Wednesday, February 06, 2008

Premissas para um livro sobre arte contemporânea


Sentimentos contraditórios assaltam hoje qualquer pessoa medianamente interessada em artes plásticas. Por um lado, existe uma justificada euforia com o crescimento do mercado e do interesse pela produção artística contemporânea, alimentado, no caso brasileiro, pela assimilação de novos artistas ao circuito internacional. Por outro lado, existe também um sentimento generalizado de mal-estar diante desta mesma produção, caracterizada pelo pluralismo, pela falta de rumos definidos, pela despretensão e, principalmente, pela aliança incondicional dos artistas com as instituições e o mercado - as mesmas instituições e o mesmo mercado que os diversos movimentos artísticos dos primeiros 80 anos do século passado se empenharam em ontestar.

De tal modo que, hoje, o sonho de qualquer jovem artista é ser absorvido pelo sistema, ter cotação internacional, expor nas galerias e museus da moda, aparecer na mídia. Desapareceu qualquer projeto crítico, não apenas em relação às condições de funcionamento do sistema da arte, mas em relação à própria sociedade como um todo - sociedade, como se sabe, cada vez mais dominada pelos valores do neoliberalismo e da globalização que representam a realização extrema de tudo aquilo a que os artistas se opunham num passado recente.

Vivemos um momento confuso e cheio de nuances. O legado das grandes tradições artísticas do passado - incluindo a tradição do Modernismo - é desprezado, ou quando muito, distorcido como pastiche, em reapropriações puramente formais, pelas correntes mais representativas da arte contemporânea. Esse processo começou em algum momento entre o final dos anos 60 e o início dos 80, quando uma série de deslocamentos simbólicos sutis mudou a percepção do papel da arte e do artista na sociedade. Não por coincidência, isso se deu no mesmo momento em que uma onda politicamente conservadora tomou conta do mundo, com Ronald Reagan na América e Margaret Thatcher na Inglaterra, beneficiada pela autodestruição do bloco soviético,
pela queda do Muro de Berlim etc.

Essas transformações geopolíticas radicais - dentro de cujo ambiente ainda vivemos - encontrou sua justificação teórica no livro "O fim da História e o último homem", de Francis Fukuyama, cientista político e funcionário do Departamento de Estado americano. Por sua vez, as transformações no meio da arte também encontraram uma tradução teórica análoga nas obras de diversos críticos, sobretudo Arthur C.Danto e Hans Belting, que decretaram o "fim da História da arte" (sintomaticamente, nenhum dos dois faz qualquer menção a Fukuyama, mas os paralelos são evidentes).

Um e outro endossaram o novo paradigma da arte, caracterizado, entre outros fatores que serão analisados mais tarde, pela redistribuição de papéis dentro do sistema (entre artista, curador, crítico, marchand e instituições), pela reversão de processos radicais promovidos pelas últimas vanguardas, nos anos 60 e 70 (por exemplo, em relação à negação dos museus, da mercantilização da arte e da própria noção de autoria) e pela assimilação total de uma lógica especulativa e mrcadológica que aproxima a arte da moda, da publicidade e das imagens comerciais da cultura de massa (mas a que preço?). Tudo isso se insere, é claro, no debate sobre o pós-moderno, a diluição das fronteiras culturais e o fim das grandes narrativas, que também será analisado mais à frente.

Mas alguns elementos do projeto moderno foram seletivamente preservados nesse novo paradigma. Em meio a mudanças estruturais profundas, reforçou-se a imagem do artista como alguém ainda engajado numa agenda experimental e transformadora - apenas na aparência, é claro, já que este mesmo artista vendeu a alma para o sistema da arte que lhe confere status de estrela. Apagam-se todos os vestígios de associação deste impulso experimental às raízes profundas da História da arte e de sua missão, por assim dizer, filosófica - raízes que ainda estavam claras no Modernismo.

O artista deixou de ser um contestador para ser um provocador: basta observar as obras do inglês Damien Hirst e do americano Jeff Koons, dois dos mais valorizados nomes no mercado internacional hoje. Um e outro fazem releituras de procedimentos do passado, mas esvaziadas de significação estética ou histórica. Um e outro sequer encostam o dedo em suas obras, produzidas por uma equipe de assistentes sob sua orientação. Um e outro assinam peças que valem, ou melhor, são compradas e vendidas, por milhões de dólares.

Nesse contexto, parece mais do que necessária a atualização do debate sobre o estado da arte contemporânea, sobre o novo papel dos museus e galerias, sobre as dinâmicas do mercado, sobre o lugar e a função que o artista pode ou deve assumir dentro de uma sociedade democrática baseada no consumo e na redução de todas as esferas da vida à economia.

O objetivo deste livro é investigar alguns aspectos deste processo, que começou há mais ou menos 30 anos e ainda está em curso. Como o número de artistas em atividade no Ocidente chega às dezenas de milhares, seria impossível fazer um balanço exaustivo da produção contemporânea. Citarei apenas aqueles artistas "sintomáticos", representativos de determinados fenômenos, como ilustração de algumas teses. Sei perfeitamente que os artistas bem-sucedidos correspondem a uma fração mínima da classe; no Brasil então nem se fala: excluídas exceções que se contam nos dedos, uma grande parcela dos artistas brasileiros vive precariamente, e uma parcela maior
ainda nem consegue chegar na periferia do sistema da arte, expondo em coletivas etc - e com eles me solidarizo. Contudo, para a investigação aqui proposta, foi preciso ir nos exemplos mais típicos do modelo vigente, desmontando fraudes e embustes que fazem sucesso, porque é nesses casos que se manifestam os problemas e contradições mais graves do sistema.

