Friday, March 21, 2008

O mercado de arte contemporânea (3/8): o gabinete de curiosidades


“Por trás de todo movimento convulsivo da arte contemporânea, há uma letargia, algo que já não consegue se superar e que gira em torno de si numa recorrência cada vez mais rápida” (Jean Baudrillard)

Para que o pluralismo que caracteriza a produção artística dos últimos 20 anos possa existir e funcionar, ele precisa vir acompanhado de um relaxamento, por parte dos agentes reguladores do sistema, em relação aos critérios que, em todas as épocas, estabelecem o que é ou não arte, e o que é ou não boa arte. Cada época teve sua ideologia, seu conjunto de convenções e valores dominante; cada época teve também seus dissidentes, que rejeitavam essas convenções e valores e propunham algo novo; cada época teve, por fim, seus debates entre uns e outros, a partir dos quais a História da arte andava. Assim os impressionistas, rompendo com as convenções acadêmicas, levaram a Cézanne, que levou ao Cubismo etc. Não foram transições suaves, mas marcadas por atritos e disputas entre representantes de diferentes teorias, gostos, preferências e interesses.

Ora, do final dos anos 70 para cá, o mundo da arte vive uma situação inédita: critérios, valores e convenções deixaram de ter importância, porque todos estão repertoriados e todos são igualmente apropriáveis no jogo pós-moderno das citações. Se mudamos de época, os traços distintivos de nosso tempo são a irrelevância da obra e a ascensão dos curadores e seus lobbies. Por isso é que o curador tem um papel cada vez mais autoral no sistema da arte. Por isso, também, é que se escreve cada vez menos sobre as obras de arte em si, e cada vez mais sobre as redes em que ela circula, os prêmios que ganha, as cotações que atinge etc. Quem freqüenta os vernissages sabe que as conversas ali giram sobre tudo - viagens, praia, restaurantes, festas - menos sobre as obras expostas, às quais o visitante lança um rápido olhar, por cortesia ou meramente para cumprir um ritual, antes de passar a assuntos mais interessantes. Quando se fala sobre a obra, é sempre com adjetivos que pouco dizem, como "achei maravilhoso!"

(Começo a suspeitar que este é um traço do caráter brasileiro. Décadas atrás, o crítico Mario Faustino escreveu, a propósito de nossa vida literária: “Vida literária, emulação, reuniões sérias, leituras de poesia inédita, troca de experiências, debates, nada disso temos. Quando se conversa sobre um poema, o mais que sai, em geral, é o ‘tá bom’, o ‘muito ruim’, o ‘é uma beleza’. Em lugar disso tudo, há o fenômeno amizade, o mesmo que se verifica em nossa administração, em nossa política: meu amigo escreve bem, meu inimigo escreve mal”. Trocando duas ou três palavras, poderia estar falando do mundo da arte hoje, no qual a única divisão que importa é entre "os amigos" e "os inimigos", entre "a gente" e "eles".)

A rigor, nem poderia ser diferente: as galerias de arte contemporânea viraram gabinetes de curiosidades, freqüentados apenas por quem tem ou quer ter laços de amizade ou interesse com agentes do sistema da arte. Por isso não faz diferença a diversidade de tendências, materiais, propostas, atitudes do artista etc. Tudo isso é pretexto, só os ingênuos acreditam que a obra ainda é relevante. Transformadas em eventos turísticos e festivais espetaculares, as bienais são o melhor exemplo disso: ganham espaço na mídia as obras que chamam mais a atenção, as mais estranhas e escalafobéticas, o que é natural: na ausência de um equipamento crítico que aponte e justifique por que determinadas obras são boas e outras ruins, novas ou equivocadas, a percepção da arte se reduziu a isso, à tentativa de captar, nem que por alguns segundos, a atenção do olhar.

