Friday, March 14, 2008

As regras do jogo

Desde que comecei a escrever sobre arte, deixei claro que minha intenção aqui não é fazer crítica, mas investigar de que maneira a arte contemporânea chegou ao estado atual - o que implica refletir sobre a dinãmica do mercado, o funcionamento das instituições, a fundamentação teórica do que está sendo feito etc. A maioria das pessoas que entrou em contato com o blog entendeu isso - o que inclui artistas consagrados, como Gonçalo Ivo, Gianguido Bonfanti, Ivald Granato, Antonio Veronese etc. Não conheço pessoalmente nenhum deles, nem sequer elogiei seus trabalhos: nossa comunicação se estabeleceu exclusivamente por meio de idéias, do sentimento comum de que é necessário pensar criticamente sobre determinadas questões.

Centenas de outras pessoas têm enviado mensagens com o mesmo espírito: muitas vezes, aliás, discordando do que escrevo, contestando o que digo, trazendo novas informações etc. Isso se chama diálogo: comunicação que enriquece as duas partes e as faz pensar. Por tudo isso, não canso de me surpreender quando chegam manifestações hostis, sobretudo de pessoas que, até por dever de ofício, deveriam gostar do debate. Essa negação talibã do pensamento traduz duas coisas: autoritarismo e burrice. Não sei qual das duas é pior.

Essa atitude não é nova: já em 1998, dez anos atrás portanto, quando Gonçalo Ivo declarou no Segundo Caderno do jornal O GLOBO que no Parque Laje os professores não ensinavam mais pintura "simplesmente porque não sabiam pintar, porque nunca aprenderam, porque o aprendizado de uma linguagem é trabalho de toda uma vida", o diretor da Escola de Artes Visuais do Parque respondeu que a escola formava artistas e não pintores, aquarelistas, desenhistas, escultores; que a época da especialização em técnicas havia acabado, que a qualidade manual havia sido substituida pela tecnologia. Consta que, nos dias seguintes, apareceram na piscina do Parque vários sapos com o nome de Gonçalo amarrado na boca...

O argumento do diretor é, evidentemente, uma idiotice, mas pelo menos ele falou com clareza. Se é esta a tese consensual hoje, que os artistas venham a público defendê-la: ninguém precisa mais de técnica, de talento, de vocação, nada. Aboliu-se de vez a manualidade, a arte virou outra coisa. Mas que coisa será essa? É isso, justamente, o que venho tentando entender aqui.

Não acredito que exista esse consenso, de qualquer forma. O que existe, ao contrário, é desinformação, confusão, uma atmosfera enevoada na qual muitos se perdem por inocência e da qual uma minoria se aproveita muito bem.

O certo é que, sem clareza não se chega a lugar nenhum. Por exemplo, no começo do mês aconteceu a feira ARCO, em Madri: o governo brasileiro gastou 1 milhão de euros para enviar uma representação oficial de mais de cem artistas. Reconheço o valor de muitos desses artistas, considero mesmo alguns deles geniais. Por exemplo, admiro bastante Abraham Palatinik, que levou à ARCO a obra abaixo:
Mas várias questões fundamentais sobre o evento não foram sequer formuladas, muito menos respondidas: isso faz parte de que política cultural? Quais são os critérios e estratégias dessa política? Que concepção da arte norteou a escolha dos artistas e galerias? Como foram escolhidos os dois curadores? O trabalho deles foi submetido a algum tipo de controle ou avaliação? O que se esperava da ARCO em termos de retorno? O resultado foi satisfatório? Qual a qualidade das obras apresentadas lá? Como a crítica local reagiu à participação brasileira? Qual foi o resultado financeiro? Que obras foram vendidas, e por quanto? Qual a contrapartida ofereida pelas galerias privadas que se beneficiaram de dinheiro público? Qual deve ser o papel do Estado e qual deve ser sua relação com os agentes privados?

Se essas perguntas fossem respondidas de forma objetiva, os próprios artistas seriam beneficiados: falhas seriam corrigidas, mecanismos seriam aprimorados, estratégias para uma política cultural consistente seriam traçadas de forma aberta e participativa. Mas parece que a ninguém interessa a transparência: busca-se sempre a vantagem pontual, imediata, muitas vezes obtida à custa de relacionamentos pessoais, da inserção nas famosas panelas e igrejinhas.

