Tuesday, February 05, 2008

Marilyn no divã

Em termos práticos, são dois os objetivos da psicanálise: recuperar a capacidade de amar e recuperar a capacidade de trabalhar do analisando. Durante 30 meses, de janeiro de 1960 a agosto de 1962, a insone, neurótica e insegura Marilyn Monroe freqüentou o consultório do psicanalista Ralph Greenson tendo isso em mente. Mas o processo psicanalítico fracassou, sendo interrompido pelo suicídio da atriz, aos 36 anos: Greenson foi a última pessoa a vê-la viva e a primeira a vê-la morta. É a história desta relação - uma relação extrapolou e muito os limites da análise - que é contada no romance Marilyn - As últimas sessões, de Michel Schneider, que será lançado no Brasil pela Alfaguara.

Ele próprio psicanalista, Michel Schneider parece bem equipado para a tarefa. Conheço textos sérios seus sobre Baudelaire (Les années profondes, 1995) e o pianista Glenn Gould (Piano solo, 1988)- outros dois personagens de psicologia complexa - em que ele combina suas duas competências (de psicanalista e escritor). Em Maman (1999), o tema foi a relação de Marcel Proust com sua mãe. Mas foi com este livro sobre Marilyn que o autor despontou para a fama internacional, em 2006, quando foi finalista de vários prêmios, incluindo o Goncourt, e foi traduzido em 18 países.


Embora diversos personagens reais apareçam no livro - Kennedy, Truman Capote, Anna Freud, Elia Kazan, Arthur Miller - não se esperem revelações de bastidores nem passagens que reforcem o mito de deusa do sexo, nem teorias mirabolantes sobre a sua morte: Schneider está mais interessado na conturbada vida interior da atriz, na sua incapacidade de lidar com sua imagem pública, na angústia que a levou a viciar-se em barbituricos e anfetaminas e a entrar num processo auto-destrutivo sem volta.

Schneider também sugere uma relação entre a psicanálise e o cinema, um mundo dominado por intrigas e aparências. Vale lembrar que entre 1945 e 1965 diversas produções hollywoodianas tematizaram a teoria freudiana; não por acaso, a grande maioria dos diretores, produtores e estrelas à beira de um ataque de nervos freqüentavam divãs e consumiam barbitúricos rotineiramente. O clima intelectual em Los Angeles nas décadas de 50 e 70 era tão fortemente impregnado pela psicanálise que buscar um analista famoso era um passo quase imprescindível para qualquer ator ou atriz de sucesso.

(A história da penetração da psicanálise nos Estados Unidos, estimulada pela imigração de membros judeus do círculo freudiano, á fascinante; não é assunto para este post, mas vale lembrar que Freud, ao desembarcar pela primeira vez em Nova York para uma série de conferências, comentou: "Estamos trazendo a peste, e eles nem desconfiam").

Marilyn Monroe procurou a psicanálise pela primeira vez em 1955, por recomendação do diretor Elia Kazan e de Lee Strasberg, professor da escola de arte dramática Actors Studio, que a atriz freqüentava para melhorar a sua técnica interpretativa. O famoso "Método", de Strasberg, baseado nas teorias do russo Stanislawsky, estimulava os atores a interrogar suas vivências emocionais passadas para a construção dos seus papéis. Antes de Greenson, Marilyn já tinha sido analisada por duas mulheres, Margaret Hohenberg e Mariane Kriss - que chegou a interná-la numa clínica psiquiátrica. Kris era ligada a Anna Freud e também foi analista de Jacueline Kennedy, cujo marido, como se sabe, foi amante de Marilyn.

Greenson ainda não tinha 50 anos quando iniciou a terapia de Marilyn, mas já era considerado uma vedete do inconsciente em Holywood - entre os pacientes ricos e famosos de seu consultório em Beverly Hills estavam Frank Sinatra e Tony Curtis. A atriz foi ao seu consultório no início de 1960, no início das filmagens de Adorável Pecadora (Let,s make love), de George Cukor, em que contracenou com Yves Montand (foto). Durante os quase seis meses de filmagem, Marilyn abandonaria set todas as tardes para ir ao consultório do psicanalista. Para superar as crises de depressão e vencer as inibições e angústias que a paralisavam nos sets, ela tinha iniciado o primeiro tratamento cinco anos antes, em Nova York. Tornou-se, então, uma adepta apaixonada da psicanálise. Durante as filmagens, em Londres, de ... (The Prince and the Chorist, com Laurence Olivier), Marilyn chegou a ser acompanhada por Anna Freud.

Greenson não era um amador. Ele fez sua formação na Europa, no final dos anos 30 com Otto Fenichel, aluno de Freud, e na América publicou diversos ensaios sobre a técnica psicanalítica. Num desses ensaios, As drogas na situação psicoterapêutica, ele afirma: "Os psiquiatras e os médicos devem estar dispostos a ficar emocionalmente implicados com os doentes se esperam estabelecer uma relação terapêutica fiável"

Greenson foi membro fundador da Sociedade Psicanalítica de Los Angeles, onde se instalou aos 26 anos, e autor do manual Técnica e prática da psicanálise. Tinha menos de 50 anos quando começou a analisar Marilyn, e desde o começo ficou clara sua dificuldade em preservar os limites recomendáveis num processo psicanalítico. Num determiando momento, as sessões foram transferidas para a casa de Greenson, com o pretexto de fugir da atenção da mídia. Em seguida, ela passou a compartilhar regularmente as refeições da família Greenson e a passear com os filhos do analista. Um detalhe revelador, é que na geladeira dos Greenson havia sempre uma garrafa de champagne disponível para Marilyn, e ela tomava uma taça após as sessões.

