Saturday, December 08, 2007

Caninha 51


Comentário do João Vergilio à minha tréplica na Folha, no site Canal Contemporâneo:

"O único problema do Luciano Trigo é que ele não vai até as últimas conseqüências das premissas de que partiu. A cadeira de Kosuth JÁ era uma bobagem em 1965. A triste realidade é que boa parte das artes plásticas do século XX, ao se desvincular da técnica, do talento, do trabalho árduo e meticuloso, transformou-se em algo que não tem interesse nenhum fora dos círculos de discussão acadêmica. Podemos refletir sobre a identidade do objeto quando vemos "As Meninas", quando lemos Platão, ou quando estamos andando pela avenida Paulista. A diferença é que, no caso das "Meninas", nossa reflexão se dá diante de uma obra monumentalmente bela, coisa que a cadeira de Kosuth jamais teve sequer a pretenção de ser. É caninha 51 na veia, só isso. Repetir esse tipo de proposta hoje, eu concordo, não é NEM SEQUER uma boa idéia. É um porre, talvez. Só isso."

7 comments:

Stela said...

A questão da técnica não diz respeito apenas ao domínio de uma artesania, mas também à produção do belo... Gostaria que fosse esclarecido o objetivo de toda esta discussão. Enfim, o que se pretende é um retorno às Belas Artes? É disso que se trata?
Então, vamos lá, como se faz isso? Como desinventamos a fotografia e todo o seu impacto na sociedade, na arte e na função do artista de representar o mundo?

Dica: Ceci n'est pas une pipe de Magritte funciona bem como chave de ligação entre Les Menines de Velázquez e One and Three Chairs de Kosuth.

Wellington said...

Toda essa discussão do final do século XIX sobre a fotografia tem que ser retomada e refeita. Considere só um fato bem simples. O teatro teve que se reinventar em função do surgimento do cinema? Atores e dramaturgos entraram em crise, e começaram a se perguntar se o que eles estavam fazendo não era, no final das contas, inútil, em função da existência dos filmes?
Ninguém está querendo que a arte volte ao século XIX. Ao longo do século XX, apareceram inúmeros pintores absolutamente geniais, que conseguiram fazer aquilo que é próprio do artista em geral: exibir um ASSOMBROSO domínio técnico posto a serviço da produção de obras que nos comovem por sua beleza. É isso que distingue o bom pianista, o bom cantor, o bom escritor, o bom cineasta, o bom ator, e também deveria distinguir todo pintor ou escultor que fosse considerado bom, ou genial.
Pois bem, agora olhe um quadro abstrato de Mondrian. É bonitinho, eu concordo. Harmonioso, e com uma sábia distribuição de cores e formas sobre a tela. Serve como excelente adorno para determinados ambientes. Cai muito bem com determinado tipo de arquitetura. Só isso.
Olhe, dominó é um jogo, e xadrez é outro. Há excelentes jogadores de xadrez, e excelentes jogadores de dominó. Mas o fato é que um excelente jogador de dominó nunca despertará o mesmo interesse que um excelente jogador de xadrez, e isso por um motivo muito simples. Xadrez é um jogo MUITO mais complicado do que o dominó. Algo análogo vale para a arte abstrata. A única desculpa para a abstração seria um grau absurdamente alto de complexidade construtiva. (Um bom exemplo: as caligrafias árabes. Na arte contemporânea, Kandinski e Klee, entre outros.) Se não chegarmos a este grau de radicalidade, não conseguiremos fazer a crítica desse beco sem saída em que a arte contemporânea acabou se metendo.
Essa crítica da mímese tem que ser revista. A capacidade de reproduzir a natureza (modificando-a) sobre uma tela é uma habilidade inescapável para qualquer pessoa que pretenda ser um pintor. A pessoa pode perfeitamente querer aventurar-se fora desse campo. Mas sua obra deve deixar claro que estamos, ali, na presença de um artista capaz de fazer O QUE BEM ENTENDER sobre uma tela, e não de alguém que pinta "manchas expressivas" por falta de talento e formação técnica.
Pior para galeristas que pagaram os tubos pelas manchas expressivas, ou pelos quadradinhos rítmicos. Foram tungados. Fazer o quê?

P.S.: Meu nome é João Vergílio. Como o blog exige uma conta no gmail que eu não tenho, estou sendo obrigado a logar com o e-mail de meu cunhado, que se chama Wellington.

TADADORECADO said...

