Friday, November 30, 2007

Sol LeWitt, Helio Oiticica e mais reflexões sobre a arte contemporânea



A história da arte após a Segunda Guerra é a história da ruptura com os suportes tradicionais. No limite desse processo, artistas conceptuais rejeitaram a própria realização material da obra de arte, apresentando em seu lugar idéias e projetos ainda em esboço, acrescentando muitas vezes orientações precisas para o público. Desmaterializada, a arte se aproximou assim de questões filosóficas e semiológicas.

O artista Sol LeWitt, aliás falecido este ano, confirma: "Em arte conceitual, a idéia ou conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista usa uma forma conceitual de arte, significa que todo o planejamento e decisões são tomadas antecipadamente, sendo a execução um assunto secundário. A idéia torna-se na máquina que origina a arte".

LeWitt vai além: “Uma vez que a arte é um veículo de transmissão de idéias através da forma, a reprodução apenas reforça este conceito. É a idéia que está sendo reproduzida". Em outras palavras, a arte conceitual dá ao projeto artístico o status de arte, conferindo ao conceito original a mesma importãncia de sua realização material.

Artistas conceituais recorreram com freqüência ao uso de fotos, mapas e textos prontos, como verbetes de dicionário (ver meu post sobre Joseph Kosuth). Em algumas criações de Lawrence Weiner, por exemplo, a obra se limitava a um conjunto de instruções escritas que a descreviam, sem que ela se realizasse concretamente. Isso refletia a recusa de alguns artistas de serem assimilados por um sistema que reforçava a idéia tradicional da arte, ligada aos museus e galerias.

Este mesmo espírito de resistência animou os happennings - termo cunhado em 1959 por Allan Krapow para descrever manifestações que aconteciam fora dos museus e galerias, geralmente em espaços abertos, envolvendo imprevisisibilidade e participação do público, e aproximando as artes plásticas das artes cênicas.

O ponto relevante aqui é a recusa dos artistas de serem assimilados pelo "sistema da da arte". Esta atitude política era um elemento importante do movimento. Ora, esse espírito contestador deixou de existir, ou só existe hoje na retórica, como a transgressão só sobreviveu na retórica. Na verdade ninguém contesta mais o sistema, ao contrário: o que se busca hoje, como na Paris pré-Impressionista, é o reconhecimento oficial dos salões, é entrar nos circuitos estabelecidos, é vender. Obras "transgressoras" são feitas sob encomenda e saem diretamente do estúdio do artista para espaços nobres dos museus e galerias.

Daí a distorção citada pelo crítico Robert Hughes: se o que importa no fundo é o comércio, o valor de um artista passa a ser medido pelo número de vezes que aparece na mídia, ou pelo preço que suas obras alcançam. Além disso, o mercado passa a depender de novidades artificialmente lançadas a cada temporada, para alimentar a lógica do sistema.

(Parêntesis: No seu momento, Sol LeWitt, como muitos outros artistas já citados neste blog, teve uma importância capital na história da arte do século XX. Um texto seu, Paragraphs on Conceptual Art, uma lista de 35 frases publicada em 1969, influenciou toda uma geração de artistas conceituais e minimalistas. Não estou, portanto, nem de longe falando mal dele, como não falei mal de nenhum outro artista. Minha abordagem desse tema, desde o primeiro post, não é de crítico de arte, que não sou nem pretendo ser, mas de alguém que tem um interesse intelectual na reflexão sobre a arte, sua história, seus aspectos sociológicos, econômicos, simbólicos).

Agora vejam só que interessante: o principal artista brasileiro ligado a esse movimento todo de renovação e desconstrução dos anos 50 aos 70 é, seguramente, Helio Oiticica. Sabem o que Helio Oiticica disse da arte conceitual? Disse isso:

Detesto arte conceitual, nada tenho a ver com arte conceitual. Pelo contrário, meu trabalho é algo concreto, como tal. (...) Para mim o conceito é uma etapa, como o sensorial, o ambiental, etc. que no fundo são conceitos também; o que acho ruim é quando o conceito é tratado como objeto-fim artístico, é que passa a ser redundante, fechando-se em si mesmo (...) eu quando faço um projeto é para ser construído mesmo; não me satisfaz o reconhecimento da possibilidade do mesmo".

Ou seja, ele bate de frente com o princípio básico do movimento, citado lá no alto. Alguém ousaria desqualificar Oiticica por ter dito isso? Claro que não. Para gostar de um é preciso desqualificar o outro? Também não. O que venho tentando sugerir é o seguinte: embora tenham existido outros movimentos após a arte conceitual (como o hiperrealismo), são os princípios desta corrente que continuam prevalecendo: mais de 40 anos depois da emergência da arte conceitual, a arte continua voltada para o próprio umbigo, discutindo conceitos e dicotomias de si própria: realidade x representação, idéia x forma, suporte x superfície. Dentro deste espectro, não há o que já não tenha sido discutido, só resta a repetição - e a repetição descontextualizada, dissociada dos fatores que lhe deram origem. Aí ou o sujeito produz uma coisa anódina, ou se agarra a uma nostalgia da transgressão - é nesta hora que surgem artistas se mutilando ou matando cachorros de fome.

As imagens deste post são de obras de Sol LeWitt e Helio Oiticica, respectivamente.

5 comments:

daniela said...

caro Sr. Trigo, ao contrário de suas afirmações, existem muitos trabalhos artísticos fundamentados em pesquisas e técnicas, e que vão muito além do hiperrealismo (depois da arte conceitual apareceu tanta coisa mesmo...). Nem tudo é realizado sem técnica, sem conhecimento, sem estudo, e é quase ingenuidade ficar martelando num só tipo de produção atual, fundamentada na arte conceitual, com ares transgressores à la anos 1970, quando há outras coisas sendo produzidas por aí... A declaração de Hélio também é antiga, e assim como o sr. rejeita que preceitos de uma arte de 40 anos atrás ainda sirvam de cartilha, também a afirmação do artista não deveria servir como bandeira para sua discussão hoje, não acha? Aliás, a obra de Oiticica não era arte conceitual, e portanto nada mais natural que ele rejeitá-la.

abraços, daniela labra

Luciano Trigo: said...

Às vezes tenho a impressão de que estou escrevendo em grego, e as pessoas lendo em japonês.
Eu disse que não existem trabalhos fundamentados e pesquisas e técnicas? Acho que não.

daniela said...

Em outros posts parece recorrente a afirmação de que o artista hoje não precisa saber nenhuma técnica, nenhum aprendizado prévio para ser artista... Talvez eu tenha juntado impressões de outras coisas que li. Obrigada.

Luciano Trigo: said...

Mas isso não precisa mesmo.
O que não muda o fato de que ainda existem artistas que levam técnica a sério.
Por favor, vamos ser mais precisos e objetivos nos comentários, para o debate avaançar.

JS said...

ok, o artista contemporâneo não precisa ter o domínio de técnicas e nem por isso ele é menos capacitado do que os que "levam as técnicas a sério"... mas o que é levá-la a sério mesmo?
Talvez ele não precise ser especialista em nenhuma delas porque o que importa é saber articular o conhecimento já produzido. Aí sim, ele tem que ter muito "aprendizado prévio" pq sem saber das coisas, não há como articular as informações...