Wednesday, January 02, 2008

Arte, objetos, tecnologia

Quando Picasso fez uma cabeça de touro soldando o guidom e o banco de uma bicicleta velha, em 1943, recriou artisticamente objetos industrializados, acrescentando-lhes valor estético. Como boa parte da arte moderna, o objeto assim criado tinha uma relação direta com o capitalismo industrial que determinava o contexto da época: se o touro era um símbolo da Espanha, o selim e o guidom funcionavam como símbolos da indústria. (Picasso, aliás, imaginou a seguinte hipótese: se ele jogasse fora a obra, um trabalhador que a encontrasse na rua poderia ter a idéia de fazer com ela... um selim e um guidom, invertendo assim o processo criativo, "re-deslocando" suas peças).


Agora vejam só: Picasso tirou o couro que envolvia o selim, couro que foi tirado de um touro: um touro morreu para qua a indústria fabricasse o selim, uma bicicleta morreu para Picasso criar uma cabeça de touro: animal e objeto trocam de papéis, conservando o que têm em comum: o chifre/selim por meio do qual são controlados pelo ciclista/toureiro. Além de manter um caráter de unicidade e autenticidade, valores hoje desprezados, a obra de arte se desd-obra em múltiplos significados, nada casuais, produzidos pela associação entre dois objetos triviais que, em si, não tinham siginificado estético nenhum - num gesto que é imediatamente compreendido e fruído pelo espectador, mesmo que ele não saiba o que é uma assemblage.

Hoje a equação moderna da Cabeça de Touro parece invertida: o artista busca nas novas tecnologias um coeficiente de arte que ele não consegue mais produzir com a sua mão e a sua criatividade. A arte está fora dele, e ser artista passou a ser uma questão de descobrir que forma de reelaboração de coisas passadas - ainda que camuflada de novas pela incorporação de recusos tecnológicos (estes sim, efetivamente novos)- pode ser bem recebida pelo mercado. Naturalmente, a fruição da obra pelo espectador é secundária no processo: a relação relevante é a do artista com a rede que o legitima, não mais a do artista com seu público.


Num de meus primeiros posts sobre arte contemporânea citei duas obras que me pareciam representativas de um beco sem saída: o cachorro amarrado que morre de fome no canto de uma galeria e o artista que implanta uma orelha no próprio braço. São dois casos que despertam uma questão ética importante: vale tudo em nome da arte? Agora me deparei com uma obra, já não tão recente (2000), do brasileiro Eduardo Kac: por meio de manipulação genética, Kac afirmou ter criado um coelho fosforescente, GFP Bunny, que fica verde sob um foco de luz ultravioleta.

O coelho tem a crueldade do cachorro assassinado e a justificativa de uma suposta "pesquisa da relação entre a ciência e a arte" da orelha. Por mais que o artista afirme que a "arte transgênica" deve ser feita com cuidado, parece evidente que a premissa desse tipo de obra é: o artista tem o direito de interferir geneticamente na vida (de certa forma, é a mesma premissa das obras do cachorro e da orelha). Aí, como sempre, vêm as justificativas imobilizadoras: "Por que não, se comemos carne de coelho?", ou "Que importância tem um cachorro morrer de fome diante das crianças abandonadas?" etc.

Dá até preguiça de responder. Sobre o cachorro já falei; sobre o coelho, trata-se de uma aberração genética, que ganha estatuto de arte somente pela afirmação do artista de que o coelho... é arte. Ser artista, nesse contexto, virou a melhor profissão do mundo, a única na qual não existe nenhum parâmetro de aferição (salvo o do mercado, claro, mas não o mercado da oferta e da demanda, mas o mercado simbólico das redes, em que modas, gostos e valores são fabricados cotidianamente). Aliás para o artista contemporâneo não existe nem mesmo a possibilidade do erro ou do fracasso: se tudo pode ser obra de arte pela simples designação, se o reconhecimento não vier não será por culpa do artista, mas da incompetência alheia. Nesse sentido, Kac nem precisava ter tido o trabalho de encomendar a cientistas a manipulação genética: bastava expor um coelho qualquer, "ready-made", por assim dizer, e assinar seu nome no pêlo branquinho para ter produzido uma obra de arte. (Atenção, estou sendo irônico!)

Eduardo Kac ganhou com o coelho fosforescente um espaço na mídia internacional que nunca havia conhecido, apesar de desenvolver pesquisas sérias em arte e tecnologia. Mas depois da fama veio outra polêmica: o laboratório francês que desenvolveu o coelho (o que coloca também uma evidente questão de "autoria") exigiu que o artista lhe devolvesse o animal, que fazia parte de uma pesquisa sobre desenvolvimento embrionário, incluindo a manipulação de dezenas de outros coelhos. Ora, onde então está a arte, se os coelhos fosforescentes já existiam? A impressão que dá é que tudo acaba virando uma novela com sucessivos golpes de marketing. Na verdade o momento da arte transgênica (ou bioarte) já passou. A tal pesquisa da relação entre arte e ciência não levou a lugar nenhum, é claro, como a orelha no braço de Sterlac não levará a lugar nenhum, como as intervenções cirúrgicas de Orlan no próprio corpo, nos anos 90, não levaram a lugar nenhum. O que importa é a circulação permanente de falsas novidades, e sempre haverá gente disposta a o papel do artista arrojado e transgressor.

Ora, a incorporação de novos suportes e a mistura de linguagens de esferas diferentes (arte e tecnologia) não garantem, por si sós, qualidade artística. As tecnologias podem proporcionar novos campos de experimentação, mas não basta uma tecnologia nova para se criar uma nova estética. É por isso que a tentativa, tão recente e já velha, de se criar uma videoarte, uma arte digital, uma arte na Internet e, agora, uma arte nos telefones celulares, não tem dado resultado animadores: as condições tecnológicas para a produção artística estão dadas, mas cadê o talento? Além disso, muita gente esquece que numa simbiose os fatores envolvidos deixam de ser o que eram: quando a arte se confunde com a tecnlogia, ela não é mais arte, nem tecnologia - mas o artista não quer perder mão desse status, é claro.

Quando Picasso imaginou devolver o guidom e o selim à sua condição de objetos comuns, de certa forma ele estava alertando para o seguinte: arte e realidade se relacionam, mas não são a mesma coisa. Deslocar uma coisa qualquer de seu contexto para um museu pode ter um significado artístico, mas apenas numa determinada conspiração de circustâncias, apenas num determinado momento. Mas a arte contemporânea ignora a cabeça de touro de Picasso e prefere o urinol de Marcel Duchamp, porque enxerga neste, equivocadamente, a idéia de que qualquer bobagem pode ser arte.

3 comments:

Priscila said...

Oi Luciano...teu blog é muito interessante, mas tenho até medo de comentar algo...é bastante erudito...sabe...gosto de ponto cruz, na tua opinião isso é arte??

Rosele said...

Luciano, continue... seus comentários sobre arte são lúcidos e inteligentes.
Como procedo para ser incluída no seu mailing list?
rosele

mataador said...

Não, isso não é arte. Talvez seja, na acepção infantil que lhe é dada: "fazer arte", "bagunçar".

Acontece que, como você mesmo diz, hoje tem gente que acha que "bagunçou", fez arte. Resquícios, eu acho, da palavra "vanguarda", dos anos 70, que foi mal lida, mal compreedida e mal desenvolvida (em termos de arte).

Há muito tempo (desde os anos 1980), eu sinto um frio na espinha toda vez que ouço a palavra "instalação"..... Oh, céus! Corram!