Monday, November 26, 2007

Mensagem encontrada numa lata


Como o site chamado Canal Contemporâneo reproduziu sem minha autorização o texto que escrevi para a Folha de S.Paulo, reproduzo aqui, sem autorização deles, um comentário deixado lá pelo leitor Tito de Oliveira:

Penso que é realmente importante ressaltar que: a infinitude criativa da arte contemporânea - muito embora mais consistida em releituras do que em vanguardismo - além da soberania do mercado de arte, liderado por galerias, Salões e bienais, que por sua vez etabelecem a linguagem à ser explorada, impondo ao artista o melhor trajeto, em suas ópticas, para a condução de uma carreira, torna dificultoso o discernimeto entre uma produção efêmera, mas, insinuante, de uma criação permeada pelo anseio desesperado da projeção. Este é algo realmente preocupante não apenas para os críticos, que deveras tornaram-se repetitivos por pejortivarem demasiada criação reacionária, mas, sobretudo por desconstruir cada vez mais o alicerce que atrai o espectador comum para um universo contido em uma existência restrita apenas às classes cultas e elitizadas, que desta forma podem exprimir suas opiniões.

Sereno e objetivo. Sem me dar razão, mostra que toquei em pontos relevantes para um necessário debate sobre arte contemporânea.

Muito diferente é o texto, também publicado no mesmo site, por um certo sr. Moacir (ele me chama de "senhor" quatro vezes, então devolvo a deferência): raivoso, estúpido, mentiroso, me atribuindo idéias que não defendi e intenções que não tive. É um artigo tão imbecil e mal escrito que sequer merece uma refutação ponto a ponto - até porque ele me dá razão quando digo que qualquer questionamento dos rumos da arte contemporânea é recebido a pedradas.

O curioso é que nem Marcos Augusto, de quem sou leitor, nem o sr. Moacir dizem se consideram ou não arte a orelha implantada no braço ou o cachorro que morre de fome. Eu e muitos outros leitores ficamos curiosos para saber.

Ilustrando este post, a obra Merda d'Artista (1961), de Piero Manzoni, que dá o que pensar. Manzoni defecou em 90 latinhas, assinadas e numeradas, e as vendeu a peso, cobrando o preço equivalente em ouro. Com o tempo, naturalmente, as latas começaram a sofrer um processo de degradação natural, deixando vazar o conteúdo, causando inúmeros problemas para museus e colecionadores. (É sério: aconteceu, por exemplo, na Tate Gallery, em Londres, onde especialistas opinaram que não se pode intervir na obra de arte, sob pena de adulterá-la e de modificar a intenção do artista; a solução foi colocar a lata dentro de um cubo de acrílico, onde a obra de arte pudesse seguir o seu percurso natural, longe das mãos e dos narizes do público). Uma das latas, aliás, foi vendida em maio passado, por 97 mil euros (cerca de R$ 250 mil).

Merda d'Artista, porém, não é uma merda. É um ataque frontal e um comentário irônico ao mercantilismo da arte e à idéia, moderna no mau sentido, de que não há limites para a arte, de que a arte está em toda parte, de que tudo é arte. Mais de 40 anos depois, a mensagem não foi compreendida, a arte se mercantilizou de vez, e a mediocridade triunfou. E ai de quem apontar o dedo para isso.

4 comments:

Stela said...

Sobre Stelarc: O cerne de sua pesquisa, portanto, está além do âmbito estético ou puramente tecnológico, pois é também filosófico e desesperadamente político contra a própria Natureza do mundo. Enfrentando os limites do corpo humano, Stelarc, como um Dom Quixote científico pós-moderno, enfrenta de modo frio questões complexas e genéricas como a morte, a decomposição orgânica e a extinção da raça humana sobre a terra. Stelarc entende o cérebro como a parte mais poderosa e sofisticada do corpo, e defende a mutação física sintética para que possamos nos tornar fisicamente melhores, sem sensacionalismo nem sadomasoquismo para televisão - ao contrário do que uma reflexão rasteira e mais conservadora poderia supor.

STELARC: PRÓTESES ROBÓTICAS E O CORPO VAZIO, por Daniela Labra: http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.rede/numero/rev-numero6/seisdanilabra

Stela said...

Como se processa o reconhecimento da arte contemporânea?

