Wednesday, January 30, 2008

Uma entrevista de Rodrigo Naves

Meus primeiros textos sobre arte contemporânea, no início de novembro, foram, por assim dizer, desinteressados. Eu comentava algumas exposições e levantava algumas questões, mas sem muita pretensão de levar adiante o assunto. Dois fatores me motivaram a aprofundar a investigação: a quantidade e o tom das reações, em geral, e um texto em particular enviado por uma leitora, em francês, intitulado Como se processa o reconhecimento da arte contemporânea. (Quem tiver curiosidade procure nos arquivos deste blog).

Um e outro sinalizaram de forma muito clara para mim que a situação era mais séria do que eu imaginava. Pois tanto as respostas que meus textos provocaram quanto o texto teórico em francês revelavam uma fragilidade impressionante na argumentação. Se este é o pensamento que a produção artística contemporânea é capaz de gerar, se este é o pensamento que sustenta intelectualmente esta produção, pensei, acho que o assunto merece uma investigação mais profunda. E me deidiquei um pouco a isso, não como crítico, mas por curiosidade jornalística.

Desde então venho apresentando algumas hipóteses que podem, naturalmente, ser contestadas - e podem, é claro, estar equivocadas. Mas devo dizer que muito do que tem chegado em forma de comentários e muito do que tenho lido reforça a validade dessas hipóteses.

Por exemplo, em relação à crítica de arte, tenho batido na tecla de que o crítico virou um escrevedor de catálogos, abrindo mão de seu papel de intermediário no sistema para simplesmente endossar o que este sistema designa como arte. Pois bem, acabo de bater os olhos numa entrevista do Rodrigo Naves, crítico e teórico mais do que respeitado no meio, e lá pelas tantas ele declara o seguinte (Revista Número, dezembro de 2005):

"(...) eu parei de fazer crítica de catálogo. Eu acho que é um espaço muito bom para quem está começando aprender a fazer análise de trabalhos, descrição e tal. Como nosso meio ainda é muito pessoal, quando eu passei a ter um pouco mais de nome, se você quiser, isso passou a ser uma encheção de saco. Porque daqui a pouco minha vida era pautada pelo que os outros queriam de mim. Sem dizer que acho que esse espaço para mim foi ficando desinteressante, porque dificilmente você pode criticar alguém num texto de catálogo. Foi ficando desagradável, queriam de mim apenas o endosso."

Acho que nem é cabotinismo dizer que ele confirma o que venho dizendo, e não apenas em relação à crítica, pois Naves vai além:

de fato o meio é muito pessoal. Então criticar é muito dificil. Então eu fico me perguntando se essas relações pessoais não vão, no futuro, gerar outros Portinaris. A atitude que se tem com Hélio Oiticica hoje é uma atitude tão laudatória quanto a de Mario de Andrade diante do Portinari. É claro que o Hélio é muito maior do que Portinari, mas não é possível lidar assim com o trabalho.
(...)
Estava na hora de pegar esses caras que já têm 60 anos, Fajardo, Zé Resende, Tunga, Waltércio Caldas, Iole de Freitas, Cildo Meirelles, por exemplo, e pegar um metro de cem centímetros e ver quantos centímetros eles têm. Eu cansei de ver teses, todo mundo faz teses sobre esses caras, mas em geral não há crítica. Eu acho que tem momentos muito irregulares nesses trabalhos e ninguém nunca falou disso. Falar talvez mas escrever.. eu pelo menos não tenho conhecimento. Eu acho isso um problema, você está criando cobras."
(...)
o que eu tenho me perguntado ultimamente é se os artistas mais significativos contemporâneos são maiores do que os artistas modernos mais significativos. E eu tendo a achar que não. Eu acho que ainda não há ninguém que tenha a densidade do Amílcar, do Volpi, do Camargo, Hélio, Lygia... Curiosamente, um argumento que eu mesmo uso, o meio ficou mais complexo, tem mais gente produzindo, mas isso ainda não produziu trabalhos tão relevantes se comparados com a época mais heróica em que as pessoas tinham que lutar muito para fazer o trabalho, porque enfim não tinha mercado, não tinha nada.
(...)
Se a arte puder contribuir com alguma coisa é para gente poder delinear mais ou menos como é que as coisas estão. Porque o problema é que as coisas perderam muito o contorno. Essa coisa que o Argan falava, de que não existiria a arte moderna sem a idéia de revolução, é uma afirmação meio tosca mas é muito verdadeira. Não que Monet, Manet ou Matisse fossem revolucionários, mas tinham um norte definido
(...)
acho o Jeff Koons um horror (...) No caso do Koons, por exemplo, o cachorrinho que fica no Bilbao, eu acho simpático até, mas acho que, de alguma maneira, faz meta arte. E isto não me interessa. Mostra que de alguma maneira qualquer coisa hoje em dia pode ser arte. Uma espécie de discussão no interior da arte sobre o kitsch, o gosto corrente, que é um pouco o limite que tem o Duchamp. Em resumo: eu acho que Duchamp precisa de um meio de arte para que ele funcione. Matisse precisa menos. (...) Eu não gosto de arte que discute arte. Eu prefiro arte que diz alguma coisa sobre as coisas

4 comments:

Daniel said...

