mandou fazer uma réplica de bronze dourado do urinol entronizando de vez a obra como uma espécie de Mona Lisa de nossa época?

Você sabia que Duchamp dizia que o nome “Mutt” que botou no urinol, como sendo o do pretenso autor( que era ele mesmo) era uma homenagem aos personagens em quadrinho- Mutt e Jeff?

Você sabia que mesmo assim Jean Clair- considerado o maior critico francês da atualidade-, prefere entender que “Mutt” remete para uma gíria em inglês significando “imbecil” e que o pseudônimo “R. Mutt” lembra “armut, que em alemão significa “indigência”, “penúria”?

Você sabia que Calvin Tomkins-o biógrafo de Duchamp acha que aquele urinol é a imagem que Duchamp tinha da mulher como receptáculo do líquido masculino, em consonância com os futuristas italianos que diziam que a mulher era um “urinol de carne”?

Monday, November 05, 2007

Um cachorro, uma orelha...








De longe, Será arte? é, até agora, o post que despertou mais reações, tanto entusiasmadas quanto indignadas. Minha intenção não era polemizar, mas, justamente, mostrar que o debate sobre a arte contemporânea no Brasil se transformou num diálogo de surdos. Levantei algumas hipóteses, sem em momento algum condenar, em bloco, a produção artística atual.

As duas instalações citadas (as maçãs e o quebra-molas de paçoca) pecam não pela controvérsia gratuita, ao contrário: pecam por serem obras inofensivas, fechadas em si mesmas, que não se articulam com nenhum processo exterior a elas próprias. As artistas têm obrigação de vincular suas obras à realidade? Não. Mas quando instalações desse tido se tornam a tendência dominante da arte, isto causa uma impressão de esgotamento e alienação. Nesta altura, aliás, as sete mil maçãs já devem ter apodrecido na galeria. E daí?

Todos os movimentos de vanguarda do século 20 que resistiram à prova do tempo - e foram vários - devem boa parte de seu êxito ao fato de terem mobizado a sociedade em debates produtivos, porque estavam associados a transformações sociais, culturais, psicológicas e tecnológicas que tinham um impacto direto na vida das pessoas. Basta pensar na relação do futurismo com a guerra e com velocidade trazida pela máquina ao cotidiano das pessoas para constatar que o novo não era uma manifestação espontânea e gratuita de gênios individuais. Mesmo o surrealismo, com seu projeto de libertar a criação de qualquer controle racional, só foi possível num contexto de consolidação da idéia de inconsciente concebida por Freud; além disso, numa segunda etapa, o surrealismo foi associado por André Breton a um projeto político de esquerda, o que é uma contradição em termos, mas confirma o papel do contexto histórico na arte de cada época.

Quando Marcel Duchamp expôs um urinol ou desenhou um bigode na Monalisa, fez um gesto revolucionário, que rompia com as convenções e abria possibilidades infinitas para a arte. Mas, como todos os gestos fundadores, é irrepetível, porque o contexto já passou: desenhar um bigode na Monalisa hoje seria apenas ridículo. Abolidos os cânones, qualquer adolescente é capaz de transgressões parecidas.

O problema é que as fronteiras entre a criação artística e a empulhação pura e simples se tornam muito tênues em alguns momentos. A falência da crítica como fator relevante apenas agrava esse quadro, já que quem legitima o artista hoje não é mais o reconhecimento crítico, mas o sucesso em si: se faz sucesso, é bom. Nada mais capitalista. Mas talvez seja mesmo este o destino de todas as artes (a literatura, a música etc), isto é, enquadrar-se numa lógica de mercado ou morrer.

Mais grave que a repetição anódina de fórmulas que fizeram sentido na primeira metade do século passado é o esforço, igualmente ultrapassado, de épater a qualquer custo. Como é cada vez mais difícil chocar as pessoas, alguns artistas "perdem o senso de noção", numa tentativa desesperada de ganhar projeção num mercado (pois é) cada vez mais competitivo. Diversos leitores me enviaram mensagens com referências a duas obras recentes, bastante representativas:

1) Numa exposição em Manágua, em agosto passado, o artista plástico costa-riquenho Guillermo Vargas Habacuc amarrou um cachorro num canto da galeria e o deixou lá sem comida, até morrer de fome, diante dos olhos perplexos dos visitantes. Habacuc se justificou: "O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome. Este cachorro está mais vivo do que nunca, porque continua dando o que falar".

2) Em outubro, o artista plástico cipriota Stelarc convocou a imprensa para mostrar sua obra mais recente: ele implantou uma orelha no próprio braço. Stelarc utiliza o próprio corpo como plataforma para os seus trabalhos, que envolvem instrumentos médicos, próteses, biotecnologia, elementos de robótica e sistemas de realidade virtual. Não satisfeito, ele anunciou que quer implantar um microfone próximo à orelha, para captar o que estiver sendo "escutado".

Será arte?

P.S.
Recebi mensagens dos dois críticos citados no post Será arte?, que transcrevo a seguir:

Ferreira Gullar:
"Luciano Trigo, você está equivocado. Não estou insatisfeito. Estou feliz da vida. Gullar"

Affonso Romano de Sant'Anna:
"É isso aí. Estou terminando um livro, mais profundo e ambicioso, examinando detidamente os conceitos e a linguagem usada pela arte conceitual. A tese é simples:
arte conceitual é forçosamente algo de minha área: teoria do discurso, filosofia, literatura. Mosto as incongruências das análises dos 'grandes', tipo Octavio Paz, Derrida, Barthes, Jean Clair etc. e enfrento Duchamp onde nunca se lembraram de enfrentar: ao nível da linguagem e da filosofia. Chega de falar generalidades e falar o óbvio, é preciso de análises mais pertinentes. Abraço, ars"

Isabelle Adjani em 'Possessão'



Numa Berlim quase deserta, Mark vive um relacionamento atormentado com sua esposa Anna. Desconfiado de traição, resolve seguir seus passos, mas tem um surpresa: num apartamento abandonado, Anna vive um bizarro relacionamento sexual com uma criatura.

Não, Possessão não é um filme de terror. Dirigido por Andrzej Zulawski em 1981 (quando Adjani tinha 26 anos), trata-se de uma investigação radical sobre o casamento, a infidelidade, o conflito entre o desejo e a convenção social. Um filme para adultos.

Saturday, November 03, 2007

O estrangeiro



- De quem gostas mais, homem enigmático, diz? Teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Você se serve de uma palavra cujo sentido até hoje desconheço.
- Tua pátria?
- Ignoro em que latitude ela está situada.
- A beleza?
- Eu a amaria de boa vontade, deusa e imortal.
- O ouro?
- Odeio-o tanto quanto você odeia Deus.
- Eita! Então o que te agrada, estrangeiro singular?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... Lá... Lá... As maravilhosas nuvens!

- Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
-Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!


(Charles Baudelaire, Pequenos poemas em prosa, 1869)