Saturday, March 29, 2008

O que virá depois do pós-moderno?


O pós-modernismo não é um fenômeno limitado às artes visuais, seu impacto atinge todas as esferas da vida. Mas é interessante observar como a produção artística contemporânea ilustra as grandes características pós-modernas - sempre tomando como referência o Modernismo:

1) descrença nas grandes narrativas - no caso, a grande narrativa da arte moderna, substituída pela fragmentação pluralista e a-histórica;
2) crise de autoridade cultural: a verdade e o conhecimento são relativos e dependem de um sistema de relações de poder e de jogos de linguagem - coerentemente, os valores absolutos da arte moderna se esgotaram e foram abandonados;
3) mudança da produção para a reprodução - a arte é dominada pelo império das citações, apropriações e recombinações de recursos e linguagens do passado, em novos contextos.
4) a substituição da realidade, convenção antiquada, por uma ficção, isto é, por uma mitologia fabricada pela mídia, pela publicidade, pela indústria do espetáculo etc - cujos mecanismos são cada vez mais usados pelo sistema da arte.
5) a falência das utopias baseadas na crença no potencial emancipador do progresso, da ciência e da política - que encontra seu correspondente nas teses sobre o fim da (história da) arte de Arthur C.Danto e Hans Bellmer, que, em termos práticos, afirmam que a arte já bateu no teto, já cruzou sua linha de chegada.

Por tudo isso, a atitude do artista contemporâneo em relação á História da Arte, sobretudo em relação á arte moderna, é fundamentalmente irônica (quando não é de desprezo e ignorância). O quadro acima, de Mark Tansey (já citado em outro post), ilustra isso muito bem, começando pelo título>: "Uma breve história da pintura moderna" (1982).

A obra, supostamente, "desconstrói" a interpretação da arte moderna como uma evolução linear em relação à pureza de cada suporte, dispensando paulatinamente elementos estranhos a ele - por exemplo, as funções de narrativa e representação. Assim, do Renascimento ao Impressionismo, a pintura era uma "janela na parede", que levava o olhar do espectador a outro mundo; com as colagens cubistas, no começo do século passado, a tela ganha opacidade: a pintura, na superfície, não remete a um fato exterior, mas cria um fato pictórico; por fim a pintura se transforma num reflexo do ego do artista.

Engenhoso e engraçadinho, sem dúvida. Mas, curiosamente, para executar essa brincadeira, Tansey recorre à pintura, e à pintura numa linguagem figurativa primária. Ora, se o artista se coloca fora e acima desta superada história da pintura, isso me parece uma contradição. Além do mais, obras-primas foram feitas tanto no modelo da janela para o mundo quanto no modelo da opacidade da tela, enquanto o painel de Tansey, bem, me parece distante de uma obra-prima. É,a rigor, mais um comentário do que uma obra de arte.

Isto porque a arte nunca esteve nas convenções que prevaleceram em cada época: essas convenções eram apenas uma estrutura, dentro da qual se podiam fazer obras geniais ou medíocres. Denunciar a existência dessas convenções não diminui em nada o valor estético de um pintura de Rembrandt ou de uma colagem de Picasso - nem, muito menos, transforma em artista o denunciante.

2 comments:

Tatiana said...

Oi Luciano, gostei bastante do seu blog. Não sou artista, meu caminho é mais literatura, mas você escreve de uma forma bem bacana. Abraços,

Tatiana
http://tcarlotti.blogspot.com/

Daniel said...

Uma pergunta talvez ainda mais relevante seja: "estamos no pos-modernismo?", ou "existe algo como isso?"

É muito interessante esse tipo de comprometimento da arte com um tipo de ideia, "pos-modernismo", que tanto no plano normativo, como da filosofia, quanto do plano descritivo, como da antropologia e sociologia, é extremamente discutida e muitas vezes é somente mais uma das teorias ao lado das demais, e em algumas vezes é sequer levado como algo a serio, mas sim uma histeria vinda de ciencias humanas que nao possuem um tipo compromisso de investigacao real acerca da sociedade e dos individuos.

É interessante tambem que o compromisso do pos-modernismo com relacao as artes é buscar mostrar uma certa arbitrariedade das artes. Para isso, busca tornar a arte arbitraria. Mas o complicado é que a maioria desses artistas nao conseguem perceber que mesmo sua arbitrariedade se insere em um tipo de logica social, uma logica que respeita certas normas, sejam elas normas economicas, politicas, ou ainda de outro nivel, como religiosas. Toda arbitrariedade que sai da logica que rege naquele momento a postura de sua sociedade frente as artes, é uma arbitrariedade incapaz de produzir arte, pois ela é incapaz de ser reconhecida pelos individuos inseridos naquele contexto.

A melhor negacao da possibilidade da arte sem um tipo de logica social sao trabalhos de antropologia e de sociologia, que mostram como um tipo de coisa que é considerado arte em um momento, ainda que esta sequer tenha o nome de arte, é um tipo de coisa que obedece uma serie de padroes normativos sociais e culturais do contexto que a arte esta inserida. É impossivel fugir à tal "prisao" da determinacao conceitual.

Voce mesmo Luciano, vem mostrando aqui como as artes dentro do contexto social atual, de globalizacao e completa transformacao da vida em hyper-realidade, que faz com que os individuos fiquem ainda mais dependentes de sub-sistemas economicos como companhias televisivas, telefonicas e de internet, transformou a arte em um tipo de objeto cada vez mais imaterial e cada vez mais comercial.

A arte atual nunca foi pos-moderna, no sentido de estar sem comprometimentos sociais ou culturais, pois ela sempre se relacionou diretamente com um tipo de cultura e sistema social que rege cada vez mais a vida atual.

O que vem depois do pos-modernismo? Bem, eu acredito que seria simplesmente o reconhecimento que isso nunca houve como pregoado por seus proponentes. Depois...bem, so a historia vai dizer.

Abracos!

Daniel

PS: vale ressaltar que a propria ideia central da "teoria" pos-moderna, a da morte de meta-narrativas, é algo que se mostra falsa contemporaneamente. Sociedades altamente desenvolvidas, como os EUA, a Europa, e, por que nao, o proprio Brasil, possuem crencas basicas universais: primeiro, a primacia dos direitos humanos, segundo, a necessidade do Estado democratico de direito.

Duvido que qualquer cidadao brasileiro fosse acreditar que a democracia ou as liberdades humanas sejam algo passageiro ou simplesmente algo que podem ser relativos a alguns cidadaos.