A estratégia de Greenson foi desenvolver uma "terapia de adoção", isto é, tornar-se um substituto para as carências emocionais de Marilyn em relação aos pais. Os resultados foram desastrosos. No último ano da vida da atriz, ela liga para ele a qualquer hora, pedindo ajuda em relação ao contrato com a Fox e conselhos em relação ao seu círculo de amizades (um dos conselhos que ele deu foi vender a casa e comprar outra, mais perto dele). Marilyn chegou a declarar: "Finalmente eu o encontrei. É meu salvador. (...) Ele faz coisas formidáveis por mim. Ele me ouve. Ele me dá coragem. Ele me torna inteligente. Ele me faz pensar. Com ele, posso enfrentar qualquer coisa, não tenho mais medo". Por sua vez, após a morte da atriz, Greenson delcarou: "Ela tinha virado minha filha, minha dor, minha irmã, minha loucura". Abalado pela morte da paciente e crucificado pela imprensa, ele procurou um colega para retomar sua análise: a primeira sessão durou 12 horas.

Greenson, que definiu o fim da análise como o acesso do paciente à independência de pensamento, fez exatamente o contrário. Além de vê-la cinco ou seis vezes por semana, encorajou Marilyn a lhe telefonar todos os dias. "Porque ela estava tão sozinha e não tinha mais ninguém para ver, nem nada a fazer além da filmagem, se eu não a recebesse", desculpou-se o psicanalista, que acabou mergulhando nos medos e obsessões da própria paciente nos últimos e turbulentos meses antes de sua morte.

De certa forma, o livro sugere que Marilyn procurou na análise uma morte assistida, mas ela e Greenson acabaram se envolvendo, nada ortodoxamente, numa confusa simbiose emocional e intelectual, envolvendo paixão platônica e dependência mútua. Tecnicamente falando, Greenson interferiu na vida de sua analisanda de forma desastrosa, a ponto de usar sua empregada doméstica como uma espiã da intimidade da atriz. Em vez de trabalhar pela autonomização da paciente, Greenson a tornou totalmente dependente não apenas das sessões de análise como dos barbitúricos quer ele receitava.

Realidade e ficção se confundem: baseado numa pesquisa rigorosa, Schneider fundamenta com detalhes reais os vôos de sua imaguinação, produzindo no leitor um "efeito de verdade" em seu mergulho abismal na alma de Marilyn. "Como os cabelos de Marilyn, este romance é verdadeiramente falso", escreve o autor. "Eles não tinham um caso de amor, mas viveram uma história passional de domínio e dependência recíprocas, a mil léguas de distância da ortodoxia freudiana'', disse Schneider ao jornal Le Monde.

Ele conta uma história, mas também faz uma reflexão sobre as ilusões da fama e os limites da psicanálise, e sobre o conflito permanente entre realidade e representação. As aparentemente desordenadas idas e vindas no tempo associam episódios diversos da vida da atriz a uma cronologia freudiana, à medida que vêm à tona lembranças reprimidas da infância traumática, da ausência do pai, dos abusos sexuais etc. Verdades fragmentárias como as peças de um quebra-cabeça, que o leitor ajuda a montar.

Desta forma, Schneider proporciona ao leitor a oportunidade de acompanhar por dentro o processo analítico - no qual, como se sabe, é impossível mentir. Por isso, de certa forma, Marilyn - As últimas sessões é mais verdadeiro que muitos livros já escritos sobre a loura.

TRECHO DO LIVRO

Nova York, abril de 1955. O escritor Truman Capote assiste com Marilyn a um enterro.

- Preciso de uma tintura - diz ela. - E não tive tempo de cuidar disso.

Ela lhe mostra uma linha escura na risca que divide os cabelos.

- Pobre inocente que sou. Sempre pensei que você fosse cem por cento loura.

- Eu sou loura de verdade. Mas ninguém é naturalmente assim. Aliás, não me enche o saco.

Como os cabelos de Marilyn, este romance - estes romances emaranhados - é verdadeiramente falso. Contrariando a advertência obsoleta dos velhos fi lmes, ele se inspira em fatos reais, e seus personagens aparecem com seus nomes verdadeiros, salvo exceções que visam respeitar a vida privada de pessoas vivas. Os lugares são exatos; as datas, verifi cadas. As citações, retiradas de suas narrativas, notas, cartas, artigos, entrevistas, livros, fi lmes etc., são suas próprias palavras.

Quando muito, o falsário que sou não hesita em imputar a uns o que outros disseram, viram ou viveram, em lhes atribuir um diário íntimo que nunca foi encontrado, artigos ou notas inventadas, e em lhes emprestar sonhos e pensamentos que nenhuma fonte atesta.

Nesta história de amor sem amor, entre duas pessoas reais, Marilyn Monroe e Ralph Greenson, seu último psicanalista, ligados um ao outro pelos fi os do destino, não se procurará nem o verdadeiro nem o verossímil. Eu os observo ser o que foram e acolho a estranheza de uma e de outra fi gura como se ela me falasse da minha.

1 comment:

thebarbara said...

Olá, camarada.
Adicionei seu blogue aos favoritos. Por enquanto, apenas li esta resenha crítica do 'Marilyn no divã'. Pretendo ler outras coisas que escreves, claro. No mais, gosto de ler resenhas e saber que espécime de livros são publicados por aí.
De quando em vez passarei por aqui.
Amplexo,
B.