Saturday, October 13, 2007

Etimologia das paixões


Os segredos por trás da língua

Nas livrarias:
Etimologia das paixões
de Ivonne Bordelois.
Tradução de Luciano Trigo
Odisséia Editorial, 176p., R$29,90

Ivonne Bordelois desvenda a história secreta das palavras que nomeiam as nossas paixões

O que palavras como amor, ira, inveja, cobiça e esperança têm a nos dizer? Por trás de seus sentidos aparentes — e dos significados cristalizados nos dicionários — as palavras têm uma vida secreta e uma história oculta. No caso daquelas que nomeiam as paixões, investigar o seu passado pode levar a descobertas reveladoras, arrancando de um esquecimento imemorial verdades surpreendentes sobre o ser humano e suas paixões. É este o empreendimento da lingüista e poeta argentina Ivonne Bordelois em Etimologia das paixões. Numa abordagem original e ousada, ela interroga a própria linguagem, enveredando pelas suas raízes mais remotas, mas sem jamais perder de vista a clareza e a leveza do texto.

A etimologia, nesse sentido, pode ser entendida como uma arqueologia da sabedoria coletiva submersa na língua, uma exploração destinada a encontrar tesouros escondidos em ruínas. Ivonne Bordelois consegue conciliar a ciência dos dicionários e a erudição dos estudos etimológicos numa reflexão clara e envolvente, proporcionando ao leitor uma viagem pelos labirintos da linguagem percurso enriquecido pela remissão a filósofos como Platão, Nietzsche e Espinosa. A autora acredita que a busca da origem de determinadas palavras — aquelas que exprimem idéias ou sentimentos fundamentais, que muitas vezes nascem de sensações primitivas ou mesmo corporais — pode levar à superação de bloqueios individuais e sociais e ao entendimento da nossa relação, como indivíduos e comunidades falantes, com o nosso passado histórico e com as vicissitudes da nossa própria experiência pessoal.

A linguagem se torna assim um espelho de nós mesmos e de nossa sociedade: recuperando significados reprimidos pela cultura ou pela ciência ou apontando desvios inusitados no percurso das palavras, Ivonne Bordelois passeia por múltiplos saberes — a lingüística, a filosofia, a psicanálise, a mitologia — iluminando e enriquecendo a nossa compreensão do mundo, de nossos valores e paixões. Ela mostra, por exemplo, como a ira e o delírio já foram paixões positivas, associadas aos deuses, antes de ser consideradas algo de ruim, e como a esperança, em contrapartida, surgiu como uma paixão negativa. Mostra como a associação entre o amor e o sofrimento é um fenômeno cultural e revela as origens remotas da felicidade e da tristeza. Por tudo isso, Etimologia das paixões é uma leitura fundamental.

Entrevista de Ivonne Bordelois ao jornal argentino Página 12

“Com este livro, vivi uma supresa atrás da outra”, afirma Ivonne Bordelois em antrevista ao Página 12. “A linguagem escapa de qualquer modelo de evolução genética molecular, ela é mãe e pai ao mesmo tempo. O homem não sabe como a palavra se inseriu na sua realidade; a palavra, que nos distingue como espécie, de certa forma ainda permanece inacessível para nós”. Ainda assim, com paciência e perseverança, Ivonne pesquisou definições e raízes de mais de vinte dicionários etimológicos e as cruzou com um vasto corpo de leituras — que incluem Platão, Espinosa, Freud, Nietzsche, Benjamin e Foucault — para demonstrar que existe uma história da palavra que se entrelaça com a história do ser humano.

Você observa que existe um tabu com a palavra “parente”, que significa originalmente “aquele que está parindo”. Como explicaria esse tabu?
IVONNE BORDELOIS: A palavra “parir” é muito forte, e é mais associada ao parto dos animais. Os idiomas em geral são muito cuidadosos em relação a certas atividades, como a de parir ou dar a luz, que é uma expressão bonita mas muito literária, ou a outras, ligadas à sexualidade. As sociedades reprimem a linguagem nas zonas de atividades fundamentais da vida, como a sexualidade. Estudos como o meu evidenciam que, mesmo julgando que somos muito liberados neste século 21, na verdade ainda somos muito reprimidos em relação a realidades básicas.

Por que você afirma que a paixão é moderna?
IVONNE: O que é moderno é o significado que damos à paixão. Quando falamos de paixão nos referimos a um movimento muito intenso, mas não a associamos, como ocorria em sua origem, ao siginificado de sofrimento e passividade. O espectro de sentido dessa palavra mudou muito: ela sempre existiu, mas tinha conotações rigorosamente diferentes. E é interessante analisar como ela vai mudando, e em que contextos se produziu o deslocamento dos primeiros sentidos aos atuais, que só secundariamente evocam a idéia de sofrimento, e de forma ainda mais remota a idéia de inação. Assim o sofrimento foi sendo apagado o sofrimento da passio latina.

A contraposição entre razão e paixão parece muito fecunda, quando se pensa na pulsão erótica?
IVONNE: Sim, efetivamente. Etimologicamente, o desejo sexual nunca tem a ver com o amor ou o prazer, está sempre vinculado à cólera — o que indicaria que na pulsão erótica existe um dinamismo que envolve a violência e a ira. Curiosamente não existem textos psicanalíticos que sugiram uma proximidade específica entre a ira e a pulsão sexual.

A autora

Ivonne Bordelois é poeta e ensaísta. Doutorou-se em Lingüística com Noam Chomsky no Massachusetts Institute of Tecnology e ocupou uma cátedra na Universidade de Utrecht, na Holanda. Recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim em 1983 e é autora de diversos livros, entre eles El alegre apocalipsis (1995), Un triángulo crucial: Borges, Lugones y Güiraldes (1999) e La palabra amenazada (2003). Em 2005 recebeu o Premio Nación-Sudamericana. Etimologia das paixões é seu primeiro livro publicado no Brasil.

2 comments:

crib tanaka said...

quero ler, parece muito bom. ali�s, vi a monica waldwogel comentando sobre ele.

Anonymous said...

Pois é, pena que a Beth Lago interrompeu ela o tempo todo para falar de um tema mais importante, a Playboy da Monica Velloso.