Wednesday, November 28, 2007

Como se processa o reconhecimento da arte contemporânea?


Vou traduzir resumidamente (ou resumir traduzidamente!) as teses propostas no comentário em francês ao post "Mensagem encontrada numa lata". Em itálico, comentários meus:

Já há mais de um século, a transgressão se tornou o princípio mesmo da arte. [A transgressão se tornou portanto um valor, mais depois de um certo ponto se gerou um paradoxo: uma tradição da transgressão, que na verdade passou a transgredir cada vez menos]. Manet, com o quadro Dejeuner sur l'herbe, rompeu com a tradição acadêmica e chocou seus contemporâneos. [Sem dúvida] (...) Depois foram colocadas em questão a técnica pictural (Impressionistas), o realismo figurativo (Cubistas), a figuração (Abstração)... E por fim a própria pintura! [Todo mundo sabe disso].

Casémir Malévitch (Quadrado preto sobre fundo preto, 1913, e Quadrado branco sobre fundo branco, 1918) [a imagem que ilustra este post é do Quadrado preto sobre fundo branco] e Marcel Duchamp, com seus ready-mades (urinol, porta-garrafas, roda de bicicleta)foram até o fundo dessa lógica. O OBJETO SE TORNA OBRA DE ARTE PELA VONTADE DO ARTISTA. [Aqui está o nó. Se é unicamente a vontade do artista quem estabelece o que é arte, quem dá ao artista esse poder? E quem decide quem é artista e quem não é? Enquanto estas peguntas não forem respondidas com objetividade, qualquer debate patinará num terreno perigosamente ambíguo].

Fazer obra de arte é antes de tudo ser reconhecido [por quem?] na qualidade de artista. O artista é aquele que nos mostra nossos limites e fronteiras (...) Desembaraçado de limitações técnicas e estéticas, o artista só reconhece uma obrigação: inovar [se é assim, muito pouca gente é artista, porque se está inovando muito pouco; mas é mesmo assim? A inovação é o parâmetro?] E assim, recolocar em questão (em questões?) a arte já estabelecida e reconhecida. [Ué, como assim, se acima foi dito que o artista é quem é reconhecido como artista?]

Mas como distinguir entre o artista autêntico e o mistificador [agora se reconhece que existem artistas autênticos e mistificadores?] Como é próprio da inovação e da transgressão não poder ser julgado segundo critérios do passado [quer dizer, cada obra nova pede novos critérios, o que é outra justificativa para alegar que qualquer coisa é arte]. Os amadores/amantes esclarecidos [esclarecidos por quem, segundo que critérios?] e as instituições [Ah... Agora sim. Mas faltou dizer como funcionam essas instituições] vão separar o trigo do joio [sem trocadilho com meu sobrenome].

Assim os verdadeiros amantes da arte, guiados pelos críticos [mas como, se, justamente, os críticos perderam relevância como guias, e quando alguém levanta a voz é recebido é pedradas?] POSSUEM O BOM GOSTO QUE OS DIFERENCIA DO COMUM DOS MORTAIS [sem comentários: eu achava que "bom gosto" era uma categoria ultrapassada e reacionária], ao passo que os museus asseguram a consagração atribuindo aos objetos o estatuto de obra de arte, e aos indivíduos o estatuto de artista.

A arte contemporânea não é o domínio do vale-tudo [conclusão que contradiz as premissas] É um jogo sutil, no qual o artista TRANSGRIDE AS REGRAS, RESPEITANDO AS REGRAS DA TRANSGRESSÃO [sensacional: que transgressão é essa que respeita regras?] que propõem, de forma implícita [seria bom explicitá-las] o mercado (críticos e galerias) e a instituição (museus e mercado institucional).
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Pelo que entendi, o original em francês foi extraído do DOSSIER: L'ART CONTEMPORAIN: Au-delà de l'avant-garde, de Georges Strohl. É um texto muito revelador sobre as bases frágeis que sustentam o pensamento sobre arte hoje. É por isso que, na arte contemporânea, tudo é permitido, menos discordar e questionar. Desacostumados a qualquer embate teórico sério, que exija reflexão, atacam e desqualificam qualquer um que tente pensar de forma crítica e independente.

Aí o debate fica reduzido a saber se uma instalação tem 300 ou 7.000 maçãs (como se fizesse alguma diferença para a discussão proposta), como se lê na Folha de S.Paulo de hoje, ou se uma obra foi vista in locu ou através de fotografias.

