Friday, March 07, 2008

Arte, mídia, bizarrices

Ontem, andando pela Rua Primeiro de Março, me deparei uma pilha de manequins sem cabeça amontoados num carrinho de mão. Poderia ser uma instalação. Mas, pensando bem, até um manequim isolado, até o carrinho de mão vazio, até uma fotografia fora de foco do carrinho de mão poderiam ser designados como obras de arte, expostos numa galeria etc. Nada impede.

Não é uma ironia nem um exagero: o vale-tudo na arte é uma realidade que ninguém pode negar de boa fé. Agora mesmo, na Austrália, o artista Tim Patch está concorrendo ao Archibald Prize, o mais importante prêmio do país. O detalhe é que Patch pinta com o pênis. O chato é que isso não é sequer chocante, assombroso ou ridículo. É apenas triste, ou talvez nem isso: já abusaram tanto do público da arte que ele ele ficou anestesiado, irremediavelmente indiferente.



Fico me perguntando que conspiração de circunstâncias tornou possível para o mundo da arte chegar ao estágio que chegou nos últimos 30 anos, depois de mais de um século de estimulantes transformações - digamos, de Manet ao final da década de 1970.

Pode-se argumentar o seguinte: esses artistas que pintam com o pênis, deixam cachorros morrer de fome, trucidam peixinhos dourados no liquidificador etc são apenas fenômenos de mídia, que nem vale a pena se dar o trabalho de desqualificar.

Em termos: primeiro, porque os artistas hoje considerados sérios pelo sistema (tomando-se como parâmetro suas cotações no mercado internacional, já que este é o único parâmetro que resta) também são, fundamentalmente, fenômenos mediáticos. Em nome de qüe critérios se pode olhar com desdém para um quadro pintado com o pênis e considerar grande arte uma cabeça de boi em decomposição, uma caveira cravejada de diamantes ou um tubarão cortado ao meio? Por qual régua uma cama desarrumada cheia de camisinhas usadas é superior ao cachorro que morre de fome?

Segundo, porque, se a coerência ainda tem algum valor, no cenário pluralista em que vivemos devemos reconhecer como arte qualquer coisa que o artista designe como arte. Não dá para se beneficiar da mídia e do relativismo pluralista somente quando interessa: aqueles artistas que freqüentam as colunas sociais e os aeroportos internacionais dependem da lógica do espetáculo tanto quanto seus colegas que conseguem seu espaço na mídia por conta de bizarrices.

4 comments:

rosane chonchol said...

eu gosto, acho engraçado

Emilio F.C. said...

Pois é...É engraçado...Só que se contar essa piada de novo ninguém ri...Eu tenho pena...Não tem conteúdo e quer aparecer no grito...

rosane chonchol said...

é mesmo, mas que é engraçado, é

Emilio F.C. said...

Poderiam elevar as revistinhas de piadas mensais ao status de literatura universal...também são muito engraçadas...