Saturday, March 01, 2008

Arte por designação


A arte chegou num tal estado de confusão que uma mesma fotografia pode aparecer na revista Caras ou ser exposta numa galeria de arte. A conseqüência disso é uma incerteza absoluta, ainda que inconfessável, sobre a qualidade e o valor das obras no mercado da arte contemporânea. É um mercado que não se baseia mais em características inerentes ao objeto, nem no conhecimento, no talento ou na técnica do artista, nem na aceitação de qualquer sistema hierárquico ou normativo. Ele se baseia na cumplicidade das redes de relacionamento e na confiança de que o interesse comum de seus diversos atores manterá o sistema em funcionamento.

É compreensível que, nesse contexto, o sistema da arte rejeite qualquer reflexão crítica, qualquer coisa que ameace questionar, mesmo de leve, a manipuladora "lógica da designação" que impera no mundo da arte hoje.

Levando-se em conta que...

1) foram abolidos os valores e desqualificadas as buscas que fizeram a História da arte se movimentar até, mais ou menos, o final dos anos 70;
2) foi instaurado um relativismo de julgamento que democraticamente dá voz a todos e elimina as barreiras entre a alta cultura e a cultura de massa;
3) foi decretada a falência do projeto moderno e sua "tradição do novo",

...a arte passou foi assimilada a uma dinâmica de especulação/espetáculo que a transformou a arte não somente numa mercadoria - pois é claro que há muito tempo ela já era, também, uma mercadoria - mas numa mercadoria como outra qualquer, isto é, com um status que hoje é mais ou menos equivalente ao da moda ou do show business. Com uma peculiaridade sutil: sendo uma mercadoria que não serve para nada, nem pode ter seu valor objetivamente aferido, ela depende única e exclusivamente da designação dos agentes do sistema para ganhar identidade e valor como arte.

Sempre foi assim, pode-se argumentar: em todas as épocas, coube ao sistema da arte estabelecer o que é e o que não é arte (ou boa arte). Em termos. Primeira diferença: as regras eram explicitadas, de forma que, tanto na época da pintura acadêmica quanto ao longo dos diferentes movimentos de ruptura que caracterizaram o Modernismo, podia-se entender, mesmo estando de fora do sistema, por que determinado artista era bom e outro era ruim. Por exemplo, no primeiro caso, o artista acadêmico precisava se adequar a determinadas regras (tema, composição, uso da cor etc); no segundo, a originalidade passou a ser um requisito para o êxito do artista moderno

Segunda diferença, esta mais fundamental: existia entre os agentes do sistema embate, atrito, dissenso, o que gerava movimentos dialéticos e criava filtros e obstáculos diversos, que o artista precisava superar antes de triunfar. Artistas, críticos, curadores, galeristas, diretores de museus, marchands etc estabeleciam entre si relações de conflito criativo. Hoje o que se verifica é um consenso inédito, em que todos os atores do sistema se dão as mãos com a bênção do mercado, isto é, dos grandes colecionadores (incluindo corporações) e das instituições-griffes.


Muitas vezes, aliás, o mesmo agente acumula vários papéis: o grande colecionador é também sócio de uma casa de leilões e diretor de uma fundação que promove novos artistas. De forma tal que o jovem talento que ele "descobre" (ou inventa?) hoje será revendido amanhã com margens de lucro altíssimas. Como o mercado da arte é totalmente desregulada, com operações feitas muitas vezes em segredo, trata-se de um território livre para os mais diversos tipos de manipulação. Além disso, se em qualquer outro mercado especulativo (como, digamos, a Bolsa de Valores), existem mecanismos inibitórios da manipulação e todos acreditam na existência de algum lastro por trás das oscilações de preços, na arte sequer isso: a obra é o que é, e o que faz sua cotação disparar ou desabar é especulação em estado puro, já que ninguém mais pode explicar de forma convincente por que uma prateleira cheia de pílulas coloridas (obra acima, de Damien Hirst) pode valer 19,1 milhões de dólares.

Da mesma forma, é difícil acreditar que existem motivos racionais para a obra ao alto, uma espécie de instalação de Maurizio Cattelan que mostra o Papa João Paulo II após ser atingido por um meteorito (nossa, que idéia genial!) ter sido vendida, em 2001, por 800 mil dólares e revendida, em 2004, por... 2,7 milhões - e isso porque instalações são obras difíceis de vender!

