Sunday, December 02, 2007

A Bienal do vazio


Artigo do Affonso Romano de Sant'Anna publicado hoje no jornal O Estado de Minas. Para quem não sabe, a próxima Bienal de São Paulo terá um andar inteiro vazio e não exibirá obras de arte, saída encontrada pelo curador Ivo Mesquita para não cancelar o evento, endividado e em crise:

Achei corajosa e necessária a iniciativa de Ivo Mesquita curador da próxima Bienal em São Paulo de colocar em xeque a própria instituição, pretendendo deixar todo um andar vazio, outro andar para um arquivo histórico do evento e outro para performances e exibição de vídeos.

Há vários anos que muitos artistas deixaram de ir à Bienal, porque consideram uma perda de tempo. Há vários anos que a imprensa está dizendo que o modelo desse tipo de exposição já se esgotou. Há vários anos que milhares de pessoas que vão lá movidas por grande publicidade perambulam como zumbis entre as obras sem entender o que os instrutores decoraram e lhes repetem.

Já está passando da hora de repensar a arte do século XX. A psicanálise que aflorou naquele século, está se repensando desde os anos 60; o marxismo que, também naquele século, teve sua prova real, está sendo repensado. Por que não se quer repensar a arte do século XX? Um século que teve acertos tão grandes e tão trágicos equívocos tem que ser reexaminado em todos os ângulos.

Um crítico alegou que seria absurdo fazer " uma bienal sem arte". Contudo, Isto já ocorre há muito. Dentro e fora do Brasil. Há até um livro, de 1994, tratando exaustivamente disto- "Artistas sem arte?" de Jean -Phillipe Domecq. Como diz Jean Clair, que dirigiu o Museu Picasso e foi o responsável pela primeira retrospectiva de Duchamp em 1977, no Beaubourg, " Poucas épocas como a nossa terão conhecido um tal divórcio entre a pobreza das obras que produz e a inflação de comentários que a menor delas suscita. Mais a obra é minguada, mais sábia a sua exegese".

Há mais de 20 anos a França discutiu as aporias da arte de nosso tempo como está no volume que sintetiza as polêmicas "(Toda)arte contemporãnea é inútil?" de Patrick Barrer. Em todos os países, até mesmo na recém reinventada Slovênia, críticos e historiadores estão desencadeando uma revisão dos conceitos de arte. Certas pessoas, que não podem ser acusadas de ignorantes, como Levi-Strauss, Paul Valery, André Gide, Eric Hobsbawm, Mircea Eliade, Pierre Bourdieu, Edward Wilson, Jean Baudrillard, Rodolf Arheim, Frederic Jameson, Theodor Adorno, entre muitas, iniciaram um diagnóstico das falácias de certo tipo de arte que virou " arte oficial". E, no entanto, um determinado "sistema" gerido por interesses que não têm nada a ver com a arte continua autoritariamente a exercer o seu autismo, o seu solipsismo.

Se até teóricos de outras áreas estão vendo que o rei está nu, porque insistem em não rever as falácias dentro dos muitos acertos?

Não é à toa que Thomas S. Khun, no seu célebre livro, de 1962, explicando como se dá a "mudança de paradigmas" na ciência e nas artes, já havia dito : " Nos nossos dias, as pesquisas desenvolvidas em certos domínios da filosofia, da psicologia, da linguística e mesmo da história da arte tendem a sugerir que há qualquer coisa que não vai bem com o paradigma tradicional". Há mais de 40 anos, portanto, " qualquer coisa não vai bem" também no domínio da arte. Historiadores dizem que a pós-modernidade entrou em declínio nos anos 80,o que complica um pouco mais certos " contemporâneos".

Vivemos um paradoxo perfeitamente diagnosticável. São os críticos que não fazem parte do sistema os que podem ver mais claramente os equívocos e sugerir caminhos. No entanto, Ivo Mesquita está se dando a si e aos seus companheiros uma chance histórica única. Quem sabe um país na periferia da pós-modernidade, pela sua singularidade, acabe desencadeando com criatividade uma revisão que outras bienais um dia adotarão?

Que se considere, no entanto, a advertência de James Gardner em Arte ou lixo: "É provável que os artistas contemporâneos, em vez de incentivar a arte do futuro, acabem por atrasar seu nascimento, do mesmo modo que os laureados e medalhados artistas oficiais dos salões de arte do século passado tentaram impedir o surgimento do Modernismo".

O vazio já estava há muito dentro da Bienal. Faltava coragem para pensá-lo.

2 comments:

Noga Lubicz Sklar said...

Por tudo que já foi provado e aprovado neste blog, acho que fica claro, no caso da Bienal de SP, que se trata simplesmente de preguiça e falta de assunto, ou quem sabe — o que é pior ainda — de informação. Lamentável. Escrevi a respeito:
http://www.noga.blog.br/2007/11/pgina-em-branco.htm

Regia said...

Artist Regia Marinho said
Insted of that empty space ...
1- Make a global survey to identify Brazilian artists that had left Brazil looking for opportunity that they have never had in Brazil.
2- Show them in that empty floor space....
3- Floor title "Brazilian artists refugees around the globe" "Artists brasileiros refugiados no exterior"
regiaart.com