(Na ilustração, o artista contemporâneo Matthew Barney)

4 comments:

Tales said...

É um projeto grandioso mesmo esse. Mas, por falar nisso, tem um livro do Antonio Cicero que toca nesses temas.

Penso que o papel da arte na era contemporânea se estreitou diante do recuo de uma estética que aponte pra um "télos". No entanto, a arte, seja ela modernista ou não, não deve abandonar o impulso mimético de expressar a vida mutilada do presente. Nesse sentido, ela deve ser sempre crítica (por consequência, crítica da racionalidade instrumental). Mas não vejo tanta diferença quando você fala entre ser provocadora ou contestadora. De qualquer forma, a arte se fortalece quanto mais distante ela fica de seu barateamento (não digo da perda da aura), mas de sua identificação com o simples mercadológico. P.S.: Gosto muito de uma citação que Adorno faz de Ernst Schoen, que diz que a obra de arte de alto valor deveria ser como o fogo de artifício que brilha no instante de sua realização, para se apagar depois.

Pedro Leonardo Magalhães said...

Vejo não só o reflexo do neoliberalismo na arte, como também no comportamento das pessoas, isso é obvio.

Como você disse a arte contemporeanea destroi tudo o que o modernismo contruiu. Como tambem podemos perceber que a mulher destroi muito o que ela adquiriu na luta com o feminismo, a sua preocupação em casar virgem ou sair da casa dos pais quando se casar é uma ideia do retrocesso não só artistico como social q o mundo e as pessoas estão entrando.

E tudo é um ciclo, o meio artistico temos essa grande quebra de ideologias modernistas e isso reflete e é reflexo do modo de pensar das pessoas. E a busca dos valores passados se confundem com a razão e emoção, a ciencia e fé. É um mundo de paradoxos e conflitos que querem se entender harmonicamente como se fosse parte do cotidiano.

Em seus pensamentos posso ver que talvez aponte o motivador da decadencia artistica e da louvável estetica construida no modernismo. O mercado. E talvez possamos fazer uma associação do que você sente com uma fuga ao socialismo, talvez eu esteja errado, não sei. Mas pensando assim a arte e muito menos nós não podemos enchegar dias melhores.

Rick said...

Compartilho de muitas de suas críticas ao chamado "pós-modernismo", especialmente quando o mesmo se transforma em "anti-modernismo" e em linhas gerais, acho que questionar as "grandes narrativas" pelo que elas tinham ou tem de mecanicistas ou pretensão de expressar a verdade, não pode significar, como tem sido feito, substitui-las por pequenas iniciativas desarticuladas e despolitizadas. ( ver por exemplo, a crise atual do chamado quarto setor e do Fórum Social Mundial). Também acho, que este processo se acirrou em meados da década de 80, e "coincidentemente" com uma tentativa de desprestigiar a história ( e a história da arte). Entretanto, continuo achando que ao fazer a crítica da arte e dos artistas contemporaneos, devemos levar em conta as características do mercado contemporaneo, que são muito diversas ( em termos de poder) da época das vanguardas modernistas, cujos artistas tinham elementos de articulação cultural e política, que os artistas contemporaneos não tem (e muitos não querem mesmo ter, estando totalmente conformados em sua relação com este mercado, ainda que em posição marginal ou excepcional). Acho um bom caminho, a reflexão crítica e a valorização da história de forma coletiva, a produção artística coletiva, e mesmo a organização (e curadoria) coletiva, pois só desta forma ( coletiva) se poderá enfrentar um inimigo (este mercado)tão poderoso. Um abraço.

Daniel said...

Um pequeno ponto acerca do Danto.

Me parece que o Danto, apesar de seus ultimos escritos, é o produto final mais fiel possivel da analise da arte vinda filosofia seguidora de Wittgenstein. Sua ideia nao é que a arte teria "acabado", mas sim que a possibilidade de se definir a arte atraves de um grande esquema conceitual substantivo esta fadada ao fracasso. Nesse sentido a "arte" acabou como a "Arte", ou seja, acabou-se possibilidade de dizermos o que é arte, de termos uma definicao necessaria e suficiente. O que existiriam agora seriam nada mais que meros objetos artisticos, nao sendo necessario mais sua agrupacao em termos de uma filosofia da historia da arte, no caso, de um tipo desdobramento do conceito da arte à um ponto onde conseguiriamos ver a propria essencia da arte.

Me parece que a ideia dele é menos afirmar o poder de um grupo de pessoas que possam afirmar o que é arte, e sim afirmar que ha uma impossibilidade de definirmos a arte.

Alias, em seu metodo, ele compra simplesmente a ideia de todo filosofo analitico, que certos atributos sao dados de forma nominal, ou seja, à cada objeto. E nesse sentido, ao ele buscar investigar o que é a arte, ele buscou menos julgar se algo é ou nao arte, e sim partir do ponto de vista comum acerca do que sao considerados objetos artisticos. Ele simplesmente "admitiu" o que era chamado de arte em seu tempo, e nao que ele buscou justificar o que seria arte, pois se ele buscasse justificar que a arte contemporanea fosse arte, ele colocaria os bois na frente da carroca, visto nao haver uma definicao ainda do que seria arte, e que seu objeto de estudo era encontrar tal definicao.

Bem, minha leitura do Danto pode estar errada, mais me parece que ele seguiu mais ao menos as linhas expostas acima.

Achei o texto muito interessante, e acredito que um livro sobre arte da forma que voce tem desenvolvido aqui em seus textos é muito interessante de ser debatido no atual contexto.