Uma pequena questao,

ao menos acerca de certos artistas da arte contemporanea, em especial Warhol e o Duchamp, me parece existir uma questao interessante que poderia ser melhor analisado.

Em sua traducao do texto acerca de como se reconhecer uma obra de arte contemporanea, um texto que realmente nao explica como reconhecer, mas sim como se da o processo do reconhecimento da arte em geral, coloca uma questao interessante, a saber, a transgressão se tornou o princípio mesmo da arte.

Eu concordo com voce que esse "principio" em si mesmo é problematico, pois como podemos transgredir em um momento em que tudo busca transgredir? No fim, para transgredirmos numa epoca de transgressao, teriamos que nos tornar reacionarios! Somente assim é plausivel falarmos de uma "quebra" com os valores sociais vigentes (apesar que a galera que prega a transgressao formam grupos sociais com uma estrita estrutura hierarquica - Bourdieu entre outros poderia mostrar isso muito bem).

Porém, se observarmos a partir de um ponto de vista mais de "filosofia da historia", e aplicarmos este metodo no decorrer historico da arte, podemos ver que tal "principio" nao é tao equivocado.

A ideia nao seria de tomar tal principio como um guia pratico, no sentido de "Ah, eu tenho que criar uma arte transgressora, quebrar com todos os paradigmas, e so assim eu farei arte!", mas sim que toda arte esta em um eterno dialogo consigo mesma.

Partindo desta ideia, poderiamos melhor entender o surgimento da arte contemporanea, assim como poderiamos entender o surgimento de outras correntes artisticas na historia.

(Vou arriscar aqui na arte, pois nao conheco muito da historia, apesar de estar lendo mais) Se observarmos o Impressionismo, ele realmente quebrou com as tradicoes da epoca. Os criticos como o publico meio que viram aquilo como um ataque à "verdadeira" arte. Somente que alguns se convenceram, e viram que aquilo era ainda assim arte, e por ai vai.

A questao principal é que os Impressionistas nao desejaram diretamente quebrar com os padroes da epoca, mas sim desejavam expor ideias que tiveram atraves de estudos acerca da arte atual assim como de outras questoes. E de forma nao-intencional eles foram "transgressores" da epoca.

Wahrol e Duchamp, entre outros, ao meu entender (posso estar beeem equivocado) buscaram criar arte, mas nao de forma "transgressora" per se, mas sim de forma a explorar a si mesmo como artista, e nesse sentido, eles dialogaram com a tradicao artistica ate entao, e indo alem, "transgredindo" (mas no caso do Duchamp, ao menos, me parece ter sido realmente intencional a busca do dialogo com a natureza da arte).

Nesse sentido, a arte nao seria somente um tipo de expressao individual mas como tambem um "dialogo", uma "afirmacao". Porem, nao é necessario haver os longos textos querendo explicar e conduzir o leitor na cabeca do artista para existir tal "afirmacao" pela arte, mas somente a propria arte.

Nao poderiamos assim "explicar" o surgimento da arte contemporanea, e ao menos o valor de algumas de suas obras? (ainda que a maioria caia no que voce busca criticar, e se nao mesmo denunciar, aqui)

Peco desculpas pelo longo texto.

Aguardo mais textos seus!

Um grande abraco!

Daniel

Daniel said...

Ah!

PS: Fui numa exposicao onde tinha uma maquina que (de acordo com minha namorada) "cagava esculturas"(!).

Era uma simples maquina que derretia um tipo de plastico e que, ao plastico liquido cair em uma superficie, e pela sua rapida "solidificacao", formavam "esculturas" (que admito serem interessantes, hehehe) que depois eram vendidas (adivinha por quanto???): 3 mil dolares, cada.

La tambem pude ver uma maquina criada pelo seu artista contemporaneo preferido, o Damien Hirsch, que (novamente, de acordo com minha namorada) "parecia com uma barraquinha de 'fazer arte' la de Cabo Frio".

A sua tese do mercado na arte contemporanea tem "amostras" sociologicas amplas!!!

Hehehe!

Um grande abraco!

Daniel

mutantismos said...

tenho acompanhado teus textos e estou gostando muito. e concordo com a maior parte do que tu escreves.

mas não sou artista e conheço pouco de arte. gosto de ler, especialmente textos menos, digamos, "endossantes".

de qualquer forma, mesmo antes de ler este último texto, já tinha percebido a "crítica de catálogo", que nem pode ser considerada crítica, mas um texto.

abraço,
raul.

rosane chonchol said...

leitura importante:O Castelo da Pureza de Octavio Paz -