Monday, December 17, 2007

O artista, o mercado e o desenho apagado



Já deu para perceber que arte contemporânea é um tema riquíssimo para debates, em parte porque a reflexão crítica nessa área está aparentemente congelada já há algum tempo no Brasil. Os críticos foram confinados à modesta posição de escrevedores de prefácios para catálogos, quando endossam o que se produz, ou simplesmente expulsos de cena pelos mecanismos reguladores do sistema da arte como mercado. A desvalorização do crítico não aconteceu apenas nas artes plásticas (a crítica de cinema na grande imprensa, por exemplo, foi subtituída por sinopses mínimas, acompanhadas de avaliações aleatórias na forma de estrelas, "bonequinhos" etc). Mas no mundo da arte esse processo foi tão radical que o artista simplesmente se desacostumou a ser criticado: ele verá sempre uma "má intenção", uma "posição política" ou coisa que o valha em quem ousar questionar sua obra. Este foi um dos efeitos do chamado "fim da arte", isto é, como cada um faz o que dá na telha e não existem mais critérios de valoração (senão os do mercado), o questionamento da obra é recebido como ofensa pessoal.

A minha tentativa nos textos sobre arte é entender como chegamos a esse ponto, e algumas coisas começam a ficar claras para mim: no cerne da questão (no coração da matéria, para citar Graham Greene), está a assimilação pela lógica do mercado de projetos, práticas, idéias e valores que, em sua origem, se contrapunham ao próprio mercado. O exemplo clássico e inevitável é o de Marcel Duchamp com seus ready-mades. O gesto de expor o urinol como objeto de arte foi de rebeldia: como o próprio Arthur Danto reconhece, Duchamp se opunha à concepção do "grande artista" como estrela ou herói cultural, por pensar que a adoração exagerada do artista levaria a conseqüências desastrosas. E hoje ninguém é mais adorado do que Duchamp, ironicamente.

O gesto de Duchamp foi destrutivo e anti-artístico. Graças a Duchamp a mão do artista, a técnica, o artesanato deixaram de ter importância - a criação sem a intervenção direta do artista era aliás um ideal dadaísta. Isso teve algumas conseqüências maravilhosas e outras trágicas para a arte. E, nunca é demais lembrar, o urinol é de 1917: tem 90 anos. Uma coisa é reconhecer sua importância histórica, outra é continuar se comportando como se este fosse o último grito da criação artística.

Além disso, o gesto de Duchamp poderia ter tido desdobramentos completamente diferentes. A conspiração de circunstâncias que transformaram o urinol numa obra seminal constituiu um dos momentos-chave aos quais é necessário voltar para se entender a arte moderna e contemporânea. Mas houve outros, naturalmente. Por exemplo, em Berlim, em 1922, Laszlo Moholy-Nagy pegou o telefone (uma tecnologia relativamente recente n época), ligou para uma fábrica de placas e encomendou cinco "pinturas", passando oralmente para o atendente as coordenadas de cores, geometria e outros elementos espaciais [imagem no alto]. As obras, produzidas sem o contato e sem a presença direta do artista, ficaram conhecidas como "telephone paintings". Ora, o que Moholy-Nagy estava propondo, 85 anos atrás, era uma discussão sobre as noções de autoria e anonimato, originalidade e repetição, sobre o status cambiante do objeto artístico numa era de reprodutibilidade técnica (na expressão imortalizada por Walter Benjamin).

São temas retomados hoje numa clave pós-moderna, só que ninguém leva essas questões às suas últimas conseqÜências, isto é, à desaparição do criador individual e à inserção/dispersão da criação artística num contexto impessoal, coletivo e tecnológico. Décadas depois de Moholy-Nagy, artistas como Donald Judd e Jeff Koons copiaram a idéia, atribuindo a execução de suas obras a engenheiros e artesãos - mas, é claro, sem abrir mão da "autoria", da fama e de outras recomepnsas. Ora, hoje, os artistas que se proclamam herdeiros desses gestos de ruptura de rebeldes só concervam a atitude: na verdade estão muito bem "colocados" no sistema da arte. Apesar de tomarem como modelo gestos de oposição ao mercado e à própria noção de autoria, na hora de receber os louros (e euros) se aferram a um ideal romãntico de criador individual.

Ou seja, o sistema da arte agiu transformando gestos de transgressão e revolta de 80 ou 90 anos atrás em modelos de sucesso comercial. Já que a habilidade e técnica artísticas perderam sua relevância, os artistas passaram a poder fazer obras de arte sem na verdade fazer coisa alguma, ou até mesmo desfazendo obras já feitas: foi assim que, já em 1953, Robert Rauschenberg pediu autorização a Willem de Kooning para APAGAR um de seus desenhos, como um gesto de arte. O resultado, o desenho apagado intitulado Erased De Kooning, é representativo dos (des) caminhos que a arte tomou. No alto, a obra e um vídeo em que Rauschenberg a comenta.

Ora, quando eu olho Erased De Kooning, a minha sensação é de que, diante dessa obra, são duas as reações possíveis: a primeira é a de uma fascinação adolescente, a de olhar para algo inusitado e "comprar" a idéia; a segunda é de questionamento adulto, a de olhar algo inusitado e perguntar "Tudo bem, mas e daí? Vamos mesmo reconhecer (e valorar) isso como obra de arte?". O sistema da arte contemporânea depende de um pacto com a crítica e o público, que ao reagirem da primeira forma referendam esses sistema, isto é, engolem como arte tudo o que for "vendido" como arte. Ainda bem que não sou crítico de arte e não preciso me comprometer com esse pacto!

PS Digo que não sou crítico de arte porque não estou interessado no julgamento e na análise de obras de arte em si, premissa da atividade crítica; mas sim em entender a menira como a arte opera na sociedade hoje. O que venho tentando fazer aqui está mais próximo, portanto, de um estudo cultural/jornalístico que de um ensaio crítico.

2 comments:

Guto Brinholi said...

Olá Luciano, venho para um comentário e para parabenizá-lo por levar adiante essas discussões tão necessárias nesse momento.
Fiquei com uma pulga atrás da orelha com a seguinte frase:"... Ou seja, o sistema da arte agiu transformando gestos de transgressão e revolta de 80 ou 90 anos atrás em modelos de sucesso comercial."
Quero dizer o seguinte, é que concordo muito com tudo que você diz e venho passando por um momento de crise. Sou músico e tenho um projeto de educação musical que revisita o futurismo com novas propostas de resignificação do meio, do espaço de trabalho, de vida com o uso de elementos da música eletroacústica. Fico curioso pra saber sua opnião, minha intenção não é fazer nada superficial com relação a isso e gostaria de trocar informações com você sobre isso. Grato e com admiração,
Guto Brinholi

Luciano Trigo: said...

Oi, Guto, acho que seu projeto pode ser interessante, e o Futurismo é, das primeiras vanguardas, o movimento que mais me interessa, aliás.
Eu não quis dizer que qualquer tentativa de releitura do passado é ruim, mas que o sistema da arte se apropria freqüentemente de práticas e valores do passado, distorcendo-os, para alimentar o mercado. O que seguramente não é seu caso.