Por sua vez, o colecionador não compra mais uma obra de arte, mas o reconhecimento social que sua posse proporciona. O conceito de expertise morreu: um crítico ou historiador podia escrever páginas e páginas sobre uma tela de Cézanne, abordando das cores à composição, das pinceladas à luz e à perspectiva. Mas que tipo de conhecimento é necessário ter para analisar ua placa de alumínio pintada com esmalte indutrial em letras de forma, por um funcionário do artista? Ou um cãozinho de brinquedo? Ou um tubarão partido ao meio?

Se, até o fim da arte moderna, a relação entre os diversos agentes do sistema era feita de tensões e atritos permananentes - tensões e atritos que acabavam servindo como filtros aos quais só sobrevivia a verdadeira arte - hoje os agentes agem em uníssono, com um objetivo comum: o lucro e a reprodução das redes que fazem o sistema girar. Neste cenário, ficou até ridículo falar em arte verdadeira, pois evidentemente toda arte aprovada pelo sistema (leia-se, pelo mercado) é verdadeira. Ao crítico, vale sempre lembrar, não cabe mais o papel de julgar, mas de testemunhar (e chancelar teoricamante) a obra que é designada como arte. Coroando a ação entre amigos, o Estado também dá sua forcinha, pagando viagens a feiras comerciais e delegando aos departamentos de marketing das grandes corporações privadas, via leis de renúncia fiscal, a função de decidir em que tipo de arte merece ser investido o dinheiro público.

Reforça a tese de que os diferentes agentes têm objetivos comuns o fato de que muitas vezes se acumulam papéis: o colecionador particular é também membro do conselho de algum museu ou instituição, ou curador de uma determinada exposição: é um ser com um pé na instituição, um pé no mercado e um pé na crítica (haja pés!). Em suas diversas áreas de atuação, suas atitudes são complementares e se reforçam mutuamente, elevando as cotações dos artistas eleitos: ele aposta na obra que ele próprio legitima, sem depender de instâncias independentes de valorização. Do ponto de vista do artista, o mero fato de integrar determinado acervo ou coleção já é considerado, muitas vezes, um pagamento pela obra. Assim o colecionador não gasta nada, e o artista não recebe nada, mas ambos ganham prestígio e distinção, que aumentarão as chances de novos negócios. Uma mão lava a outra.

Já que as escolas de arte não ensinam mais técnicas de pintura, escultura etc, deveriam ao menos ensinar algo realmente útil: que uma carreira de sucesso se constrói com o acúmulo de capital social, isto é, vence o artista que for capaz de estabelecer contatos e criar laços com os agentes estratégicos do sistema da arte - marchands, curadores, galeristas, críticos etc. Não importa a qualidade do seu trabalho, idéia superada do passado: vale a rede de relacionamentos, capaz de transformar qualquer coisa em arte.

Dos eleitos da vez, não se pode falar, a não ser para rasgar elogios. No passado, era aceitável que mesmo os maiores artistas errassem de vez em quando, fizessem obras menores ou equivocadas. Os eleitos de hoje nunca erram: são de tal forma constantes em sua perfeição que fazer qualquer restrição às suas obras é um comportamento de alto risco para quem faz parte do clube. Para citar um artista que admiro muito: nos anos 80, por exemplo, só se falava de Daniel Senise. Mas já então não se discutia sua arte, nem as questões que ela propunha - como costumava acontecer com os artistas em evidência nos anos 50 ou 60.

No novo paradigma da arte em que vivemos (mas dos quais nem todos se dão conta, ainda presos a uma ideologia moderna), os fatores se inverteram. O êxito, o estar em evidência, não são mais conseqüências secundárias da obra desenvolvida pelo artista; são as condições primárias que estabelecem a existência dessa obra. Não se trata mais de reconhecer, mas de designar. E, uma vez designado e eleito, o artista não precisa mais se preocupar: refratário ás críticas, ele pode dedicar seu tempo às festas, viagens e aos aspectos mundanos do sucesso, ao menos enquanto o sistema não deicidir que é hora de designar novos eleitos.

