Monday, March 17, 2008

Mondo business


A obra acima - Hole in Your Fuckin Head, 1992, de Christopher Wool. Esmalte sobre alumínio, 274,3 x 182,9 cm - foi vendida em 2007 por 1,7 milhão de dólares. Nem o urinol de Duchamp vale tanto.

Considerando que:

1) Hole in Your Fuckin Head é uma obra que evidentemente nega a necessidade da mão do artista; é bem possível, aliás, que Wool tenha encomendado a peça a uma equipe de assistentes, sem colocar a mão na massa.

2) nada, concretamente, diferenciaria uma cópia do original - a única diferença seria um "certificado de autenticidade" fornecido pelo artista, para dar alguma satisfação ao comprador; mas os dois objetos seriam efetivamente idênticos... (eu deveria me estender um pouco aqui, mas basicamente: sem a mão do artista não existe aura, como admitiu o próprio Joseph Kosuth, um dos gurus da arte conceitual; como a obra está na idéia, a sua materialização é contingente, e a obra pode ser repetida inúmeras vezes, desde que obedecendo às especificações do artista).

Pois bem, só por curiosidade decidi investigar quanto custaria encomendar uma obra igual, nas mesmas medidas, com os mesmos materiais empregados etc: sairia por cerca de mil reais. Será que estou maluco ou alguém fez um mau negócio? Melhor seria comprar diretamente o certificado de autenticidade e expô-lo na parede, porque um objeto exatamente igual se encomenda na esquina.

Vejam a que ponto chegamos: para enquadrar um procedimento anti-comercial (a produção anônima de um objeto "industrial" como uma placa de alumínio) na lógica especulativa, o sistema é obrigado a lançar mão de "certificados" que comprovam que aquilo é uma obra de arte: sem esses certificados, a arte não existe, e não há especialista que distinga o original da cópia (justamente porque esse tipo de procedimento também conmbate a idéia de original). Mas tentem encomendar na esquina uma cópia de um quadro de Matisse por mil reais, que seja indistinguível do original. Impossível!

Só não encomendei meu próprio Christopher Wool, aliás, porque não combina com a minha sala. Mas me apropriei da expressão "Mondo business", usada pelo Palumbo no post abaixo!

PS Desenvolvendo um pouco a questão acima: mesmo que se consiga distinguir o Christopher Wool encomendado na esquina daquele que foi comprado por 1,7 milhão de dólares, isso não muda o fato de que seriam duas peças igualmente sem aura, sem profundidade, sem a mão do artista. É claro que Wool só reconheceria como autêntica a obra que ele vendeu, mas em que se baseia essa autenticidade? Mais uma vez, numa designação. Ele afirma que aquela é a sua obra, e a legitima, conferindo-lhe valor de troca que a minha cópia não teria.

O que está envolvido nessa questão? Saber até que ponto o anonimato da produção e, a separação entre o artista e o processo de produção de sua obra tem algum impacto sobre a noção de autenticidade e originalidade, e qual a relação que isso pode ter no valor de mercado da obra.
Filosoficamente, é uma questão interessante, que foi trazida à baila quando, em Berlim, em 1922 (!), Laszlo Moholy-Nagy pegou o telefone (uma tecnologia relativamente recente na época), ligou para uma fábrica de placas e encomendou cinco "pinturas", passando oralmente para o atendente as coordenadas de cores, geometria e outros elementos espaciais. As obras, produzidas sem o contato e sem a presença direta do artista, ficaram conhecidas como telephone paintings (imagem acima). Ora, o que Moholy-Nagy estava propondo, 86 anos atrás, era uma discussão sobre as noções de autoria e anonimato, originalidade e repetição, sobre o status cambiante do objeto artístico numa era de reprodutibilidade técnica (na expressão de Walter Benjamin).

Tanto a placa pintada de Moholy-Nagy quanto a placa pintada de Christopher Wool são materializações produzidas industrialmente por operários anônimos de uma imagem mental do artista. Como tal, não dependem de talento, técnica refinada ou virtuosismo na manipulação dos materiais, que eram, até a arte moderna, pressupostos do trabalho do artista. Paradoxalmente, os dois se mantêm fiéis a algumas convenções: mal ou bem são superfícies pintadas que podem ser penduradas na parede ou expostas numa galeria - e comercializadas e colecionadas, naturalmente.

Ou seja, Hole in Your Fuckin Head é uma obra que, em diversos aspectos, se mantém fiel à tradição mais conservadora da arte: é uma tela, é pintado, pode ser pendurado na parede, pode integrar o acervo de um museu ou galeria, pode ser comprado por um colecionador. Ou seja, faz tabula rasa de todas as contestações a essas convenções da arte operadas ao longo do século 20. Mas, por outro lado, nega a necessidade da técnica, do talento, do domínio da linguagem pictórica etc. Trata-se, de certa forma, da transformação da pintura na produção de mercadorias impessoais, como posters - só que numa estrutura sofisticada, que preserva as antigas idéias de autoria, exclusividade e distinção associadas às obras de arte do passado - e com base nas quais se estabelecem as cotações.

Por tudo isso, segue outra obra de Christopher Wool, com uma mensagem endereçada ao seu público: "TOLO"

PS. Outro aspecto merece ser abordado. Tudo o que poderia ser alegado em defesa de Christopher Wool com base numa suposta originalidade também perde o sentido, diante do fato de que coisas muito parecidas - como acontece freqüentemente na produção artística contemporânea - já foram feitas mais de 40 anos atrás!. Por exemplo, na década de 60 John Baldessari empregou a mesma idéia, os mesmos materiais e até a mesma ironia para produzir as obras abaixo. Além disso, tampouco Baldessari sujou as mãos: contratou um pintor de letreiros para executar sua obra - dentro don que se propõe, aliás, muito mais interessante que a de Wool.

1 comment:

rosane chonchol said...

é muito facil distinguir um falso de um original - os críticos de arte surgiram após a a Queda da Bastilha - quando qq cidadão podia ter acesso à uma obra de arte, que antes eram restritas aos palácios. Neste momento apareceram no cenário os críticos, na sua grande maioria italianos, para dar um certificado de autenticidade de qq obra, ou não.