Saturday, March 22, 2008

Maldição eterna a quem não gostar do Tunga!


Muitas vezes um processo de transformação cultural ou artística demora anos, ou mesmo décadas, até ser assimilado pelas pessoas em geral e transformado em senso comum. Por exemplo, é interessante observar como, ao longo dos anos 80, o discurso teórico que se produzia sobre a arte ainda era "moderno", enquanto as próprias manifestações artísticas já tinham se desligado do espírito modernista. O sentido e a natureza da expressão "arte contemporânea", tal como ela é usada hoje, foram se sedimentando aos poucos, de forma tal que hoje é consensual, no mundo da arte, o reconhecimento de que houve uma mudança de paradigma, isto é, que a arte produzida nos últimos 30 obedece a um conjunto de valores diferente daquele que caracterizava a arte moderna, incluindo seus últimos movimentos de vanguarda, nos anos 60 e 70.

Mesmo assim, muitas pessoas razoavelmente cultas ainda não fazem distinção entre arte moderna e contemporânea, nem muito menos suspeitam que as relações entre o artista, o mercado e as instituições mudaram radicalmente. Isso acontece, em parte, porque estas pessoas deixaram de ter importância para o sistema, ou melhor: da mesma forma que a função da crítica foi anulada pelos gestores do mundo da arte - o crítico só serve hoje para testemunhar, não para julgar; seu trabalho passou a ser escrever prefácios de catálogos, ou mesmo fazer curadoria de exposições - o papel do espectador comum também foi reduzido ou mesmo eliminado, a não ser como consumidor passivo. Isso faz todo sentido, porque, na verdade, o crítico nada mais era que um espectador esclarecido, informado, qualificado para julgar esteticamente a obra, o que naturalmente tinha impacto na carreira e na cotação do artista. O movimento que tira de cena o crítico independente é o mesmo que dispensa o espectador com opinião.

É curioso: mesmo sem ter, rigorosamente, criticado de forma negativa nenhum artista, pois minha preocupação não é esta (quem tiver dúvidas deve reler todos os posts deste blog, desde novembro de 2007), despertei reações hostis não somente de alguns artistas como também dos seus satélites, gente que sem sequer ter lido o que escrevi passou a me olhar torto, a deixar de me convidar para festas etc. Passei a me perguntar por quê: a conclusão a que cheguei é que o novo paradigma da arte (que, de alguma maneira, determina o comportamento dessas pessoas) não é avesso apenas à dissidência, mas ao próprio pensamento - já que pensar implica, naturalmente, a faculdade de julgar, e o julgamento é coisa do passado.

Nas artes plásticas, vivemos a era da unanimidade. Se um artista ganha espaço na mídia, viaja ao exterior, participa de bienais, independente do que faça, isto significa que ele virou assim uma espécie de Deus reencarnado, de infalibilidade papal. Maldição eterna a quem não gostar do Tunga! (Nada contra o Tunga, só o cito como ilustração do fenômeno que estou analisando). Se um cidadão comum achar a obra do Tunga uma bobagem, este cidadão é uma besta, não entendeu nada; se se trata de um jornalista ou alguém razoavelmente informado, ele pode não ser uma besta, mas é, evidentemente, um reacionário.

Na ilustração, a obra mais conhecida de Tunga, as gêmeas "xifópagas pelo cabelo".

2 comments:

rosane chonchol said...
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rosane chonchol said...
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