Já recebi relatos sobre artistas a quem, independente da qualidade de seu trabalho, as portas do êxito foram abertas pelas vias mais tortas - troca de diversos tipos de favores, incluindo, pasmem, fornecimento regular de drogas etc; e também sobre artistas que simplesmente não aceitaram as regras do jogo, e a quem, por isso, mais uma vez independente da qualidade do seu trabalho, as portas se fecharam para sempre.

É dessa forma que carreiras artísticas devem feitas e desfeitas? Muitos artistas que se beneficiaram desse sistema nos anos 80 e 90 estão há anos sem vender uma obra sequer, esquecidos pela mídia, mergulhados em crises pessoais profundas. Outros, que nunca se beneficiaram dele, simplesmente desanimaram, apesar de terem uma obra relevante, e foram fazer outra coisa. Outros, ainda, construíram seus caminhos à margem do sistema, ao preço de serem ignorados pela mídia e pelas instituições. Em todos os casos, a arte ficou em segundo plano.

PS 1
Em 1951, uma jornalista do Correio da Manhã perguntou a Portinari sua opinião sobre a Bienal de S.Paulo, sobre o conflito entre a tradição figurativista herdeira da arte modernista e os defensores da abstração geométrica então em voga. Resposta de Portinari: "Devemos fazer esforços para que se aprenda a pintar e que se saiba o que é pintura, e não dizer ‘sou abstracionista’ ou ‘não sou abstracionista’, sem nem saber falar numa cor! O essencial é saber pintar”.

PS 2
Achei uma matéria do Jornal do Commercio, de Pernambuco, que traz alguma informações sobre os negócios fechados na ARCO (já que a imprensa do Rio e de São Paulo não tocou no assunto). Uma frase de uma galerista me chamou a atenção: “Preferimos não divulgar os valores”. Como assim? A galeria privada vai a Madri às custas do Governo e "prefere não divulgar os valores"? Acho que é uma obrigação, não uma questão de preferência. Além do mais, qual o problema em divulgar? Medo da Receita? Voltarei em breve ao tema das galerias e seu modus operandi.

4 comments:

badah said...

Saudações Luciano

Parabéns pela corajosa iniciativa. Sua proposta pode não ser a de criticar a arte, mas basta debruçar o pensamento por um instante sobre uma instituição controversa como essa que as inimizades surgem. Mas, quem gosta de dialogar tem sua simpatia. Venho acompanhando suas impressões no blog com entusiasmo, pois também me intriga essa desmaterialazação da arte. "Intriga" é eufemismo. Na verdade me angustia, me desestimula. Há tempos perdi minha paciência com as instituições artísticas e mal tenho vontade para acompanhar o circuito artístico da minha cidade - coisa que fazia com muito apetite em outras épocas.

Hoje, minha fome é sim de crítica, ironicamente, a porção mais imaterial da arte. Talvez seja uma forma inconsciente que encontrei para tentar retomar algum dia o gosto pela Arte com "A" maiúsculo. E vamos dialogando!

Daniel said...

É engracado mesmo...pois é realmente é um fato que os oprimidos se tornaram os opressores.

Se conversarmos atualmente com qualquer pessoa acerca do atual estagio da arte, essa pessoa tera mais ou menos duas posturas: a primeira nega completamente a possibilidade que a arte contemporanea seja arte, a segunda critica essa postura, muitas vezes atacando-o como um "nao-entendedor" ou simplesmente "reacionario". Dificilmente encontramos aqueles que desejam discutir abertamente sobre o tema. Mas dentre as duas posturas, é interessante ver que a primeira, a que nega a arte contemporanea, tende a ser muito mais plausivel e racional que a segunda. É muito melhor conversar sobre arte com alguem que nega certos aspectos dela, que alguem que "aceita" tudo.

Inumeras vezes quem nega a arte contemporanea normalmente faz isso utilizando argumentos para tal. Nunca é algo gratuito. A pessoa nao pode simplesmente negar e ponto. E tao pouco a pessoa vai afirmar algo acerca da institucionalizacao da arte. Ao contrario, ela normalmente se apoia na historia, filosofia, e ate mesmo sociologia da arte. Muitos argumentos, ainda que eu nao concorde com eles, sao fenomenais! Dignos de serem expandidos em um artigo.

