Tuesday, November 20, 2007

Desfazendo o mito do Che?



O assunto não é exatamente novo, mas merece um registro. Há poucos meses, a Veja deu uma capa sobre Che Guevara. Embora a reportagem não contivesse nenhuma inverdade, não trazia por outro lado qualquer revelação que justificasse o espaço e sobretudo o título dado a matéria. Naturalmente, esta era escrita em tom de editorial, ou seja, era um texto montado para demonstrar uma tese formulada previamente. O que não é necessariamente ruim. É uma ingenuidade bastante comum pensar que textos jornalísticos devem buscar sempre a imparcialidade (se é que ela existe); ao contrário, grandes matérias de revistas semanais geralmente combinam informação e opinião, e cabe ao leitor examinar criticamente o que lê, e se concorda com o que lê.

Mesmo assim...

Já li um bocado sobre a vida do Che e estive em Cuba três vezes. Hoje sou um cético em relação ao projeto revolucionário pelo qual ele deu a vida - e que custou muitas outras vidas, é verdade. Se o ser humano fosse diferente, talvez desse certo. Não deu. Apetites individuais acabam se sobrepondo ao altruísmo necessário a qualquer utopia de esquerda. Mas minha descrença em relação às revoluções marxistas do século passado, das quais a revolução cubana, pelos detalhes e circunstâncias, foi um exemplo heróico e quase milagroso, não diminuiu meu interesse e admiração pelo Che. Suas falhas têm que ser contextualizadas à luz do que acontecia na América Latina no auge da Guerra Fria, e não pinçadas e examinadas com lente de aumento.

(Parêntesis 1: o que acontece hoje na América Latina é completamente diferente; quem representa uma ameaça à democracia não são mais ditaduras militares de direita, mas o caudilho-populismo de esquerda que se instalou no poder em alguns países);

(Parêntesis 2: continuo achando interessante a idéia em si de revolução, qualquer revolução; uma revolução é sempre a afirmação da liberdade do ser humano de desafiar a ordem estabelecida, de mudar seu destino, de criar algo diferente, de fazer História)

Das biografias do Che que li, a mais completa, do ponto de vista da apuração e documentação, é certamente a de Jon Lee Anderson (que conheci pessoalmente, em Paraty, dois anos atrás, ocasião em que não perdi a chance de pegar uma dedicatória no meu exemplar de seu livro). A de Jorge Castañeda, Uma vida em vermelho, é mais interessante do ponto de vista da análise, sobretudo do período final da vida do Che, incluindo sua fracassada experiência africana. Mas, jornalisticamente falando, Anderson dá de dez a zero. Existem muitas outras, mais antigas, mas também mais ideologizadas.

Pelo rigor com que Anderson exerce o jornalismo, achei perfeitamente compreensível a sua insatisfação com a matéria publicada em Veja, e que está circulando entre jornalistas brasileiros. Anderson mostra-se revoltado com a reportagem não por cultivar o mito Che, ao contrário: por ter investigado a fundo o homem Che. Por sua coragem e determinação, por sua convicção, ainda que ilusória, de que seria possível construir uma sociedade igualitária (não é: sempre haverá uma elite no comando, conduzindo e manipulando as massas, mesmo que essa elite se diga de esquerda, como acontece no Brasil da bolsa-cabresto), Che Guevara foi um personagem histórico modelar.

Segue uma tradução da carta que Jon Lee Anderson enviou ao jornalista Diogo Shelp, responsável pela matéria:

"Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson."

3 comments:

Blogildo said...

Não entendi, Luciano! Che foi um terrorista. Não era melhor que um Bin Laden.

Não sei se você leu mas Reinaldo Azevedo escreveu uma série de textos bastante convincentes sobre Anderson vs Schelp.

http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/11/che-guevera-veja-e-anatomia-de-uma.html


http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/11/claro-que-ainda-no-acabei.html

Stefano said...

Caro Luciano

O Reinaldo Azevedo já tratou de reduzir o J.L. Anderson a pó de cocô, mostrando como ele é apenas mais um ordinário fanático esquerdista, travestido de jornalista. Sua troca de mails (editados) com seus correligionários, é uma vergonha.

Ingrid said...

Não li a matéria publicada na Veja - aliás, há muito perdi o interesse por essa revista - mas pelo que pude compreender (também a partir da leitura da coluna do Verissimo, na edição de hoje de O Globo)é que se trata de inflingir uma segunda morte ao Che.

Che Guevara foi um revolucionário, no sentido forte do termo, e não um teórico da revolução; fez o que achou que devia ser feito, ao preço da própria vida.

No fim, totalmente só, morreu de olhos bem abertos: a fotografia de seu corpo morto sempre me impressionou pelo fato de que nem sequer teve mão amiga que lhe cerrasse os olhos.