Essa lógica funciona desde o topo da pirâmide social da arte até o cotidiano dos artistas que vivem de forma mais precária, ou dos estudantes de arte a quem se ensina que não existem mais pintores, só artistas. Por exemplo, a obra lá do alto, um "diamante" de Jeff Koons, foi avaliada recentemente pela Christie's em 20 milhões de dólares. Aqui embaixo, na base da pirâmide, um estudante de arte do Parque Lage ou da UFRJ sente, no seu íntimo, que é capaz de fazer coisa até melhor, sem muito esforço ou dedicação. Pior ainda, ele sente que seu êxito, se optar mesmo pela carreira artística, dependerá apenas da circunstância exterior de ser eleito e promovido pelo sistema. O que isso tem a ver com arte?

5 comments:

Ricardo Soares said...

estamos começando a pré-produzir um programa grande sobre vida e obra de machado de assis... gostaria de conhecer seu livro a respeito ... não tive a sorte de acompanhar quando do lançamento... pode enviar pra mim...me escreva um e-mail, please, que te passo endereço... gratíssimo
ricardo soares
ric59@superig.com.br

badah said...

Sua irônica citação sobre as escolas de arte ensinarem a "ser artista" me lembrou a história do artista Yuri Firmeza, que em 2006 criou um falso "famoso artista japonês", enlouquecendo a mídia cearense.

Queria saber de você (talvez num futuro post), o que pensa sobre esse tipo de "anti-artista" e se esse tipo de trabalho é capaz de abalar os sistemas de poder - ou se acaba servindo apenas aos mesmos objetivos que o autor se propôs a criticar inicialmente.

Celito said...

Caro Luciano,
Eu não tenho culpa de não o ter conhecido antes, do mesmo modo você não tem culpa de não me conhecer.
Aliás, ao invés de arrumar culpados, eu prefiro sempre arrumar soluções.
Mas cara... GOSTEI IMENSAMENTE do que li, posso não ter entendido aquilo que eu poderia ter outra opinião ou linha de pensamento. Aliás, concordância unânime dizem ser burrice, mas nem sempre...
Sou um artista MARGINAL a tudo isto e vem de longa data.
Por tudo o que você escreveu e que muito concordei, foi que eu decidi seguir MINHA própria linha de ação dentro das artes, especialmente agora, usando tecnologia e não dependendo nem de crítica e muito menos de elogios. Longe, bem longe dos 'ditadores das artes' e não precisei de qualquer destes para fazer minha exposição no Museu do Louvre em Dezembro passado ou ter ganho o Prêmio da Academia de Ciências, Letras e Artes de Paris.
Enviarei um e-mail ao seu endereço para não ocupar muito espaço por aqui. Não estamos sozinhos!
www.celitomedeiros.com

Celito said...

Caro Luciano,
Eu não tenho culpa de não o ter conhecido antes, do mesmo modo você não tem culpa de não me conhecer.
Aliás, ao invés de arrumar culpados, eu prefiro sempre arrumar soluções.
Mas cara... GOSTEI IMENSAMENTE do que li, posso não ter entendido aquilo que eu poderia ter outra opinião ou linha de pensamento. Aliás, concordância unânime dizem ser burrice, mas nem sempre...
Sou um artista MARGINAL a tudo isto e vem de longa data.
Por tudo o que você escreveu e que muito concordei, foi que eu decidi seguir MINHA própria linha de ação dentro das artes, especialmente agora, usando tecnologia e não dependendo nem de crítica e muito menos de elogios. Longe, bem longe dos 'ditadores das artes' e não precisei de qualquer destes para fazer minha exposição no Museu do Louvre em Dezembro passado ou ter ganho o Prêmio da Academia de Ciências, Letras e Artes de Paris.
Enviarei um e-mail ao seu endereço para não ocupar muito espaço por aqui. Não estamos sozinhos!
www.celitomedeiros.com

linguagem said...

lucidez absurda, vou ler de novo para tentar aprender a me colocar melhor em meus 'protestos'...