Saturday, February 23, 2008

Contra o cânone

Estilo, autenticidade e qualidade são três valores que perderam o sentido na arte pós-moderna. A obra de arte passou a valer não por suas características intrínsecas, mas pela sua articulação com o contexto em que ela é produzida, difundida e comercializada.Em outras palavras houve um deslocamento de sentido da obra em si para a obra como manifestação ou ilustração de alguma idéia ou opinião.

Assim, por exemplo, todos os movimentos ligados a minorias ou subculturas (de gênero, raça, opção sexual etc), a mensagem prevalece sobre qualquer questão estética. O mesmo raciocínio, invertido, serve para desqualificar toda a arte moderna como um exercício de poder de homens europeus brancos que impunham seu gosto e seus valores ao resto da humanidade, mulheres inclusive. Daí a rejeição do pós-modernismo à sensibilidade "elitista" e eurocêntrica do cânone moderno. Daí também a desvalorização da beleza, do talento, da técnica, do artesanato etc - todos a serviço de uma ideologia coercitiva e conservadora. Acreditar nisso é ignorar o apelo universal das verdadeiras obras de arte, é claro, mas isto é apenas um detlahe.

Estar ciente desse deslocamento - operado desde o final dos anos 70 - é uma premissa fundamental para se entender o estado da arte contemporânea (que remonta a Marcel Duchamp e seu urinol, nunca é demais repetir). É o que explica, por exemplo, a absoluta falta de questionamento de qualquer das obras expostas por mais de cem artistas brasileiros em Madri, na semana passada: é como se todas se equivalessem, já que os pré-requisitos que importam elas já cumpriram - isto é: serem designadas como arte e serem assimiladas pelo mercado e palas instituições, isto é, pelo sistema da arte. Além do mais, como muitas delas dispensam a própria mão do artista, qual avaliação baseada no talento e na técnica não teria mesmo sentido.

A crença de que qualquer coisa hoje pode ser arte, desde que desginada como tal pelos agentes do sistema, é a base da teoria institucional da arte. É assim que uma cabeça de boi em decomposição virou uma obra de arte caríssima quando Damien Hirst a expôs numa galeria, em 1990, e a obra (pretensiosamente intitulada A thousand years)foi comprada pelo colecionador Charles Saatchi - que opera basicamente como um especulador: infla as cotações dos artistas que ele próprio escolhe para em seguida vender suas obras a incautos, com lucros extraordinários. Segundo essa teoria, a Mona Lisa ou os girassóis de Van Gogh não tem qualidade intrínseca: são apenas expressões da ideologia de seus respectivos contextos, e portanto são equivalentes em valor à fotografia de uma cabeça de cavalo que Mark Wallinger, outro artista inglês pretigiado por Saatchi, intitulou (ironicamente?) A real work of art.

Nem preciso dizer que discordo radicalmente dessa teoria, embora reconheça que é ela que prevalece hoje na arte contemporânea - o que provavelmente me transforma num marginal, numa persona non grata no meio. Como me recuso a enxergar numa instalação ou numa obra conceitual o mesmo valor que enxergo numa escultura de Giacometti ou num quadro de Picasso ou Matisse, devo ser um ignorante, incapaz de entender a genialidade do que se produz hoje. Não estou exagerando: debochar de quem contesta é a reação típica dos artistas que usufruem do atual status quo, mesmo que muitos deles mal sejam capazes de articular duas frases coerentes sobre a diferença entre o conceitualismo e o formalismo.

Pollock, diante de um quadro que acabara de pintar, se perguntou: isto é uma pintura? Não perguntou se era uma pintura boa ou ruim, mas se era uma pintura, tamanho o estranhamento que ele próprio sentia diante da nova arte que criava. Hoje, artistas que talvez nunca tenham ouvido falar em Pollock se acham os gênio da raça por repetirem procedimentos conceituais de 40 anos atrás, sem entenderem o que estão fazendo. Falam mal do quadro na parede e da escultura no pedestal, mas o que mais querem é que suas obras perceíveis ganhem o reconhecimento dos museus e galerias. Se acham muito ousados no uso dos materiais e de velhas idéias, mas quando se trata de mercado e instituição são mais do que tradicionais. Ingenuidade ou cinismo?

Como se sabe, o Expresionismo Abstrato de Pollock representou a linha de chegada do Modernismo tal como entendido e sistematizado pelo crítico americano Clement Greenberg e seus discípulos. Mas os diversos movimentos que eclodiram ao longo dos anos 60 e 70 ainda eram modernos, no sentido de serem fiéis à "tradição do novo". Foram, na verdade, hipermodernos, já que estenderam essa busca do novo a territórios inexplorados, levando a novos materiais, conceitos e suportes - que, nunca é demais repetir, se colocavam contra as instituições e o mercado, caso dos happenings, instalações e performances originais.

