Thursday, December 20, 2007

Um artista insubordinado


Achei uma entrevista muito interessante do artista plástico luso-brasileiro Artur Barrio à jornalista Paula Azugaray, da qual vou reproduzir alguns trechos. Como o Barrio é um artista contemporâneo valorizado, com livro publicado pela Cosacnaify etc, o descompromisso de suas declarações não deixa de ser admirável. Pessoalmente - mas, volto a dizer, meu gosto pessoal importa pouco, o que me interessa é promover um debate sobre os caminhos da arte - acho que o Barrio teve relevância nos anos 60, quando espalhou pelas ruas do Rio de Janeiro as Trouxas ensaguentadas, sacos de carne crua ensangüentada e lixo amontoados, numa evidente alusão à ditadura militar, mas não apenas isso: havia a intenção de exibir o que é renegado, jogado fora, posto de lado, incluindo materiais orgânicos e perecíveis. O que na época teve um sentido estético. (Da mesma forma que teve sentido, no contexto de um regime opressivo, a obra Tiradentes: Totem-Monumento ao preso político, de Cildo Meireles, que em 1970 queimou dez galinhas vivas amarradas numa estaca, em Belo Horizonte).

O que Barrio tem feito ultimamente, tentando atuar nas “brechas” dos espaços institucionais, me agrada bem menos. As intervenções diretas no espaço urbano de hoje, sobretudo se são enquadradas por instituições ou vinculadas a mega-exposições, podem ser criativas, mas não reverberam nem repercutem. Me parece que é um tipo de forma que teve seu momento histórico, que já passou. Mal comparando, é como a poesia marginal, cujo valor estava associado ao contexto cultural dos anos 70. Hoje existem herdeiros daqueles poetas que são criativos, mas cujo trabalho não ressoa. Dá até uma certa tristeza ver talentos poéticos verdadeiros se perdendo pela insistência num modelo ultrapassado.

Mas, voltando ao assunto, Barrio é um artista que coloca o dedo em algumas feridas e faz reflexões importante, concorde-se ou não com ele. Ele rejeita compromissos com galerias, marchands e museus, mete o pau nos curadores e prega, por exemplo, a inutilidade da conservação do objeto artístico, o que me parece uma atitude muito mais coerente com o tipo de obra que faz do que a de artistas que querem imortalizar o efêmero em museus. A verdadeira insubordinação é uma virtude rara hoje em dia. Seguem algumas passagens da entrevista citada, com comentários meus entre colchetes.
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Barrio: Essa preocupação com o público, (...) eu me afastei completamente disso e não tenho nenhum interesse em saber qual será a reação do público, ou se eles vão aceitar ou não. (...) eu não vou me dar ao luxo de pensar no outro. É um egoísmo, mas é um egoísmo criativo. (...) A participação do espectador é uma coisa gasta, velha [è tão bom quando as coisas são ditas de forma clara, sem hipocrisia: a auto-suficiência do artista foi um dos pontos que levantei no primeiro e já distante post sobre arte contemporânea; dispensados a crítica e o público, qual será o papel da arte?] (...) a minha opinião é a de que o espectador não faz a obra, no sentido de que ele, com a manipulação dele, ou com o olhar, ou o intelecto, recrie a obra, se aproprie da obra. Aqui também tenho uma barreira em relação aos curadores. O curador cria uma estrutura e ele passa a dizer que esse é o trabalho dele, mas não é. Ele passaria a ser o dono da obra ao se apropriar da obra? Ridículo. [Concordo plenamente: da mesma forma que os DJs passaram a pensar que são músicos, os curadores passaram a posar de artistas]O curador é uma necessidade desnecessária.

E qual a função do curador?
Barrio: Acho que o curador tem a idéia e certos trabalhos se adaptam àquela idéia ou vice-versa. A partir daí, ele organiza. É um intelectual, mas não um criador. Ele não tem poder criativo; tem poder de organizar.

E em que casos o curador reivindica esse poder?
Barrio: No Rio de Janeiro mesmo chega a ser ridículo, medíocre. Nós temos a Denise Mattar. Ela reivindica isso publicamente, nos jornais. E há outros casos, como a Sheila Leirner, que se considerava criadora com “A Grande Tela”, nos anos 80. O artista… passou a ser o empregado, o operário. O que ele tanto defendeu nos anos 70, hoje ele passa a ser isso.