(O fato é que, abolidos todos os cânones, ninguém pode afirmar com segurança o que diferenia uma obra boa de uma obra ruim. Aliás, ninguém sequer tenta: em toda a cobertura sobre a participação do Brasil na ARCO, não houve quem ousasse escrever que determinada obra era superior a outra - talvez porque uma hierarquia baseada em qualidade esteja mesmo superada, já que o que conta hoje é exposição na mídia e cair nas graças dos mandarins do sistema.)

O que explica, então, esses disparates? Justamente, a existência de um acordo ou contrato tácito entre os agentes do sistema. O mercado de leilões, por exemplo, é totalmente dominado por apenas duas casas, Sotheby's e Christie's, que sozinhas controlam 70% das operações - a terceira colocada, a Philips, responde por apenas 1,87%. Hoje as duas funcionam segundo os métodos mais modernos de administração com a meta de maximizar os lucros.

Em todas as épocas, o artista dependeu de diferentes instâncias de legitimação. Mas nunca antes na História estas instâncias se descolaram tão completamente de qualquer pensamento consistente sobre a arte, sua natureza e sua História, para se assumir sem o menor constrangimento como uma estrutura fundamentalmente especulativa, na qual todos se dão as mãos. Não é à toa que hoje, em qualquer Bienal ou feira, bem como no ranking dos mais valorizados, um terço dos artistas é chinês - reflexo direto da saúde econômica da China, sem qualquer significado estético.

Que marchands e galeristas pensem na arte fundamentalmente como negócio é compreensível; que curadores, diretores de museus, representantes da esfera pública e críticos também o façam me parece mais preocupante. Mas o mais grave é quando o próprio artista adere incondicionalmente às regras do jogo. Especialmente porque, apesar do propalado crescimento da arte brasileira no mercado internacional (já temos dois artistas contemporâneos presentes entre os 500 mais vendidos do mundo, afinal de contas), estatisticamente 99% dos artistas nacionais não devem ganhar com a arte o suficiente para viver. Uma parcela significativa, seguramente, continua se dedicando à arte por amor, mesmo sabendo que jamais será assimilada por um sistema de cartas marcadas, no qual o curador da Bienal de São Paulo debocha abertamente do "quadro na parede"; mas provavelmente outra parcela, cinicamente pós-moderna, especula com a possibilidade de seus peixinhos dourados, maçãs, paçocas e cachorros mortos serem adotadas como o último grito da moda.

7 comments:

Daniel said...

Oi Luciano.

Excelente artigo! Dificil de discordar de uma unica palavra dita.

Gostei principalmente de sua comparacao entre a arte contemporanea, moderna e pre-moderna.

Abracos.

Daniel

Daniel said...

PS: A primeira imagem, a do papa esmagado pela pedra, nao esta aparecendo (ao menos daqui nao aparece).

Abracos

Dionisios said...

olha.
rapaz, achei voce pelo cronopios.
lerei mais seus textos.
voce tem um bom olhar e faz escolhas esteticas muito boas.
http://dionisios.zip.net

phsgallina said...

Interessante o artigo e, de fato, concordo com muitos dos pontos nele apresentados, não obstante pelo tom adotado me pareceu mais uma reclamação da transição da designação de arte pelo mercado e pelas "panelinhas" a ele adjacente da antiga designação saídas dos Grandes centros acadêmicos e academicistas do que de fato uma crítica a esse preocupante movimento que tenta valorizar tudo, inclusive a subjetividade, em moedas.

phsgallina said...

Interessante o artigo e, de fato, concordo com muitos dos pontos nele apresentados, não obstante pelo tom adotado me pareceu mais uma reclamação da transição da designação de arte pelo mercado e pelas "panelinhas" a ele adjacente da antiga designação saídas dos Grandes centros acadêmicos e academicistas do que de fato uma crítica a esse preocupante movimento que tenta valorizar tudo, inclusive a subjetividade, em moedas.

Small Town Heores said...

Interessante o artigo e, de fato, concordo com muitos dos pontos nele apresentados, não obstante pelo tom adotado me pareceu mais uma reclamação da transição da designação de arte pelo mercado e pelas "panelinhas" a ele adjacente da antiga designação saídas dos Grandes centros acadêmicos e academicistas do que de fato uma crítica a esse preocupante movimento que tenta valorizar tudo, inclusive a subjetividade, em moedas.

rosane chonchol said...

eu curto esse Papa