Sunday, January 13, 2008

O mercado é a nova Academia

Instituída oficialmente na França em 1648, pelo estadista Colbert e pelo pintor Charles Lebrun, durante séculos a Real Academia de Pintura e Escultura impôs à produção artística européia uma rígida ortodoxia estética. Os primeiros sinais de contestação do academicismo só apareceram na primeira metade do século 19, quando o projeto romântico levou para as chamadas belas artes a expressão de sentimentos individuais subjetivos, cabendo ao artista assumir um novo papel na sociedade. A progressiva afirmação de novos valores enfrentou, naturalmente, a resistência das estruturas materiais e simbólicas de poder montadas em torno da Academia - estruturas que, institucinalizadas, se aferravam à repetição esclerosada de fórmulas dogmáticas do passado.

Graças a artistas como Courbet (na imagem, Auto-retrato com cachimbo), a arte se libertou não apenas de imposições formais como também da subordinação a esferas alheias, como a religião e a política. Mais tarde o projeto moderno preservou essa autonomia, afirmando a arte como um terreno livre da instrumentalização e da burocratização do poder. Para quem tiver interesse, no livro As regras da arte, Pierre Bourdieu demonstrou quais foram as condições sociais e culturais que permitiram a emergência dessa arte autônoma, livre da religião, do mecenato e do Estado.

A produção artística contemporânea - sobretudo dos anos 80 para cá - também é vítima de uma esclerose. Amparados por teorias pós-modernas (de Hans Belting, Arthur Danto etc) sobre o fim da História da Arte e, sobretudo, pela saúde do mercado especulativo que os absorveu, os artistas abriram mão de qualquer ambição transformadora, e sua criação passou a ser pautada pelo gosto dos grandes atores do sistema - colecionadores, curadores, marchands - e limitada à recombinação irônica de linguagens do passado, numa imobilidade submissa.

O espírito de criação artística só sobrevive como simulacro: aproximando-se da moda e do espetáculo, a arte deixou de ser uma forma de reflexão crítica sobre a sociedade para se tornar mero produto de mercado. A arte se mundaniza: não é mais a obra que é fruída, mas o próprio artista que é transformado em estrela, se tornando ele próprio matéria-prima do sistema. Nega-se a cultura, o pensamento, a técnica, o saber fazer: o legado cultural de gerações passadas é incompreendido, transformado em depósito de recursos de linguagem que são usados fora de contexto e, portanto, sem qualquer significação

Por isso, num certo sentido, o mercado age hoje de forma semelhante ao do academicismo do passado: negando existência social a produções artísticas que não se enquadrem no seu gosto e na sua lógica. Em outras palavras, o mercado onipresente assume o mesmo papel simbólico da Academia do século 17, determinando o que tem ou não tem valor artístico. Houve um deslocamento de poder de julgamento do campo intelectual para o campo mercadológico, no sentido amplo da palavra: as principais galerias do país já contam com profissionais incumbidos da "criação da imagem do artista".

Falar em esclerose numa era que se caracteriza pelo pluralismo pode soar contraditório, mas esse pluralismo é de aparência: num parque de diversões, os brinquedos parecem muito diferentes, mas todos integram e alimentam o funcionamento do parque, nenhum contraria nem ultrapassa as suas barreiras. Na essência, a arte contemporânea abriu mão de sua autonomia e liberdade, abrindo-se à interferência das mais vulgares pressões comerciais (que o marketing da sofisticação e as altas cifras em jogo camuflam e justificam). Da busca pelo novo restam apenas sinais exteriores, talvez com a função de diferenciar a arte dos produtos de massa. Em relação ao conteúdo das obras, a produção artística dominante virou um reino de fantasias, sem qualquer conexão com a realidade.

Como se fabricam os mitos

No mercado de leilões, três empresas dominam 95% de todas as vendas: Sotheby's, Christie's e Philips (foi a Chistie's, aliás, que cunhou o rótulo "arte contemporânea", já na década de 70). Seus interesses se associam aos dos grandes colecionadores e marchands, e assim se cria uma rede virtual que, aproveitando-se da total desregulamentação da área, fabrica e desfabrica reputações com a mesma velocidade do show-business. Curadores, galeristas, teóricos e pseudocríticos referendam tudo, garantindo assim o seu lugar ao sol. É um sistema de autorização recíproca.

