Thursday, October 18, 2007

A Al Qaeda é moderna?
















John Gray faz uma interpretação original e ousada do terrorismo contemporâneo em Al Qaeda and what it means to be modern (Al Qaeda e o que significa ser moderno), um livrinho com pouco mais de 120 páginas (há uma edição brasileira, lançada pela Record). Na contracorrente dos que enxergam em Bin Laden e nos atentados de 11 de Setembro uma regressão a valores medievais e um ataque à civilização ocidental, o autor defende a tese, algo polêmica, de que a Al Qaeda - tanto quanto os cartéis internacionas de drogas e as corporações de negócios virtuais - é um produto da modernidade e do Ocidente, da desregulamentação dos fluxos de capital e da globalização, fenômenos sem os quais sua existência seria inviável.

Além disso, o fundamentalismo islâmico contemporâneo compartilha com outros projetos radicais de transformação social do passado recente algumas características básicas. Gray lembra que os horrores do Nazismo e do Stalinismo foram cometidos em nome da crença numa sociedade melhor e na emancipação total do homem. Foram, desnecessário dizer, experiências desastrosas, com um custo monstruoso em vidas e sofrimento.

Mas, o autor argumenta, da mesma forma que os Gulags e as câmaras de gás foram acontecimentos tipicamente modernos (inconcebíveis antes do projeto iluminista), a crença dos neoliberais no livre mercado como panacéia para todos os males da humanidade também pode ter conseqüências terríveis. E o fundamentalismo islâmico teria em comum com o evangelho neoliberal a convicção de conhecer o caminho para a superação dos conflitos, o caminho para o fim da História. Desta forma, o Islã radical é, como o Nazismo, como o experimento soviético, como o liberalismo globalizado, um fenômeno tipicamente moderno.

Gray é particularmente convincente ao analisar o comunismo. O totalitarismo de Lênin e Stálin, afirma, não foi um desvio ou uma deformação do projeto marxista, mas sua realização levada às últimas conseqüências. A utopia bolchevique virou um pesadelo por se basear numa premissa equivocada do marxismo: a de que a principal fonte de conflitos entre os homens é a luta de classes, quando na verdade esses conflitos têm raízes mais profundas e complexas, ligadas a diferenças étnicas e religiosas, à escassez de recursos e ao permanente choque de valores entre diferentes culturas.

Em relação ao nazismo, Gray afirma corajosamente algo que a maioria dos historiadores escamoteia: apenas em retrospecto as idéias nazistas parecem absurdas e hediondas; na época, ela representavam a encarnação extrema de crenças, práticas e valores muito difundidos. O anti-semitismo era lugar-comum na Europa dos anos 30 - na Polônia e na Áustria, por exemplo, mais até do que na Alemanha. Cientistas e intelectuais respeitáveis, como H.G. Wells e G.B. Shaw, brincavam com a idéia de que a ciência poderia aprimorar a espécie humana.

Paradoxalmente, o sonho de revolucionar a sociedade e moldar uma nova humanidade está na raiz das maiores trágédias da modernidade.

1 comment:

Daniel said...

Parece, dizem, que não houve nada mais cientifico do que os campos de concetração nazistas. Todo um aparato tecnológico criado para exterminar gente. Tudo medido, calculado, quantificado com o que havia de melhor da técnica para otimizar a matança de individuos. Ainda sobre a técnica, o que dizer sobre a bomba de Hirochima? Só pra ficar nesses dois exemplos clássicos de como o máximo do racionalismo gerou - e gera - o mais puro irracionalismo. Heidegger já falava sobre isso desde a década de vinte