João faça uma coisa, só para experimentar. Compre uma tela painel ou simples, tintas acrílicas de preferência as três cores primárias (vermelho, azul, amarelo) a partir dessas cores você pode compor as complementares ( os verdes, os laranjas e os violetas), alguns pinceis (quadrados e redondos). Pronto, agora invente qualquer coisa, observe algo e tente pintar, eu disse pintar e não desenhar...ok? Se não conseguir, tente fazer uma composição geométrica, um quadrado, um triangulo ou simplesmente tente reproduzir as paralelas do Mondrian, se novamente não conseguir tente fazer garatujas, manchas aleatórias. Em todas essas experimentações procure materializar cores harmônicas, encontrar o equilíbrio de planos e formas, profundidade, luz, ritmo...Bem, nesse exercício você com certeza terá dificuldades, insegurança, medo da cor, total incapacidade no fazer... Quero dizer com isso, que pintar não é só desenhar muito bem (algo que você tem frisado muito, lá no papo com a Patrícia do Canal Contemporâneo), pintar é ter uma certa intimidade com a cor, com sua materialidade e fluidez. São anos e anos para você ter a sua escrita singular na pintura, no caso de Mondrian é singular, própria é a invenção dele... Portanto, a arte abstrata (o que prefiro dizer arte concreta) que você observa não remeter ao talento, tem suas especificidades e particularidades no fazer, no expressar e é claro na técnica também...Beatriz Milhazes seria desprovida de talento e técnica?
Roberto Silva_artista plástico

Wellington said...

Roberto,

Nem por um momento eu penso que TODA a arte abstrata seja desprovida de valor. Nem penso que eu seja capaz de COPIAR (que dirá PINTAR) um quadro de Mondrian. Tudo isso que você apontou nas telas de Mondrian, eu também sou capaz de perceber - harmonia, equilíbrio e ritmo, basicamente. Mas pense, por exemplo, num quadro de Morandi. Todos esses elementos estão presentes, ali, mas, ALÉM DISSO, outros elementos entram em jogo. Não me refiro aboslutamente às "figuras", neste caso. Em Morandi, como em Volpi, e tantos outros, a figuratividade residual é apenas uma desculpa para o exercício de um jogo que é apenas formal. Refiro-me àquilo que você mesmo mencionou: a familiaridade com a paleta, com a produção de nuanças sutilíssimas. O uso dessas nuanças para produzir um "clima" de repouso absoluto. O jogo de Morandi é muito mais COMPLICADO do que o jogo de Mondrian. É mais profundo. Agora, passe para Modigliani. Tudo aquilo que você tinha em Morandi continua presente, mas acrescido de uma habilidade fantástica de definir feições com um mínimo de traços, seguindo sempre um mesmo padrão. Morandi e Modigliani conseguem fazer uma exibição de virtuosismo que Mondrian não consegue. Eles se dispõem a jogar um jogo com uma complexidade suficientemente grande para nos assombrar. Já Mondrian só consegue ser um bom jogador de dominó. É interessante, pois nos faz refletir sobre ALGUNS elementos que qualquer boa pintura deve possuir. Mas é só isso - interessante. A arte começa muito DEPOIS disso.
Abraço,

João Vergílio

Wellington said...

Antes que eu me esqueça, Roberto. Acho Beatriz Milhazes uma artista FANTÁSTICA! Mas ela tem exatamente a consciência que, me parece, FALTA à maioria dos artistas concretos (também acho o nome muito melhor - vai direto ao ponto) - ela ACEITA o jogo do virtuosismo, e demonstra COMPLETO DOMÍNIO de uma técnica. Faz o que bem entende sobre uma tela. Sem isto, nada feito.
Abraço,

João Vergílio

TADADORECADO said...

João foi bacana trocar essas poucas palavras com você, admirado por suas colocações sinceras e autenticas que fizeram reverberar e desenvolver um ótimo papo lá no Canal Contemporâneo e aqui no Maquina de escrever. Acho que você deixou questionamentos a serem pautados... O Luciano foi de certa forma o nó dessa cutucada, polêmica de inicio, más depois filtrou coisas boas. Você articulou legal. Valeu...
.
Abs. Roberto Silva _artista plástico reciclando conceitos no universo das possibilidades no momento presente.

ding said...

desculpem-me mas voces estão perdendo o ponto.
Sobre pintura, ou sobre qualquer tipo de manisfestação artistica, o que importa é a intenção do artista.
Se ele faz isso bem ou não, é problema dele.
Se todas as obras de arte procurassem ser belas agente ia entrar numa discussão do que é o belo.
O fato é que isso muda muito, muda tanto que eu acho muito belo o trabalho do kosuth.
Mas por exemplo se o belo fosse tomando como os gragos definiram, ou mesmo no conceito renascentista, o que teriamos hj?
van gogh seria uma porcaria, todo romantismo né, pois ainda imperaria o clássico.
Cada um faz o que faz e ponto, não é pq um pintor não domina a técnica mais aguçada de pintura que ele não é um bom artista.
precisam abrir a cabeça!!!