Saturday, December 01, 2007

Qualquer semelhança é mera coincidência



Vejam só como são as coisas. Guillermo Vargas Habacuc, o sujeito que amarrou um cachorro no canto de uma galeria e o deixou morrer de fome - e chamou isso de arte - também é autor de uma obra intitulada Alfombra Roja: 300 kilos de tomates (2006, foto acima).

Agora comparem essa obra com a foto da instalação da Laura, que juntou sete mil maçãs sobre uma mesa de mármore - e ficou indignada quando Ferreira Gullar a criticou:



Pelo visto, está nascendo uma nova corrente na arte contemporânea: a arte hortifruti (Artefruti? Hortiarte?)

A semelhança das duas obras permitiria levantar questões interessantes sobre autoria e originalidade na arte contemporânea (o verdadeiro autor dos tomates e das maçãs é a natureza, ou, para quem for religioso, Deus; o gesto de espalhá-los pelo chão de uma galeria permite a alguém dizer que criou uma obra de arte e reivindicar sua autoria? Se, amanhã ou depois, eu espalhar 500 quilos de caquis - para ficarmos na cor vermelha-, serei um artista? Se quem fizer isso for um artista consagrado, será uma obra de arte? Mesmo que a idéia já tenha sido usada? A obra de Habacuc diminui o valor da obra de Laura? Por quê?).

Já dá para adivinhar o que vão dizer: a intenção de Habacuc era brincar com a idéia do "tapete vermelho", enquanto Laura quis refletir sobre a transitoriedade das coisas etc. Mas, neste caso, a diferença principal não está nas obras, mas tão somente na cabeça dos artistas. Concretamente, o que temos são sete mil maçãs e 300 quilos de tomate. Quando as pessoas vão acordar?

PS1: E espero que não me perguntem se eu fui lá olhar pessoalmente (ou tomatalmente) os tomates. Façam o favor!

PS2: Respondendo a uma das perguntas acima: na minha opinião uma obra não diminui a outra. Ambas são igualmente desimportantes, porque usam uma gramática e um vocabulário de 40 anos atrás. Ambas são reciclagem.

2 comments:

Noga Lubicz Sklar said...

vc tá certo qto à idade deste tipo de linguagem. a primeira vez que eu vi artifruti foi na documenta de kassel, não sei bem qual mas com certeza há mais de 20 anos, pois faz tempo que não vou lá. era legal. a gente sentia aquele cheiro invadindo o prédio e não sabia de onde vinha, até chegar naquela sala e olhar pro teto revestido de maçãs. mas na documenta fazia o maior sentido, era uma expo sensorial (que não é bienal, mas que eu saiba de 5 em 5 anos). nessa mesma documenta eu vi video-instalação pela primeira vez. uma das coisas que mais me impressionou foi um corredor longo e escuro. quando vc entrava, via projetado na parede uma imagem de alguém sentado lá no fundo. vc parava em frente e a pessoa se levantava, vinha até vc e ficava te encarado o tempo que fosse. era intrigante, um puta estudo sobre a solidão. em seus primórdios, instalação era uma opção bem expressiva e interessante. vi muita coisa boa e era bem mais que uma boa idéia, era uma forma contundente de interpretar o mundo. depois, como (quase) tudo, envelheceu. estamos precisando de uma sacudida nova e, com o excesso de imagem que a gente enfrenta, não sei de onde virá. talvez do silêncio, da ausência, do recolhimento para alguma reflexão.

a bailarina de vermelho said...

oi luciano, tá lá no blog o post que faz uma referência a esse seu e uma humilde homenagem a sua pessoa. gd bj
com carinho
a bailarina de vermelho