Exposições em determinadas galerias, artigos em publicações específicas, premiações estratégicas, entre outros fatores, são as etapas previsíveis de uma carreira de êxito internacional. Novos-ricos japoneses, chineses ou russos, além dos inevitáveis executivos americanos, fazem seu papel, gastando fortunas e levando à estratosfera a cotação de artistas altamente duvidosos. Até que a bolha especulativa estoure, é claro, como aconteceu nop começo dos anos 90.

Alega-se que sempre foi assim. Não é verdade. Antes o dinheiro corria atrás da arte, hoje a arte corre atrás do dinheiro, existe em função dele. Não por acaso, os principais centros financeiros do mundo são também os principais centros de compra e venda de arte. No passado, o fato de obras de arte serem compradas, vendidas e até mesmo expostas era "lateral", quase incidental em relação ao ato da criação: a arte importava como veículo para a expressão de idéias e sentimentos. Hoje a arte é "market friendly", virou um espelho do mercado financeiro: a lista dos Top 100 comprova que os artistas mais valorizados são dos países economicamente dominantes - os mesmos países que, na economia, importam pouco e exportam muito, impondo ao resto do planeta, especialmente ao que se chamava de Terceiro Mundo, seus valores e estilos de vida.

(Entre os 500 artistas mais negociados do mundo na temporada 2006/2007, figuram apenas dois brasileiros: será que o nosso sucesso internacional é mesmo tão grande quanto se fala? Sem contar que, muitas vezes, são os próprios artistas ou seus representantres que que colocam suas obras nos leiões da Sotheby’s, por exemplo: pagam uma taxa de 1.500 dólares para ter a imagem de uma obra sua reproduzida no catálogo, ou seja: estratégia de marketing).

Se um artista brasileiro desconhecido apresentar numa galeria uma cama desarrumada com lençóis sujos, garrafas de vodka vazias e camisinhas usadas espalhadas após uma noite de amor, vão dizer (com toda razão, aliás) que ele está querendo aparecer, que essa proposta é velha etc. Mas uma obra exatamente assim, da premiada artista Tracey Emin, foi vendida por 300 mil dólares. (Sempre me pergunto como essas obras são conservadas: os lençóis serão trocados com o tempo? E a noção de original, como fica?). Em outras áreas, sem a aura que envolve a arte, só haveria uma explicação para isso: lavagem de dinheiro.

(Vale lembrar, de qualquer forma, o caso do banqueiro Edemar Cid Ferreira, mecenas indiciado por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas. Edemar não tinha qualquer envolvimento com artes plásticas até 1993, quando assumiu a presidência da Bienal de São Paulo. Nos treze anos seguintes, período em que formou uma valiosa coleção, a Cid Collection, teve um poder enorme no meio artístico. Mesmo deixando de lado acusações pouco verossímeis de envolvimentos prévios com um traficante americano apelidado Capitão América e com PC Farias, parece certo é que Edemar usou as artes como forma lucrativa de expansão de suas atividades: “A cultura é um abre-alas”, ele chegou a declarar. “A gente vem atrás fazendo negócio”).

Nada do que escrevi acima exclui o fato de que existem artistas de enorme talento, que conservam uma relação autêntica com sua criação, alheios a todas essas questões. O que descrevi foi um aspecto objetivo da grade geral em que opera o sistema da arte. Quando cito este ou aquele artista, é para ilustrar algumas análises, e não com a intenção de desqualificar em bloco a produção artística contemporânea - o que aliás seria uma perda de tempo.

Por exemplo, uma vertente importante dessa produção se baseia na surrada idéia da transgressão de valores morais e sistemas de crença como recurso para atrair a atenção. Para ilustrá-la posso citar as obras de Andres Serrano, que agridem a imagística cristã, mostrando freiras se marturbando, o corpo de Cristo num saco de necrotério ou, na sua obra mais famosa, Piss Christ, um crucifixo mergulhado na urina do artista (kimagem acima). Para mim isso tudo é um lixo, mas não escrevo para manifestar um gosto pessoal; se fosse assim nem perderia meu tempo com esse tipo de obra, só escreveria sobre Picasso, Matisse, Henry moore, Giacometti etc. Mas cito Serrano aqui com interesse investigativo, como ilustração de um dos caminhos que a arte tomou.