Artistas como o alemão Joseph Beuys (foto acima) e o italiano Piero Manzoni continuavam a fazer uma arte crítica e questionadora, uma arte que apostava na emancipação e na conscientização do homem. O mesmo acontecia com a Arte Povera e com os artistas ligados à Internacional Situacionista. Produziu-se muita coisa excêntrica, é verdade, mas não se pode negar a esses movimentos a autenticidade e o conteúdo crítico. Manzoni, por exemplo, assinava mulheres nuas e as apresentava como obras de arte (foto abaixo).

O pluralismo que testemunhamos hoje não tem nada a ver com isso: é um pluralismo domesticado, politicamente correto, que não questiona nada e alimenta um selvagem mecanismo de especulação. Se antes a idéia era fugir dos espaços dominados pelas convenções culturais dominantes, sabotando assim os mecanismos do mercado, hoje todos correm para esses espaços e para o mercado. A agenda radical dos anos 60 se transformou numa produção bem comportada voltada para alimentar o sistema especulativo. A atitude de vanguarda se profissonalizou e se institucionalizou. Também nunca é demais lembrar que esse processo começou quando o mundo entrou num período politicamente conservador, com Ronald Reagan na América e Margaret Thatcher na Grã-Bretanha.

Por tudo isso, a arte contemporânea parece se encontrar numa encruzilhada de contradições, na qual o próprio artista está compreensivelmente confuso, sobretudo nm país já naturalmente confuso como o Brasil. Aparentemente sobram motivos para euforia: aumento constante das cotações, abertura do sistema para países periféricos, êxito no exterior, ainda que tímido, de artistas com menos de 50 anos. A contrapartida é a submssão incondicional às regras do jogo mediático-especulativo, no qual os grandes colecionadores, incluindo corporações, ditam as regras do jogo com a cumplicidade de curadores, marchands, galeristas, críticos etc, movidos por interesses que podem ser os mais mesquinhos.

Nesse cenário ao mesmo tempo afluente e sombrio, o desafio é encontrar maneiras de escapar à lógica do sistema sem cair na invisibilidade total e, portanto, na irrelevância.

Na ilustração, The innocent eye test, de 1981, quadro de Mark Tansey que cita outro quadro, The young bull (1647), de Paulus Potter.

4 comments:

Rick said...

O seu texto começa com um conceito de difícil entendimento, que são as tais "características intrinsecas". Considerando que sejam elas as três que vc elencou, acho que (1)Estilo, perdeu o sentido não na pos-modernidade, mas a partir da ação das próprias vanguardas modernistas, e diga-se de passagem, nada a lamentar. (2) Autenticidade - também foi duramente questionada, mas acho que foi um valor resgatado pelo mercado, conjugado ao individualismo e à necessidade de uma etiqueta para o produto, e finalmente com relação à qualidade, acredito que não se perdeu o sentido, mas "um" sentido e a pretensão arbitrária de universalização, que vc mais a frente chama de "impor seus gostos e valores ao resto da humanidade".
O que seria o tal " apelo universal das verdadeiras (!) obras de arte" ?
Não acho que este "deslocamento" seja a melhor explicação para a falta de questionamento e de crítica na arte contemporânea, diagnóstico com o qual concordo, como alias ( em linhas gerais) com o resto de seu texto.

Daniel said...

Eu gostaria de colocar uma nova questao.

Concordo com voce quando afirma em um ponto determinado quando diz que teria “acabado” a funcao da estetica pra analise artistica. Se eu consigo entender um pouco acerca da historia da arte, eu diria que essa necessidade da estetica para a arte, ou seja, que o objeto artistico deveria estar comprometido com a representacao de algo sublime, uma beleza alcancada por um tipo de harmonia das formas utilizadas pela midia artistica em questao (musica, pintura, arquitetura, etc) comeca ja antes da propria arte contemporanea.