Ja normalmente o grupo que afirma a arte contemporanea, adoram afirmar sua existencia, e normalmente possuem estrategias falaciosas pra tal. A primeira é a falacia ad hominem, que consiste basicamente em atacar o oponente e sua credibilidade, ao inves de lidar com seu argumento: "voce critica a arte contemporanea porque nao entende nada de arte". O problema, é quando aparece um artista famoso, conceituado, e inteligente, que usa bons argumentos. Aqui a figura muda. O argumento tem que ser acerca de sua postura. Entao é afirmado que ele é um "ideologico" e "reacionario": "voce diz isso porque voce é um membro velho da academia, que nao se atualiza". Nota-se que eles nao rebatem os argumentos, mas somente ofendem o cara que usa argumentos.

O segundo tipo de argumento é acerca da ideia da arte. Algumas pessoas adoram falar que a arte contemporanea é "libertadora", pois ela permite que a arte seja uma expressao, e nao mais uma tecnica. Negar que a arte contemporanea é arte é negar sua capacidade expressiva, e com isso, é negar a liberdade artistica. O interessante é que as pessoas adoram dizer, "arte nao é capaz de se definida, pois definir é limitar, e limitar é tirar a liberdade". Eu quero saber porque. Ate hoje ninguem me deu uma boa resposta. E quando eu busco, eles me criticam com base nos dois argumentos acima. O que so me demonstra cada vez mais que as pessoas nao gostam de conversar sobre arte, ou ao menos nao querem que VOCE fale sobre arte. Se voce consegue passar por tudo isso, entao é dito: "Ah! As pessoas tentam definir porque elas querem controlar a arte! Elas querem tornar a arte algo delas! Sao os institucionalistas e burocratas que buscam isso! Quem apoia isso é um ditador!". É fogo...pois tudo é dito, menos um contra-argumento...

O interessante é o seguinte. Como voce vem sendo demonstrado aqui, pois sao utilizados Argumentos, e nao ataques, a arte contemporanea é a coisa mais reacionaria que existe. Hoje em dia alguem que pinta nao tem mais o seu espaco. É dito que essa pessoa é ultrapassada: "sua arte é figurativa, isso nao é mais importante hoje em dia". Perae, se a arte é livre, se ela é expressao, porque entao o cara nao pode fazer o que ele quer? Se existe uma tigela gigante cheio de esperma como arte, por que uma pintura nao pode ser feita? Por que ela esta "ultrapassada"? Nao ha explicacao. Simplesmente é afirmado.

O interessante é que, se antes, quando existia criticos, uma academia, "definicoes", as coisas podiam ser discutidas, hoje em dia elas sequer mais podem. Antes ao menos alguem poderia argumentar. E exatamente por isso que houve o impressionismo, e as demais correntes modernas. Mas atualmente, nao existe mais argumento, so existe afirmacao. Mas que afirma? Por que ele pode afirmar? Nao existe resposta alem dessa pessoa ter simplesmente caido nas gracas de alguem ou do publico. E diga-se de passagem que isso ta sendo bem demonstrado aqui...

Se antes antes a arte era definida, e com isso "nao-livre", hoje ela é arbitraria. Nao existe um motivo, as coisas simplesmente sao assim...e tentar questionar isso é mexer nas forcas da natureza...

Abracos!

Daniel

Daniel said...

Ah! Posso fazer uma sugestao Luciano?

Teve a tempo atras um comment de um rapaz que pintava. So que ele disse que foi muito criticado e que nao pode expor suas obras porque ele era "figurativo". Isso ja estava ultrapassado.

Seria interessante se voce trouxesse o comment pra um dos seus post, e focar no depoimento dele. Pois isso é meio que uma prova do estado atual da arbitrariedade da arte, onde nada pode ser discutido e perguntado, mas que existem regras que ninguem sabem como funcionam.

Fica ae a sugestao.

Abracos!

Daniel

Emerson said...

incrível o artigo, luciano.
todo artista deveria (deveria não, deve) ler esse artigo pois infelizmente, como disse o mestre portinari em 1951, os "artistas" de hoje, como os de sua época, não se preocupam mais com o fazer, com o pintar, e sim com questões menores, sem real importância para a arte.
quando entrei na faculdade em 2006, alguns "professores" tiveram a coragem de tentar desestimular os alunos à pesquisa e ao fazer, enquanto poucos mestres se mostraram realmente interessados em formar novos artistas e enriquecer nossas mentes. parabéns pela forma como levanta tabus. abraço, emerson morais