Nos anos 70, o artista fazia seu trabalho em espaços que não eram institucionais e não precisava de curador. Como você vê essa mudança de movimentação?
Barrio: Eu trabalhei muito na rua, nas praças, praias, descampados. (...) Naquela época havia todo um movimento contra o sistema: Maio de 68 não estava tão longe, a guerra do Vietnã estava a mil, o Brasil estava vivendo a ditadura, tudo isso provocou a reação. (...) Aqueles grupos não admitiriam nunca um curador.

Como foi a experiência na Documenta [de Kassel]?
Barrio: (...) A Documenta é mais importante do que qualquer Bienal. Tem um enfoque muito mais agudo do que uma bienal, que deve, de dois em dois anos, criar um novo tema ou uma bobagem nesse sentido. Gostei da Documenta, só que foi uma luta. Quando cheguei para montar, já havia centenas de pessoas e artistas. Eu uso o espaço como meu ateliê e é ali que vão surgindo as coisas, com minha trajetória do passado, com o presente, essa amálgama do tempo… E para manter aquele processo foi uma coisa muito complicada. Cada dia era uma dificuldade… (...) Fiquei muito surpreso, porque, com uma ingenuidade saudável, eu achava que a Documenta tinha um poder diante dessa coisa comum e medíocre de uma galeria ou de uma pequena bienal, ou até de um museu, onde tudo é muito asséptico. Na verdade, ela é igual a qualquer coisa, é um mastodonte, enorme. Para ver tudo aquilo, três meses é pouquíssimo, então eu pergunto: qual será o fim dessas megaexposições? Eu participei de uma bienal em Fortaleza, a Bienal Ceará Américas, com 44 artistas. (...)

Essa questão da obra extrapolar seus limites também acontece na Bienal do Mercosul, na medida em que o vento leva o farelo de arroz para outras instalações…
Barrio: É, o vento (...) levantou o farelo, que parece que atingiu outras salas e isso provocou um senão… Porque, evidentemente, o trabalho “de arte” (...) é um trabalho limpo e pronto para entrar num salão de burguês. (...) eu fiz uma exposição numa pequena galeria no Rio de Janeiro e os marchands, no final, estavam… varrendo o chão, ensacando aquele pó de café, ou umas cabeças de peixe com sal grosso. Umas gambiarras, juntando tudo, porque estavam achando que a partir dali eles poderiam talvez vender, não sei. Mas aí se deram conta de que ninguém vai comprar aquilo, não é? Porque não é mais o todo, aquilo é um objeto. [Em termos: o artista conceitual Chris Burden criou um a instalação em que carregava uma bandeja com xícaras, um bule com café e outro com creme de leite: o bule com creme de leite foi vendido dez anos depois por milhares de dólares; o bule de café foi vendido mais caro ainda. Ou seja, o mercado chegou num grau de alucinação especulativa que supera qualquer fantasia. Aliás, Chris Burden é um artista que merece um post à parte]

1 comment:

Roberto Silva said...

A questão é: O Barrio vive de arte, pagas suas contas, come, bebe, veste, viaja enfim participa da economia como qualquer cidadão comum do mundo, com a arte que ele faz, contesta e produz? Tenho minhas dúvidas, pois sou artista também, só que trabalho com o suporte tradicional, com a linguagem - moderna ou contemporânea - não importa, seja qual for, o fundamental é que vivo profissionalmente da arte que faço. Talvez Barrio, como muitos que tem o privilégio de ir contra ao mercado e não precisar dele, seja docente em alguma universidade do governo, e sendo assim, com sua aposentadoria integral garantida...Não é mesmo? Barrio é manifestador e não um artista, pois artista vive da venda do seu trabalho e pronto...Milhazes, nesse contexto seria uma contradição no contemporâneo ou seria moderno? Que dúvida...!!!
Trigo, bacanas e pertinentes suas observações e reflexões sobre os rumos das artes contemporâneas...Parabéns.