O impressionismo, e as correntes subsequentes, libertaram aos poucos a arte da necessidade da beleza como sua qualidade primaria. A arte nao seria mais julgada atraves da possibilidade de transmitir um tipo de efeito estetico, mas atraves de uma capacidade de expressao. No caso, uma arte nao é mais um objeto proprio de analise estetica, mas sim um tipo de objeto que representa a expressao de um artista. Ainda que possa ser alegado que antes a arte tambem era a expressao de um artista, ela nao era pensada primariamente desta forma, mas sim como um tipo de objeto que deveria atingir um determinado grau de beleza. Se eu estou correto, o objetivo do artista antigamente era buscar atingir com sua obra um determinado grau de beleza, e apos do impressionismo, o artista comecou a buscar demonstrar aquilo que ele sente, que ele ve (atraves de sua perpectiva), etc. Desta forma, antes os artistas buscavam atingir algo propriamente capaz de ser objetivado, pois a beleza é algo que poderia ser determinado atraves de certos padroes objetivos. Depois os artistas buscavam atingir um grau de auto-expressao, da expressao do subjetivo, e por isso buscavam criar tipos de tecnicas que se extendessem daquelas que sao figurativas, atingindo seu maximo no expressionismo abstrato. No entanto, na objetivacao do subjetivo, e na busca de criar tecnicas para isso, a arte ainda possui criterios ao qual pode ser julgada, pois a melhor arte é aquela que melhor transmitiria aquilo que o artista realmente estava sentindo. Ok, reconheco que aqui ha um grande problema epistemologico, pois nao ha a possibilidade de realizarmos este julgamento de forma clara, e, talvez por isso, o que comecou a ser afirmado é que o importante nao é o julgamento da obra do artista, mas sim a relacao que os individuos possuem com ela, os efeitos da obra sobre estes. Mas mesmo aqui ainda haveria um tipo de possibilidade de criterio, pois uma boa obra seria aquela que pudesse criar indagacoes nas pessoas de forma quantitativa (no maior numero de pessoas possiveis) e de forma qualitativa (desenvolver nas pessoas um tipo de sentimento poderoso).

Com Duchamp, me parece que a questao foi ainda mais radicalizada, pois agora a arte nao somente nao precisa ser relacionado com uma funcao estetica, como a arte sequer necessita ser a expressao do artista, a arte agora se tornaria algo que tem sua realidade na vontade do artista. Para alguem fazer arte, este nao necessita mais buscar realizar algum tipo de expressao, ou ainda buscar cumprir algum tipo de funcao, mas somente quer fazer arte. A arte deixa de se tornar um tipo de objeto capaz de ser julgado por algum criterio, pois a arte nao é mais algo que deve fazer algo ou ser algo. O objeto é arte porque alguem assim quis. A arte é um atributo dado pelos homens aos objetos, e nao um tipo de criterio a ser cumprido.

Nesse sentido, eu acredito que o Duchamp foi extremamente genial. E ele esta, em muitos ponto, certo com sua questao. Pois no fim, o que seriam esses criterios da criacao da arte? Por que esses criterios e nao outros? No fim, o que ele fez foi devolver a arte à mao dos homens. Pois ele simplesmente buscou mostrar que a arte é algo criado por nos, e nao uma idea universal.

Assim, se o Duchamp ajudou a criar o pos-modernismo na arte, ele com certeza tambem é aquele que destroi o mesmo. Pois se a arte é uma criacao do homem, a criacao de um objeto artistico é plausivel de ser feita em inumeros momentos, e por inumeros motivos. Nao acredito que o Duchamp tenha destruido o uso dos criterios para a feicao da arte, mas sim demonstrado a sua pluralidade. Exatamente por isso, fica complicado afirmarmos que o pos-modernismo na arte é essencialmente comprometido com sua venda, com um mercado com M maiusculo. Quem criou o mercado nao foram os artistas, mas sim capitalistas, investidores. Se uma arte é produzida para ser vendida, por que nao? Mas ela nao precisa ser produzida com este fim, a arte depois de Duchamp nao tem mais fins.

O capitalismo é capaz de tornar o proprio comunismo vendavel, e faz com que os comunistas ajam de forma que eles mesmo pregam como repulsiva. Da mesma forma, o capitalismo foi capaz de criar um mercado da arte. Mas isso nao significaria que a arte seja definida atualmente atraves de seu valor de mercado, pois a arte precisa somente ser arte, e nao algo com algum tipo de fim, seja ele financeiro. O que achas?

Me desculpe pelo longo comment

Abracos

Daniel

Henrique said...

Achei a tira que citei em meu comentário recente a este post:
http://www.s-anand.net/calvinandhobbes.html#19911027

Henrique said...

ops. Tenho a impressão de que não consegui enviar o primeiro comentário, em que citava a tira de Calvin & Hobbes que acabei de linkar. No texto, eu apenas indicava aquele diálogo como uma das manifestações mais ferinas a respeito do estado atual da arte. Aí vai link da tira de novo:

http://www.s-anand.net/calvinandhobbes.html#19911027