No fundo, é um tipo de produção muito mais relacionada com a publicidade do que com arte, pois é baseada na provocação mais do que na pretensão autoral. Diante disso, ninguém pode duvidar que a técnica e o talento se tornaram dispensáveis para o sucesso do artista contemporâneo (são considerados até conceitos passadistas) e que a esquisitice e a extravagância planejadas se fixaram como um dos padrões do pluralismo pós-moderno. Existem outros padrões, nos quais se enquadram instalações, intervenções e performances cada vez mais entediantes, ou ainda, obras que apostam na total opacidade de sentidos.

Isso se deve em parte ao fato de que a formação do artista se empobreceu. A experiência no ateliê, o sentido de ofício, a laboriosa construção de uma linguagem e o domínio persistente da expressão foi substituído pelois cursos em escolas e faculdades - que, também integrados ao sistema da arte, tutelam a produção dos alunos e indicam que caminhos eles devem seguir. Não existe mais tempo de maturação: o desejo de sucesso antecede o trabalho.

A subjetividade do artista diminui na mesma medida de sua autonomia e de uma marca pessoal, porque o sistema induz a uma identificação com as tendências internacionais. Na pressa de atender às emandas do circuito, o jovem artista ou saqueia ou desqualifica as experiências anteriores à sua. O mercado aceita, assimila e vende sem culpa, porque desapareceram os crivos da crítica: o que se faz hoje na imprensa é guia informativo, porque uma crítica verdadeira atrapalharia a dinâmica do sistema; enquanto, na universidade, os textos sobre arte são deliberadamente ininteligíveis, seja por estratégia de exclusão, seja por incapacidade pós-moderna de se escrever com clareza.

Também parece inquestionável que a cotação de uma obra não tem mais qualquer relação com suas qualidades intrínsecas, mas sim com os lugares por onde passou, com quem a justificou, dos marchands e galerias aos grandes museus, tudo orientado para a valorização e o lucro. Sintomaticamente, o foco das discussões sobre arte passou da estética para a a matemática financeira.

É assim que se fabricam os mitos. Ironicamente, muitos artistas contemporâneos, como Serrano, passaram a se parecer com os santos, isto é, somente com muita fé (ou deliberada má-fé, no caso dos agentes do mercado) se pode acreditar no valor das suas produções.

Por contestar os dogmas religiosos de sua época, o filósofo Espinosa foi um dia esfaqueado pelas costas. Ele continuou a usar a camisa furada, e quando lhe perguntavam por quê, respondia: para não esquecer como é perigoso pensar.

2 comments:

Guto Brinholi said...

Olá Luciano, quero deixar aqui 2 experiências na área musical que ao meu ver corroboram com seu texto sobre o estado atual das artes:
Cena 1 - aula na gradução de Música Popular na UNICAMP, disciplina "Canção na Música Popular": como alunos, somos incentivados a mostrar nossas canções, para posterior análise e debate entre 2 professores (Ney Carrasco e Ulisses Rocha)e alunos. Ao tocar uma de minhas canções (não tenho gravação, do contrário lhe enviaria) tive o seguinte comentário do professor Ney Carrasco ( e não foi irônico): "é interessante, mas não dá pra tocá-la num barzinho não é?" O que se seguiu foi uma discussão de como compor pensando no que o mercado pode absorver...frequentei mais algumas aulas e fiquei profundamente desapontado, pois imaginei que a universidade deveria ter outra função relativa a criação artística.
Cena 2 - numa discussão sobre uma pesquisa interdisciplinar (engenharia, música, computação) que poderá acontecer na USP (ainda este ano), com possível incentivo da FAPESP (relativa a criação de ferramentas composicionais via computador) tive o desprazer de presenciar doutores, doutorandos, mestrandos etc.. discutindo qual seria o título mais adequado para que a FAPESP aceitasse a pesquisa, usando termos como "precisamos pensar palavras sexies (isso mesmo) que tragam interesse por parte dos analistas da FAPESP. Não preciso dizer que o conteúdo das pesquisas ficou para ser debatido em futuras reuniões.
Enfim, espero que tenham ficado claros os exemplos ( e o perigo que representam, ou estou enganado?) e possamos continuar essa conversa. Grande abraço

Fábio Carvalho said...

pertinente, necessário e oportuno o seu texto!
abraços
Fábio
http://www.fabiocarvalho.art.br/