Tout ce que fait un artiste est oeuvre d'art

Depuis plus d'un siècle, la transgression est devenue le principe même de l'art. Manet, avec le Déjeuner sur l'herbe, a rompu avec la tradition académique et choqué ses contemporains en présentant un nu dans une scène de genre (extérieur, déjeuner, hommes habillés...). Puis ont été remis en cause la technique picturale (Impressionnistes), le réalisme figuratif (Cubistes), la figuration (Abstraction)... et pour finir la peinture elle-même!
Casimir Malevitch (Carré noir, 1913 et Carré blanc sur fond blanc, 1918) et Marcel Duchamp avec ses "ready mades" (urinoir, porte-bouteille, roue de bicyclette,...) sont allés au bout de cette logique.
L'objet devient oeuvre d'art par la volonté de l'artiste..

L'avant-garde ou la "Révolution permanente"

Faire oeuvre d'art c'est avant tout être reconnu en qualité d'artiste. L'artiste est celui qui nous montre nos limites et frontières en les franchissant allègrement. Débarrassé des contraintes techniques et esthétiques, l'artiste ne connaît plus qu'une seule obligation: innover. Et par là, remettre en question (en questions?) l'art déjà établi et reconnu.

Mais comment distinguer l'authentique artiste du mystificateur? Car le propre de l'innovation et de la transgression est de ne pas pouvoir être jugées selon les critères du passé! Les Amateurs éclairés et les Institutions vont séparer le bon grain de l'ivraie.
Ainsi, les vrais amateurs d'art, guidés par les critiques, possèdent Le bon goût qui les distingue du commun des mortels, tandis que les musées assurent la consécration en accordant aux objets le statut d'oeuvres d'art et aux hommes celui d'artiste.

L'art contemporain n'est pas le domaine du "n'importe quoi". C'est un jeu subtil, où l'artiste transgresse les règles tout en respectant les règles de la transgression que posent de façon implicite le marché (critiques et galeries) et l'institution (musées et marché institutionnel tel le FRAC...)

DOSSIER: L'ART CONTEMPORAIN: Au-delà de l'avant-garde, Georges Strohl
http://www.strasmag.com/99_dossiers/04_art/avant_garde.htm#0

Simone Iwasso said...

teu texto da folha me fez pensar, e essa complementação aqui também. acho, como leiga e apreciadora, que a arte contemporânea, por se permitir tudo, por ser definida pelo próprio artista como arte, se distanciou demais, se tornou extremamente auto-referente. soma-se a isso esse círculo fechado, essa bolha de mercado de galerias e bienais (aliás, o que vazio da próxima bienal aqui de sp é mais do que um sintoma da crise). beijo

débora bolsoni said...

Olá Luciano,
sinto pelos comentários agressivos que você diz estar recebendo, mas seu artigo da Folha foi bem agressivo.
Não estava motivada a responder às suas críticas porque desconfio de uma má intenção na forma com que foram proferidas.
Não ignoro solenemente as críticas e sei muito bem que opiniões como as suas são representativas de uma parcela significativa do público. Mas o distanciamento da realidade que você atribui aos artistas também pode ser atribuído a essa parcela significativa do público. Não existe um academicismo contemporâneo validando obras afinadas com um discurso homogêneo. O que acontece, acredito, é que muito poucos têm um acesso mais integral ao trabalho dos artistas e devido a esse contato superficial inúmeros preconceitos se enraízam.
Fiquei pensando na relação entre o seu juízo da situação privilegiada dos artistas representantes da “tendência dominante” e a influência do conceito de violência simbólica desenvolvido por Pierre Bourdieu. Fiz essa relação por ler a entrevista que ele te concedeu, e por ter me debatido também com a arte contemporânea numa época em que havia descoberto este autor. Isso foi no final dos anos 90, o mesmo período em que você diz ter sido publicada a entrevista no Globo. Passados quase 10 anos reconheço aliviada que não tenho a tendência de arraigar preconceitos e continuei trabalhando e prestando atenção no que se fazia a minha volta com olhar crítico sim, mas sem desmerecer o trabalho daqueles que circulavam num meio cujo funcionamento eu desconhecia.
Nem de longe passou na minha cabeça que eu me destacaria no circuito de arte por estar me utilizando da paçoca. Pensar nessa hipótese é um absurdo.
Eu quis usar a paçoca porque me interesso por certos materiais e objetos que possam representar uma tática de resistência cultural. Acho estimulante o caldo que existe na fronteira entre o folclórico e o massivo. Gosto de pensar na culinária como um fazer plástico não especializado e nas receitas de domínio público que se tornam característicos de uma cultura. Isso me remete a uma essência que se impõe. Achei que o argumento de sotaque forte presente na curadoria do Moacir dos Anjos para o Panorama ajudaria a evidenciar essas questões que eu via no uso da paçoca.
Outro motivo que justificou o trabalho com a paçoca foi a busca por um material que pudesse substituir a terra. Que pudesse se comportar como tal ao menos em alguns aspectos. Eu queria trazer pro MAM algum artifício característico dos espaços públicos que ficam entre o rural e o sub-urbano. Daí o quebra-molas de uma rua de terra e uma espécie de saudosismo invocado pela paçoca poderiam coexistir com certa naturalidade. Essa foi a minha tentativa. Pensei que esse objeto seria revelador de uma qualidade afetiva da nossa resistência (enquanto sociedade) de avançar. E ainda, que seria curioso que esse obstáculo fosse, na verdade, construído por uma matéria que desmorona tão facilmente. Que fosse um doce “inofensivo”. Muitas outras reflexões e experiências fizeram parte do processo, mas no geral é isso.
Não me sinto fazendo nada excêntrico nem hermético. Não estou inventando nada. A paçoca tem as qualidades citadas acima e também o quebra-molas. Claro que tanto um quanto o outro têm ainda inúmeras outras conotações e qualidades. E, ainda que muitas delas concorram para o sentido que eu quis dar ao trabalho, outras provavelmente serão conflitantes em relação ao mesmo. Mas acho que isso não o invalida.
Também está longe das minhas pretensões repetir o “gesto inaugural do Duchamp”. As operações que ele e outros artistas (de vanguarda ou não) realizaram entraram no nosso vocabulário estético e hoje, se as “repetimos” com um certo distanciamento que te pareceu alienação, e falta de comprometimento, é porque as articulamos como se faz com os signos de uma linguagem estabelecida. Depois de Brunelleschi, Massaccio e companhia a perspectiva continuou por bons séculos como recurso lingüístico embora ela já não fosse mais uma investigação central da arte ou da arquitetura. Nem por isso fez-se uma arte acomodada, pastiche das descobertas do Quattrocento italiano. Um pouco tolo esse meu exemplo ilustrado, mas pode ser útil frente a outras tolices.

