Sunday, February 24, 2008

Arte de minorias

É inegável que, nos últimos 30 anos, minorias que não tinham voz no sistema da arte conquistaram espaço no mercado e nas instituições, de forma tal que hoje existe lugar para todos no chamado pluralismo pós-moderno. Mais ainda, o sistema parece estimular as manifestações artísticas associadas a identidades minoritárias, sobretudo as de natureza étnica e sexual, o que pode parecer surpreendente.

Mas o resultado disso é uma fragmentação domesticada, na qual é possível enxergar a aplicaão de uma lógica de cotas ao mundo da arte: cada subcultura opera no seu nicho, e todas dão sua pequena contribuição ao funcionamento do sistema como um todo. Este sistema, inteligentíssimo, percebeu que absorver e comercializar esses nichos era muito mais lucrativo que ignorá-los ou reprimi-los. Aboliu-se assim o abismo que separava um "centro" poderoso e as minorias que o contestavam: eles se deram as mãos, com a bênção do mercado.

Assim, por exemplo, hoje são inúmeros os/as artistas de sucesso que não estão interessados em questões formais ou estéticas, mas simplesmente em afirmar sua identidade homossexual. Depois de décadas de exclusão e silêncio, eles agora vão á forra contra o modelo predominantemente masculino e heterossexual do Modernismo.

É claro que isso dá margem a inúmeros mal-entendidos, distorções e imposturas. Um caso revelador é o do grupo Guerrilla Girls, que no final dos anos 80 lançou uma cruzada contra o desequilíbrio entre homens e mulheres na arte. As integrantes eram ativistas feministas de Nova York, mas também apoiavam a causa dos artistas negros, ou melhor, afro-americanos. Aparentemente se pretendia reparar essa injustiça por decreto, garantindo igualdade de acesso e espaço nos museus e galerias a todas as manifestações artísticas de minorias.

Mas qual era a arte das Guerrilla Girls, que, para chamar a atenção, usavam máscaras de gorila? Basicamente, panfletos, como estes dois:


O primeiro protesta contra a predominância de nus femininos sobre os masculinos na História da Arte; o segundo argumenta que o valor pago por um quadro de Jasper Johns daria para comprar obras de 70 mulheres e negros artistas.

São duas bobagens, evidentemente, e é impressionante como propostas assim ganham espaço e reconhecimento no sistema da arte. É evidente que nus femininos foram muto mais representados que nus masculinos, e daí? E é evidente que um quadro de Jasper Johns pode valer cen vezes mais que obras de artistas menores - não por serem negros ou mulheres, mas por serem, justamente, menores. Basta citar o caso de Basquiat (na foto abaixo, com Andy Warhol), artista negro que hoje está entre os mais valorizados do mundo - mais uma vez, não por ser negro, mas por ser um artista maior.

Parece que, no mundo ideal das Guerrilla Girls, um sistema de cotas garantiria às mulheres e aos negros um espaço igual, nos museus e galerias, aos dos homens e brancos, independentemente da qualidade das obras. Só que não é asim que a coisa funciona. Uma coisa é a etnia ou a identidade sexual do/da artista, outra é a sua obra, cuja qualidade não deveria ter qualquer relação com a cor da pele ou opção sexual. A ser correta a tese de que Leonardo da Vinci era gay, ele não era um gênio por ser gay, nem apesar de ser gay: era um gênio e era gay. O mesmo se aplica a Robert Rauschenberg e Andy Warhol, que eram gays e, a seu modo, gênios. Dá até para especular sobre a existência de uma sensibiidade homossexual específica, mas de forma alguma ela será um determinante necessário da qualidade de uma obra de arte. Fosse assim, todos os gays seriam artistas.

3 comments:

Casa Velha said...

Parabéns por seus textos. Acompanho-o diariamente. Compartilho suas idéias a respeito do atual mercado da arte, em especial para o que se produz em arte contemporânea. Gostaria que pudesse escrever mais sobre a pintura por meios tradicionais, como óleo, acrílica, aquarela e como se situam esses modelos de pintura dentro da arte contemporânea.

-TC-

XTO said...

O sistema da casa da xiclet é o mais democrático e espantosamente traz sempre coisas de muita qualidade.

rosane chonchol said...

Wharol era gay, mas tinha a saúde muito debilitada demais para poder tranzar, e muito menos tempo disponível - tinha de fabricar dinheiro e fazer charme - foi um gênio
ser gay nada tem a ver com ser ou não artista
que besteira!