Mas todo esse barulho me dá razão em duas coisas, explicitadas no meu primeiro texto:
1) é difícil qualquer debate avançar, em arte contemporânea, porque sempre vira Fla-Flu.
2) qualquer voz dissonante é furiosamente rechaçada.

2 comments:

Stela said...

A resposta básica para as suas também básicas indagações: O Sistema de Arte.

Como em todo sistema, um conjunto de elementos interdependentes interagem para formar um todo. É deste nosso modelo, o sistema de arte, que saírão as respostas dinamicamente atualizadas para "O que é arte?" e etc.

1) O OBJETO SE TORNA OBRA DE ARTE PELA VONTADE DO ARTISTA. [Se é unicamente a vontade do artista quem estabelece o que é arte, quem dá ao artista esse poder? E quem decide quem é artista e quem não é?]

2) Fazer obra de arte é antes de tudo ser reconhecido na qualidade de artista. [por quem?]

3) Os amadores/amantes esclarecidos [esclarecidos por quem, segundo que criérios?] e as instituições [Ah... Agora sim. Mas faltou dizer como funcionam essas instituições]

4) O artista é aquele que nos mostra nossos limites e fronteiras (...) Desembaraçado de limitações técnicas e estéticas, o artista só reconhece uma obrigação: inovar [se é assim, muito pouca gente é artista, porque se está inovando muito pouco; mas é mesmo assim? A inovação é o parâmetro?] E assim, recolocar em questão (em questões?) a arte já estabelecida e reconhecida. [Ué, como assim, se acima foi dito que o artista é quem é reconhecido como artista?]

5) Mas como distinguir entre o artista autêntico e o mistificador [agora se reconhece que existem artistas autênticos e mistificadores?] Como é próprio da inovação e da transgressão não poder ser julgado segundo critérios do passado [quer dizer, cada obra nova pede novos critérios, o que outra justificativa para alegar que qualquer coisa é arte].

6) É um jogo sutil, no qual o artista TRANSGRIDE AS REGRAS, RESPEITANDO AS REGRAS DA TRANSGRESSÃO [sensacional: que transgressão é essa que respeita regras?] que propõem, de forma implícita [seria bom explicitá-las] o mercado (críticos e galerias) e a instituição (museus e mercado institucional).

argenide said...

Luciano,

Parabéns pelas colocações e principalmente pela coragem ao fazê-las.

Há algum tempo, num artigo publicado pela Folha, diversos críticos rechaçavam o trabalho do Romero Britto. Sem questionarmos se a obra dele é ou não relevante, em sua opinião, se ele fosse formado pela ECA ou pela FAAP, os mesmos críticos teriam sido tão duros nas colocações? Porque ninguém saiu em defesa como fazem agora?

Acredito que além do mercado de arte e as galerias, numa outra ponta há o meio acadêmico que não ajuda muito no desenvolvimento de novos talentos, direcionando as suas “crias” para o que está ou não na “moda” da arte contemporânea. Quando se renovará esse caldo ranço que permeia o meio acadêmico? É enferrujado, obtuso e preconceituoso, na sua maioria.

Quando fui para a FAU fazer um curso de pós, há muitos anos, minha crença de que estava indo para um templo de liberdade criativa não durou três dias. Tirando pouquíssimas aulas, e nestas incluo as do Milton Santos, que foram realmente um capítulo à parte, não havia espaço para novas idéias. Tudo deveria estar dentro dos conceitos estéticos valorizados no momento. O que estava na moda ditava o curso.

As suas críticas suscitam um questionamento, acima de tudo. Um questionamento que poucos querem fazer, mas que é muito válido.

Quanto aos trabalhos citados no seu artigo me lembrei de uma entrevista na VEJA, aonde Robert Hughes falou que “Duchamp não foi um grande artista, e sim um homem de idéias notáveis!” e também que “a influência de Duchamp sobre a arte contemporânea foi libertadora, mas também catastrófica.” Em seguida explica: “Porque ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que sem ele hoje não haveria as chamadas instalações, aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma bula para entender o que o artista quis dizer.”

Acredito na arte SEM BULA e que uma coisa é ser criativo e outra coisa é ter talento.

Atenciosamente,
Argênide
www.argenide.com.br