Thursday, December 06, 2007

Um artista que pensa. E é brasileiro.


Acho necessário reforçar algumas coisas de vez em quando, para evitar mal-entendidos:

Em primeiro lugar: não sou nem pretendo ser crítico de arte, mesmo porque é uma atividade que perdeu toda relevância. Sou jornalista, escritor e editor de livros, não necessariamente nessa ordem, e estas atividades criaram em mim o hábito de pensar críticamente, de interrogar por que determinadas coisas são como são e não são de outro jeito. Foi essa curiosidade intelectual, aliada a décadas de leituras variadas sobre arte, que me levou a escrever o primeiro post, comentando uma matéria da revista Isto É e levantando, sem esoterismos nem comprometimentos de qualquer espécie, algumas hipóteses para explicar o que entendo serem impasses da arte contemporânea. Possivelmente teria parado ali, se aquele primeiro texto não tivesse despertado tantas e tão fortes reações.

Surgiu assim um debate, que em seguida saiu do blog para as páginas da Folha de S.Paulo, e este debate acabou sendo guiado pela necessidade de responder a determinadas questões ou ataques que foram surgindo no caminho. O post Como se processa o reconhecimento da arte contemporânea, por exemplo, nasceu da análise de um texto teórico enviado por uma leitora, texto que a meu ver demonstra a fragilidade das bases do pensamento sobre a arte hoje.

Se a crítica especializada só era capaz de produzir um texto tão modesto, dos artistas nem seria lícito esperar um discurso articulado e inteligente sobre a sua própria produção. De fato, o que geralmente se ouve quando artistas falam sobre arte são discursos superficiais, auto-complacentes, mutuamente elogiosos e fundamentados em idéias de 40 anos atrás. Talvez porque não seja necessário para o sistema da arte - com seu modelo estruturalmente dependente do consumo e da moda - que os artistas pensem.


Mas existem, sim, artistas contemporâneos que pensam com profundidade. Vik Muniz é um deles. Nem sempre sua obra é genial: há momentos que sugerem diluição ou repetição de fórmulas. Além disso, por sua própria natureza, seu trabalho foi perigosamente assimilado por uma certa indústria do entretenimento pop, aparecendo em capas de disco. As suas séries de desenhos feitos com chocolate ou confete foram super-expostas pela mídia. Por vezes, suas obras parecem muito presas a referências a outros artistas. E, apesar do ineditismo dos conceitos e dos materiais, são obras que revelam uma visão figurativa-conservadora da arte, mesmo quando dialogam com artistas não-figurativos (Pollock, Jasper Johns etc) - mas isso talvez seja inevitável, se pensarmos que todo o seu trabalho passa pela representação fotográfica. Por vim, Vik enfrenta o mais perigoso dos inimigos de todos os artistas (não apenas plásticos): o sucesso.



Mesmo assim, Vik Muniz é um artista que está sempre buscando aprofundar sua investigação sobre as possibilidades da representação artística e suas relações com a realidade, o tempo e a memória. Não é um intuitivo: a leitura de seus textos e entrevistas revela não somente inquietude intelectual, mas também uma erudição que nunca é exibicionista nem deslumbrada. Neste link, http://www.vikmuniz.net/www/index.html, estão seis ensaios (em inglês) de Vik sobre questões que permeiam sua obra. E, no vídeo lá no alto, uma palestra (também em inglês) do artista sobre criatividade, pescada no Youtube. Vale a pena ler e ver com muita atenção.

3 comments:

Stela said...

"Hay que aceptar el hecho, tan doloroso, de que ciertos problemas ya no se planteen y tratar entonces de descubrir aquello que los artistas sí se plantean hoy: ¿cuáles son las apuestas reales del arte contemporáneo, sus relaciones con la sociedad, con la historia, con la cultura? La primera tarea del crítico consiste en reconstituir el juego complejo de los problemas que enfrenta una época particular y examinar sus diferentes respuestas."

Por Nicolas Bourriaud, Página 12, Plastica, La repolitizacion del arte en un texto agudo y provocador
http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/espectaculos/6-5027-2007-01-09.html

Luciano Trigo: said...

Concordo plenamente.

Marcela said...

Caro luciano. Só ouvi seu nome depois daquela polêmica no Jornal Folha de São Paulo. Achi algumas das suas idéias bastante pertinentes, mas ao ler seu blog confesso que fiquei desapontado diante de alguns momentos de reacionarismo ou de falta de percepção como no caso da enaltação de um artista ''simplório'' como Vik muniz

"Mesmo assim, Vik Muniz é um artista que está sempre buscando aprofundar sua investigação sobre as possibilidades da representação artística e suas relações com a realidade, o tempo e a memória."

Como????????
Muuuuuito. Levando ad infinitum uma idéia típica de publicitário.
Quem conheceu o trabalho anterior do Vik sabe quanto ele penou e quanta arte mediocre ele fez até encontrar a formula inesgotável, mas já cansada, que garantiu a ele o artista de sucesso que é hoje em dia.
Vamos então esperar o próximo ''inusitado'' material para suas ''novas'' fotos.Lava, asa de morcego, Césio, Po´de meteorito (só para dar a ele algumas sugestões)...