No mais, gostaria que você fizesse alguma auto-crítica ao reler os trechos que destaco abaixo. São trechos da entrevista que você realizou com Pierre Bourdieu. Termino esta carta com esse recorte da entrevista porque me parece que você continua em busca de uma tese generalizante sobre as questões que te incomodam. Um abraço, Débora Bolsoni.

- Como o senhor vê o triunfo planetário do liberalismo e das leis do mercado?

Bourdieu - Esta é uma pergunta muito geral, e o mais importante são as questões específicas. São os intelectuais mediáticos que gostam de falar sobre qualquer assunto, indiscriminadamente. (...)

- Desde a morte de Sartre, há 15 anos, não surgiu na França nenhum "maitre-à-penser"...

Bourdieu - São os intelectuais mediáticos e os jornalistas que dizem isso - porque, naturalmente, eles próprios não são "maitres-á-pensar". É preciso levar em conta que o modelo sartriano de intelectual engajado correspondeu a uma etapa diferente da vida cultural francesa e sobretudo a uma etapa diferente da relação entre os intelectuais e os meios de comunicação. Muitas ações políticas de Sartre, ou mesmo de Michel Foucault, foram bem sucedidas porque contaram com um enorme apoio da imprensa. Hoje o espaço máximo que Sartre teria num jornal seria o de um artigo na página de opinião, porque os intelectuais mediáticos exercem uma espécie de monopólio da mídia. Suas obras são sem interesse, mas eles estão sempre dispostos a falar qualquer bobagem sobre qualquer assunto. Aliás, até mesmo Sartre disse muitas besteiras.

- Em livros como "A economia das trocas simbólicas" o Senhor faz análises penetrantes das transformações da vida cotidiana. Na esfera privada, o senhor acredita que hoje as pessoas são mais conservadoras do que 20 anos atrás?

Bourdieu – É outra pergunta muito geral e sou obrigado a responder: eu não sei. Os intelectuais precisam ter a coragem de dizer "eu não sei", sobretudo diante de perguntas muito gerais, que não levam a nada. (...)

-----------------
Ah, sim. Quero aproveitar a fama e anunciar meu carro que está à venda para cobrir as dívidas da minha vida bem sucedida de artista. É um gol 98, gasolina, cinza grafite com mecânica OK mas com o licenciamento atrasado. Estou pedindo R$ 13.000,00. A placa é de São Paulo. Interessados favor escrever para o e-mail: dbolsoni@hotmail.com